Hora marcada com a evangelização

Domingo, dia 16 de julho. O bispo Antônio Bulhões abre o programa "Em Que Posso Ajudá-lo?" ao lado do casal Sandra e Gilberto Torres. Bem vestido, o homem conta que é militar da reserva e que cuidava da manutenção do boeing presidencial, em Brasília, tendo prestado serviços para o presidente Fernando Henrique Cardoso e para o ex-presidente Itamar Franco. O bispo Bulhões, que também é chamado de Bispo da Família, começa a conversar com o homem, que conta que um dia já tentou matar sua esposa. "O senhor é militar, e por isso, considera-se uma pessoa violenta?", pergunta-lhe o bispo. "Sim, todos no quartel já sabiam que eu era muito violento", admite o homem, que garante hoje ter encontrado seu caminho, depois de ter conhecido Jesus através da Igreja Universal do Reino de Deus. Casos como o de Sandra e Gilberto são alguns dos principais ingredientes de programas evangélicos exibidos nas madrugadas da TV aberta. Na liderança do gênero está a Rede Record, de propriedade do pastor Edir Macedo, fundador da Universal. Mas a Record não é a única a ter espaços dedicados à programação evangélica dentro de sua grade. A Rede Mulher, também pertencente à Universal, considera a igreja um de seus principais clientes, já que 20% da programação é dedicada ao assunto. Além da Universal, outras igrejas também compraram espaço em emissoras de televisão. A CNT, por exemplo, exibe diariamente o programa R.R.Soares, às 19h45, e a Rede TV! abre sua programação religiosa às 8 horas com o programa da Igreja da Graça em Seu Lar, que também dá nome ao programa. Ainda na Rede TV!, aos finais de semana Renascer (10h) e Conexão Gospel (13h), ambos produzidos por membros da igreja Renascer em Cristo, fundada pelo pastor Estevan Hernandez. Na Record, cinco horas consecutivas da programação da madrugada têm a tarefa de arrebanhar mais fiéis à Igreja Universal do Reino de Deus.Mas durante o dia, a Record também não deixa de evangelizar, e exibe Ponto de Fé, às 5 da manhã, e O Despertar da Fé, às 7 horas. Às 13h15, entra no ar Nosso Tempo, um programa de entrevistas e debates com temas pautados no dia-a-dia, apresentado pelo bispo Clodomir Santos, o mesmo que comanda o divã eletrônico Fala Que Eu Te Escuto (00h45), um dos sucessos da emissora, registrando média de três pontos no Ibope. O maior índice alcançado foi de sete pontos, quando falou-se sobre o escândalo envolvendo o apresentador Sérgio Mallandro (TV Gazeta), acusado de assédio sexual por uma de suas dançarinas. No mesmo momento em que o bispo Clodomir ouve tantos desabafos, Marília Gabriela, pela Rede TV!, se conforma com a média dois pontos e picos de seis (quando conversou com Cafu) e sete (com João Gordo). Já Babi, no seu Programa Livre pelo SBT, soma média de quatro pontos, com picos de oito (no dia em que entrevistou um cirurgião plástico, um terapeuta corporal e a cantora Corona). Passando o rolo compressor em todos eles está Jô Soares, que pregando apenas o riso aliado ao bate-papo descontraído, alcança média de 11 pontos de audiência.Classes A e B - Exibido em rede nacional de segunda a sexta-feira, o programa Fala Que Eu Te Escuto está no ar há três anos e conta com a maioria de seus telespectadores pertencentes às classes A e B (somando quase 40%). Os da classe C registram pouco mais de 30%, e os pertencentes à D e E somam 28%. Segundo o apresentador, este público é formado, em sua maioria, por pessoas que enfrentam problemas na vida sentimental, principalmente aquelas que foram abandonadas por seus parceiros. Desencontros amorosos e solidão são os problemas mais comuns relatados em programas do gênero. Drogas, violência doméstica, ciúme e adultério também já foram temas debatidos. As doenças, de uma forma geral, não estão na lista dos males, já que Fala Que Eu Te Escuto não se trata de um culto religioso (com orações de exorcismo e cura), mas sim de uma orientação. "A origem do título do programa está na observação da necessidade que as pessoas têm de falar o que sentem", afirma o bispo Clodomir, 33 anos.O sucesso dos programas religiosos, segundo o bispo, se deve às crises sociais e espirituais enfrentadas pelos brasileiros. "Isto é que faz com que os programas ganhem cada vez mais espaço na mídia", garante Clodomir. "As atrações comuns são satisfazem essa carência. O telespectador procura algo que vá de encontro às suas necessidades. Este é o nosso diferencial".O bispo acredita que nem sempre o fato de procurar um especialista (psicólogos, psicanalistas, terapeutas) faz com que a pessoa se sinta melhor. "Muitas vezes, a orientação que ela recebe dos profissionais é apenas teórica. Na prática é diferente. Não há orientação melhor que a Bíblia, que é a palavra de Deus", prega. Preservando o paciente - Fala Que Eu Te Escuto dura pouco mais de uma hora. A cada programa é discutido um assunto diferente e os temas são decididos no dia. Os telespectadores participam ao vivo, pelo telefone, relatando suas experiências e dando opinião sobre o assunto. O programa sempre é encerrado com a leitura de um trecho da Bíblia, sugerindo que Jesus é o remédio para todos os males. Segundo o diretor do programa, Paulo Franco, o objetivo está sendo atingido. "Queremos despertar o questionamento nas pessoas, fazer com que elas pensem a respeito dos mais variados assuntos", explica. Entre os temas tratados recentemente estavam "Talento ou Vida Fácil ?", sobre o comportamento de gente famosa, troca-troca de parceiros e como isso reflete para os fãs; além da questão "Casar ou Morar Junto - Qual a Diferença ?". Neste último, uma das participantes da noite foi a telespectadora que se identificou apenas como Marta, de Brasília. Ela testemunhou que o casamento é a melhor opção. "Morei junto com meu companheiro durante cinco anos antes de me casar legalmente. Antes nós brigávamos muito e eu vivia insegura. Depois que oficializamos a união, o relacionamento melhorou. Sem o casamento, sempre há ameaças de separação."Plantão - Cinco telefonistas ficam de plantão o dia todo, preenchendo fichas com os dados pessoais dos "pacientes", para que, na hora do programa, retornem a ligação no caso da pessoa se enquadrar no tema do dia. A identidade dos participantes é preservada. As ligações não entram direto no ar para que não haja o risco de trotes.A média diária é de 300 a 500 ligações, entre pessoas interessadas em participar e aquelas que pedem oração. Cerca de 15 pessoas conseguem entrar ao vivo. Para criar maior aproximação com quem está do outro lado da linha, a produção utiliza o recurso da "dália", quando um técnico exibe um cartaz com o nome da pessoa e a cidade de onde ela está falando. O sucesso do programa se reflete em cartas, e-mails, e, principalmente, em fiéis para as igrejas da Universal, que possui mais de três mil templos espalhados pelo País. "É comum as pessoas irem à igreja e contarem que o interesse em conhecer a Universal surgiu depois que ela assistiu ao programa", explica o bispo Clodomir.Entre os depoimentos dados até hoje, os que mais chamaram a atenção do bispo estão os de pessoas que ligam dizendo que iriam cometer suicídio. "Muitas contavam que estavam até preparadas para se matar, com arma na mão. Isto nos comove, pois quando alguém chega a este ponto é porque a situação é angustiante, grave mesmo. Nós pretendemos, através dos testemunhos, mostrar que existe solução para esses casos. Não existe problema que não tenha solução, só a morte".

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