Horror com política no futuro sombrio de Extermínio 2

A crise da autoridade na Inglaterra de Blair, representada pelo pai que caça os filhos para matar, está no centro do filme que chega às salas de cinema do País

Agencia Estado

07 Junho 2012 | 03h39

Danny Boyle surgiu como uma das grandes promessas do cinema inglês nos anos 90, com dois filmes fortes - Cova Rasa e Trainspottting - Sem Limites. Ele meio que perdeu o rumo em A Praia, mas Extermínio virou cult ao antecipar um futuro apocalíptico, no qual um vírus ameaça destruir a humanidade. O sucesso estimulou Boyle a fazer a seqüência, que ele não dirige. Extermínio 2, em exibição há duas semanas, foi apenas produzido por Boyle, que delegou a direção ao espanhol Juan Carlos Fresnadillo, de outro filme cult, Intacto, lançado em DVD no País. Se o futuro de Extermínio já era sombrio, o de Extermínio 2 é mais sombrio ainda. Na abertura, um rápido histórico lembra os eventos do filme anterior - em 28 dias, a contaminação da população por um vírus que transmite uma raiva mortal cria a sociedade de zumbis que se entredevoram numa Inglaterra em quarentena. O fato de ser uma ilha favorece o isolamento e Extermínio termina com a ameaça momentaneamente contida, mas não erradicada, o que abria, há cinco anos - o filme é de 2002 -, a possibilidade de uma continuação da saga. Fresnadillo mostra agora, 28 semanas depois, Robert Carlyle (substituindo Cillian Murphy como nome mais conhecido do elenco) que vive com a mulher e umas poucas pessoas numa casa isolada. O local é invadido pelos zumbis raivosos e Carlyle, acovardado, foge para salvar a pele, deixando a mulher para trás. Corte para Londres, onde uma força americana de ocupação assume o controle da lei e da ordem. Os dois filhos de Carlyle juntam-se ao pai, que trabalha numa área segura da capital inglesa (uma ilha dentro da ilha). Mas a situação vai escapar ao controle. Isso coincide com a descoberta de que a mulher não morreu, desmontando a versão heróica que Carlyle elaborou para os filhos. Embora mordida pelos zumbis, uma anomalia genética tornou-a imune à doença. Como a anomalia se transmite aos filhos, as duas crianças - um menino e a irmã mais velha - podem virar as duas únicas esperanças da Terra. Uma médica e um soldado da força de ocupação farão de tudo para salvá-los, mas o pai, que foi infectado, persegue os próprios filhos para matar. Fresnadillo criou uma metáfora não muito difícil de elucidar. A aliança do premier Tony Blair com o presidente George W. Bush na questão do Iraque o leva a esse personagem de pai enlouquecido, que representa não apenas a perda da razão como o momento em que a autoridade se torna prejudicial aos cidadãos. Os americanos, como força invasora, não são poupados. Eles podem entrar na Inglaterra com a melhor das intenções - salvar a humanidade e a democracia, combatendo a uniformização das mentes, como vivem dizendo -, mas Fresnadillo não tem ilusões. Os americanos terminam fazendo o que sabem. Disparam, indistintamente, tanto faz que suas vítimas sejam infectadas ou não. Despejam toneladas de bombas que, como o napalm nas selvas do Vietnã, torram as pessoas num mar de fogo. Extermínio 2 termina de novo em aberto, mas desta vez a ameaça ultrapassou os limites da ilha e atinge outros países e cidades. Fresnadillo e Boyle deixaram a porta aberta para o 3. Até chegar a esse desfecho, o diretor cria cenas gráficas de violência (além de detalhes que revoltam o estômago). Extermínio 2 não é agradável de se ver, mas é impactante. A idéia dos zumbis, como no cinema de George Romero (The Night of the Living Dead, Terra dos Mortos), torna-se indesligável da noção de um momento de crise da humanidade.

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