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Hora do intervalo

Em tempos de quarentena, até para os intervalos precisamos combinar as regras

Daniel Martins de Barros, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2020 | 03h00

Há duas semanas, confessei aqui o cansaço do distanciamento, da quarentena, da pandemia. A dificuldade de manter o foco, convencer o cérebro a trabalhar, estipular prazos, equilibrar as múltiplas tarefas. Era a falta de hábito e de rotina, acreditava eu. Embora desde o momento zero da quarentena muitos tenhamos enfatizado a importância de se criar uma rotina, descobrimos que na prática isso pode ser mais difícil do que parece.

Vejo duas grandes dificuldades nesse processo. A primeira, sobre a qual já conversamos, é que em situações normais a própria vida dita o ritmo de nossos dias. A dificuldade na quarentena é construir, em parte artificialmente, esses mesmos marcos para nos orientar quando não estamos saindo de casa.

Mas existe uma segunda dificuldade para a qual não atentamos. É estabelecer alguns limites. Descobrir quando podemos dar uma relaxada. No escritório, existe um momento em que damos uma olhada para o relógio, depois para o trabalho, e temos a sensação que chegamos a um ponto em que dá para dizer “Ah, já está bom”.

Calculamos intuitivamente o quanto já produzimos, o tempo que levaremos para chegar em casa e concluímos que é hora de parar - caso contrário, arriscamos perder a oportunidade de descansarmos um pouco antes de o dia terminar. Quando já estamos em casa, por outro lado, não temos esse parâmetro. Assim que a caneta cair da mão, já poderíamos relaxar. Em tese, claro. Porque, se não temos trânsito para enfrentar, a pia de louça, o cesto de roupa ou o volume de trabalho doméstico, comumente terceirizados, agora estão lá, erguendo-se como obstáculos tão morosos como as condições de tráfego. É preciso reaprender a calcular o momento “Ah, já está bom”. Algo nada fácil de fazer. 

O mesmo ocorre em todas as pausas - do cafezinho que vamos tomar com os colegas para dar uma respirada até o almoço, não é só o trabalho que fica sem marcos claros. Os intervalos também ficam soltos no tempo, forçando-nos a lutar continuamente contra a tentação de começá-los cedo demais ou terminá-los mais tarde do que deveríamos. E o que pode ser ainda pior: na tentativa de não ceder a tais tentações, corremos o risco real de passar por cima dessas importantes pausas, ficando mais cansados do que fora da quarentena.

Uma solução possível é dividir as tarefas em blocos. Isso ficou claro para mim com o novo hábito de fazer ginástica na varanda. Minha professora de natação agora me dá treinos de musculação online, enquanto não reabrem as piscinas. E, embora eu não tenha qualquer gosto por esse tipo de exercício, descobri que eles podem ser muito melhores quando os exercícios são empacotados. Dez ou quinze repetições de um movimento acabam logo; então, mesmo que sejam penosas, elas dão uma sensação de vitória (ou alívio) quando completas. Antes de recomeçá-las, contudo, fazemos outro exercício. Coloque três tipos de atividade, repita três vezes cada série, e faça isso três vezes. De repente, acabou. E, como entre as séries ficam pequenos intervalos com duração preestabelecida, não é preciso pensar em qual hora de parar e quando voltar.

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