Homo transparens

Um amigo estava numa livraria de Manhattan recentemente, papeando com uma moça que encontrou ali. Ele lhe disse que gostava de ir a livrarias só para folhear. Ela sorriu pesarosamente. "Não consigo me lembrar da última vez que fiz alguma coisa que não tivesse um pretexto social", disse ela. E desapareceu.

Lee Siegel,

05 de dezembro de 2011 | 05h56

 

Na era de Facebook, Twitter e outras incontáveis redes de relacionamento,o ato de decidir fazer algo por si, e apenas para si, está se tornando cada vez mais raro. As pessoas reagem à vontade do grupo assim como as flores giram para ficar de frente para o sol.

 

Lá pelos idos de1950, a grande preocupação da sociedade americana era a de que estava ficando excessivamente "conformista". As pessoas temiam que o individualismo, esse poderoso motor que havia criado a civilização americana,estivesse submergindo em um novo ethos que celebrava a massa.

 

Os Estados Unidos de hoje encontram-se muito além da ameaça da chamada cultura de massa.As redes de relacionamento social, com duas gerações de suspeita a qualquer pessoa com poder ou autoridade, tornaram o conceito de individualismo americano tão exótico como o telefone de discar ou a máquina de escrever.

 

Apresentar-se hoje como indivíduo equivale a declarar-se sofrendo de alguma doença social. Não demorará para médicos diagnosticarem pacientes com "individualitis" como costumavam diagnosticar pessoas com sífilis.

 

Porém, em vez de prescrever penicilina como cura, os médicos recomendarão "transparência". Transparência - esse jargão enormemente popular hoje em dia - virou a nova confiabilidade.

 

Transparência significa que quando as pessoas tentam imaginar quem você é, elas não se voltarão contra a sua discrição, modéstia ou seu instinto natural para manter em segredo a sua vida privada.Ao contrário,elas olharão diretamente através de você em busca das

forças que o criaram.

 

O 'novo transparente' terá publicado pelo menos um livro de memórias, de preferência dois. Terá um blog no qual confessará suas experiências e pensamentos mais íntimos de hora em hora. Terá uma conta no Tweeter na qual confessará experiências e pensamentos mais íntimos de minuto em minuto.

 

E terá uma página no Facebook na qual ele estará disponível, dia e noite, para adicionar algo sobre qualquer das experiências e dos pensamentos íntimos sobre os quais tuitou ou "blogou".

 

Polido para ficar com um lustro fino e diáfano, o homo transparens não mais revelará aquela potencial pedra no caminho de uma personalidade, com seus nichos e frestas, desvios e surpresas. Você olhará para esse novo tipo de pessoa e verá um atlas de desejos e obsessões, suas influências familiares e experiências emocionais formadoras - até mesmo sua história econômica. Reduzido a uma pilha de dados públicos, o homo transparens não terá o poder de prejudicar.

 

Você o verá se aproximando a um quilômetro de distância. A menos, é claro, que ele aprenda a manipular o novo estilo de transparência e a transformá-lo emum novo estilo de opacidade.

 

Esse parece ser o caso na vida política americana. Há apenas cinco anos,as alegações de que Herman Cain - pré-candidato republicano à Presidência até o último sábado - molestara sexualmente algumas mulheres e também, embora casado, mantivera uma relação adúltera com outra por 13 anos, teriam prontamente afundado sua campanha.

 

Mas Cain hoje está por aí. "Lá vamos nós de novo", disse ele em resposta às mais recentes acusações. Mais cedo ou mais tarde, ele cairá fora da disputa, mas o fato de sua persistência não criar uma tempestade de indignação é significativo. Em vez de um choque, as alegadas revelações sobre sua vida privada são parte do novo tipo de currículo do homo transparens.

 

Talvez Cain tenha se inspirado também no exemplo de outro potencial candidato republicano, Newt Gingrich, que confessou abertamente pelo menos dois casos extraconjugais enquanto estava casado. Gingrich está até melhor que Cain nas sondagens eleitorais, e sua vida pessoal não parece ser um problema.

 

Talvez a sociedade americana tenha atingido um ponto de virada. Pode-se tolerar praticamente tudo que um dia foi considerado socialmente inaceitável, contanto que a

pessoa seja transparente a esse respeito. A pessoa pode até mesmo ser antissocial,contanto que sua confissão de "antissocialidade" tenha, como colocou aquela moça misteriosa da livraria, um pretexto social.

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