Horror feito de nobres e servos

Na origem dos seres, aristocratas europeus e trabalhadores haitianos em regime de semiescravidão

Luiz Nazario, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h10

A dramaturgia dos vampiros sempre foi mais elegante que a dos zumbis. É que os vampiros têm uma origem nobre: são inspirados em aristocratas, como Vlad III, Príncipe da Valáquia, que gerou o conde Drácula, do romance de Bram Stoker, fonte de uns 250 filmes; ou a condessa húngara Erzsébet Báthory, matriz histórica da Carmilla de Karnstein, da Condessa Drácula, das vampiras lésbicas. Por sua estirpe, o vampiro é o "príncipe das trevas".

Já os zumbis são nativos do Haiti, associados aos primitivos rituais vodus. Trabalhadores braçais em regime de semiescravidão nas plantations, adquirem, sob o feitiço, olhos horrivelmente esbugalhados. No primeiro filme de zumbis, O Zumbi Branco (1932), Bela Lugosi fabrica zumbis para um fazendeiro. Quando este se apaixona pela noiva de um estrangeiro, pede ao "mestre dos zumbis" que converta a mulher em morta-viva. Mas se no trabalho a condição de zumbi ajuda, no amor atrapalha: o fazendeiro não consegue consumar seu desejo, a beleza torna-se inútil na mulher sem alma.

No horror clássico, os zumbis assustavam somente pela aparência alienada. Quando uma zumbi se aproximava da mocinha em Eu Andei Com Um Zumbi (1943), o horror estava também na discreta sugestão de lesbianismo. Os primeiros zumbis, ao contrário dos vampiros, que sempre representaram uma ameaça de contaminação, não passavam de aparições desagradáveis. É com Mortos Que Matam (1964) que surgem os "zumbis apocalípticos", produzidos pela radioatividade após a imaginada guerra nuclear.

Os zumbis apocalípticos são canibais ativos, numa mudança de paradigma possibilitada pelo fim do Código de Produção (1968). George Romero introduziu nessa nova dramaturgia a visão "politicamente correta" com mutilações explícitas: em A Noite dos Mortos Vivos (1968), é um negro o herói que mata os zumbis carniceiros e resiste até o fim ao assédio canibal, sendo, porém, tragicamente assassinado por brancos racistas que o tomam por zumbi. Mas sejam negros ou brancos, escravos passivos ou devoradores ativos, os zumbis permanecem uma gentalha de cemitério (como no Thriller, de John Landis) que hoje anima adolescentes reprimidos nas classes médias, ou detentos dançarinos na prisão de Cebu, nas Filipinas.

Já o vampiro é um elitista que mora em castelo, isolado da turba. Ele só anda de carruagem, escolhendo noivas e contratando seus auxiliares com mordidas especiais. Aos imprudentes que o visitam nos Cárpatos, ele oferece vinhos raros em taças preciosas. Gosta de adquirir imóveis antigos e cultiva relíquias de família. É um expert. Esse aspecto de sua personalidade foi exacerbado em O Historiador (2005), de Elizabeth Kostova, onde o vampiro é um bibliófilo colecionador de manuscritos, que vive numa rica biblioteca subterrânea, sugando o sangue que o torna imortal para ter a eternidade para ler os livros que acumula, realizando o sonho de todo intelectual.

Se o calvário do vampiro é mais espiritual, o do zumbi é mais material. O que deseja essa desgraçada criatura do Terceiro Mundo? Apenas saciar sua fome, que se mostra, contudo, insaciável. O desejo de comer desse famélico terminal cresceu tanto em sua mente que chegou a adquirir a força dos músculos de Schwarzenegger no auge do fisiculturismo. Tudo o que o zumbi quer é comer nossa carne. A toda hora. Lembra os partidos populistas com seu eterno slogan: "Agora o pobre pode comer carne uma vez por semana". Nada mais importa ao zumbi. Em alguns filmes, o zumbi se especializa. Mas a especialidade dele não podia deixar de ser a devoração de um quitute. De todo o corpo da vítima, o zumbi especializado só come o cérebro. / Luiz Nazario é professor de História do cinema da UFMG, autor de Tdos os corpos de Pasolini

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