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Lúcia Guimarães
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Hormônios, chimpanzés e asneiras

“Com os hormônios que eu tenho, uma mulher não deveria ter a chance de começar uma guerra.”

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2016 | 02h00

A pérola foi proferida por uma mulher, Cheryl Rios, e mais, uma empresária no ramo de relações públicas de Dallas, Texas. Ela escreveu o comentário na rede social, dias após Hillary Clinton anunciar sua candidatura a presidente em abril de 2015. Dois meses depois, um ser humano emocionalmente instável e com grande número de ligações perigosas no currículo também se declarou candidato a presidente dos Estados Unidos.

Lembrei o episódio porque Rios é dona da Go Ape Marketing. Go ape (virar macaco) é uma expressão idiomática para descrever uma reação intensa, fora de controle, tanto por alegria ou por cólera.

Como sabemos, primatas são especialidade da grande antropóloga Jane Goodall, com mais de meio século de estudos de chimpanzés na Tanzânia. O veterano jornalista James Fallows foi redator de discursos presidenciais e, em seu fascínio pelo inesperado domínio do candidato Donald Trump no palco eleitoral, teve a sensata ideia de consultar a primatologista. Reproduzo aqui as declarações de Goodall a Fallows, na revista Atlantic:

“De várias maneiras, as performances de Donald Trump, até agora, me fazem lembrar de chimpanzés machos em seus rituais de dominação. Para poder impressionar seus rivais, os machos que aspiram a subir na hierarquia de dominação têm um desempenho de espetáculo: batem pé, dão socos no chão, arrastam galhos, atiram pedras. Quanto mais vigorosa e imaginativa a performance, mais rápido galgam a hierarquia e mais tempo se mantêm sua posição.”

Fallows recorda uma passagem da autobiografia Minha Vida Com os Chimpanzés, em que Goodall narra o comportamento de Mike. O símio mantinha sua posição dominante chutando latas de querosene à sua frente quando passava, criando confusão e barulho que afugentavam seus rivais. Goodall disse ao jornalista que estaria pensando em Mike quando vierem os debates presidenciais, o primeiro deles marcado para 26 de setembro.

Na semana passada, Hillary Clinton esteve perto de desmaiar, desidratada por uma pneumonia que insensatamente decidiu não revelar. Dias depois, divulgou mais detalhes sobre sua saúde e não há hormônios imaginários ou fato conhecido que a impeça de ter o dedo no botão nuclear. 

Já o candidato republicano, além de obeso e de se alimentar de junk food, tem uma tendência a dar sumiços por cansaço, segundo seu biógrafo David Cay Johnston, entrevistado pelo Aliás. Durante a semana, Trump foi ao talk show de um charlatão da safra Oprah Winfrey de autoajuda, o apropriadamente chamado Doutor Oz. Encenou a revelação de mais informações médicas e disse, sério e sem ser desafiado: “O fato é que eu me sinto com 35 anos.”

Qualquer vendedor de biotônico sabe que um homem de 70 anos não pode se sentir com 35. Mas a impunidade com a mentira e diferença de tratamentos dispensados aos candidatos não se explica apenas pelo hábito do republicano de chutar latas de querosene. Desde que Hillary precisou caminhar para um banheiro que ficava mais longe do pódio do que o banheiro masculino, durante um debate com os candidatos democratas, em dezembro passado, e não estava a postos quando acabou o intervalo comercial, a saúde dela virou mais um instrumento de tentativa de dominação símia. Ela ia precisar usar fraldão - sim, foi esta a sugestão feita por detratores trumpistas.

Franklin Roosevelt liderou os Estados Unidos na vitória da Segunda Guerra de uma cadeira de rodas e já enfermo. Morreu no começo do quarto mandato, dois meses depois de se encontrar com Winston Churchill e Josef Stalin para discutir a Europa que ia emergir do pós-guerra, em 1945. Churchill, por sua vez, teve um derrame mantido em segredo que quase o matou, logo após ser eleito Primeiro-Ministro para um terceiro mandato, em 1951. Conseguiu se recuperar, apesar de continuar enchendo a cara de álcool, e só renunciou em 1955.

John Kennedy sofria de inúmeros problemas de saúde. Teve a sorte de governar sem rede social e câmeras de celulares, mas não havia atestado médico que pudesse prever o comprometimento irreparável de sua saúde pelos tiros disparados por Lee Harvey Oswald, em Dallas, naquele novembro de 1963.

Há uma certa infantilidade na expectativa da imprensa de saber mais e mais a respeito da pressão arterial de candidatos. Não existe híper-transparência. A certa altura, é preciso admitir que a privacidade inclui também a saúde. Na hipocrisia da híper-transparência grassam os oportunistas que convertem a biologia de Hillary Clinton em munição. Sua biologia, não só a biografia, pesa no fato de que ela é a candidata democrata com maior índice de rejeição desde os anos 1980. É só surfar a Internet, encontrar os buttons da campanha e memes trumpistas para se chocar com a truculência dos slogans. É coisa de fazer o jurássico Jair Bolsonaro parecer simpático à Gloria Steinem. 

Não sou adepta de psico-bobagens. Mas registro que, há alguns anos, psicólogos debatem, nos Estados Unidos, o que chamam teoria da masculinidade precária. O lugar da mulher seria natural e estável, o lugar do homem seria conquistado e requer manutenção. Passa o teste do bobajômetro? Não sei. Mas dispenso pesquisa acadêmica para temer que 2016 se torne o ano em que a Casa Branca foi conquistada pela angústia de castração.

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