Homo bovinae

Descobri, aos 59 anos, que sou intolerante à lactose. Começava uma saga

Marcelo Rubens Paiva, O Estado de S.Paulo

30 Junho 2018 | 02h00

Ao reparar na nossa dieta, descobri que mamamos em excesso até a velhice, como bezerros crescidos. Somos um mamífero humano sábio, Homo sapiens, que mama como um Bovinae. Só que bezerros desmamam lá pelo quarto mês, num período de transição estressante na vida do animal. Nós não desmamamos.

A lactose está em toda a parte. É base da dieta de europeus e americanos. Sem ela, aparentemente, nossa alimentação fica restrita. Desmamar é um processo complicado e antissociável, com o que intolerantes à lactose convivem.

Aflito com dores no abdômen, que davam a sensação de que eu engolira um balão de gás, fui atrás de uma clínica geral, que sugeriu o exame de intolerância de lactose, simples até e que toma duas horas de uma manhã.

Num laboratório, em jejum, tiram uma amostra de sangue. Servem, para beber de uma vez, um líquido que parece uma soda limonada sem limão, agradável, nem tão doce assim, que com uma dose de gim e uma azeitona ficaria melhor.

Tiram depois mais três amostras em intervalos de meia hora, chamadas basal. E medem a glicemia (mg/dL).

Valor de referência da glicemia de jejum: de 75 a 99 mg/dL. Considera-se normal a elevação da glicemia para indivíduos não diabéticos em relação à basal em pelo menos 20 mg/DL.

Como um hipocondríaco profissional, achei meu resultado OK. Basal 1, sem ingerir nada, 89 mg/dL. Basal 3, foi a 101 mg/dL. No basal 4, estabilizou-se no 99 mg/dL. Acostumado a ler meus exames antes dos médicos e já chegar à consulta com meu diagnóstico e tratamento tirados do mais popular e barato dos clínicos, o Dr. Google, interpretei a elevação como normal.

Quase caí da cadeira quando descobri que, aos 59 anos de idade, sou intolerante à lactose. Entrava num universo paralelo. Começava uma saga.

Vivemos num mundo escravizado pela vaca (lactose). Proteína que, industrializada, se torna barata, comparada ao benefício. Que nossos ancestrais, há dez mil anos, domesticaram. E deram nas civilizações.

De que eu estaria proibido? De quase tudo. Queijos, a paixão? Proibidos, como iogurtes. Pizza? Só as que vêm sem lactose, 5% do cardápio. Sorvetes? Só os sorbets (de fruta).

Esqueça bombons, bolos, pão de queijo, pão na chapa. Até na broa vem lactose. Tem requeijão lacfree (como queijos e iogurtes). É como comer espuma sem gosto. Delícias italianas, como lasanha, tiramisú, panacota, cannoli, molho a quatro queijos, ricota, muçarela? Fora!

Chocolates? Só os veganos à base de manteiga de cacau. Tem também chocolates com soja, os alfarrobas e ganaches de cacau, que são... interessantes. Festa infantil? Fique longe da mesa de doces. Brigadeiros, beijinhos, até o bolo... Só cante os parabéns. Casamentos? Sem bem-casado.

Pâtisserie, com deliciosos croissants, éclair, mil-folhas, tortinhas? Non plus, mon amour... Aliás, esqueça a França, em que quase tudo é feito à base de manteiga. Esqueça o brie, camembert, parmesão, roquefort, emental... Nossos guerreiros queijos de minas e da canastra também estão proibidos.

Ao entrar num supermercado, descobre-se que 33% dele é de produtos com lactose (outros 33%, com glúten). De muitos pães, vem na embalagem o aviso em destaque agora obrigatório: pode conter lactose. Contém ou pode?

Poucos restaurantes têm no cardápio indicações aos intolerantes. É preciso sempre perguntar, quando se vai a um. Ah, desculpe, senhor, mas vai uma pitada de manteiga. Biscoitinhos do café? Out! Sequilhos? Out! Tortas? Nã-nã-nã-nã-não. Sobremesas? Fique com a famigerada “fruta da estação”.

Um amigo, dono de uma cantina em que eu não podia comer nada, me olhou lamentando e disse, numa profunda sinceridade: Você tá ferrado! Como já passei da fase da revolta, perguntei: Ouviu falar em algo delicioso chamado fruta?

Nem tudo está perdido. Aos poucos, descobrimos que delícias como doces árabes, sagu, tapioca, torrone, paçocas, bananadas, goiabadas e marrom glacê são livres da demoníaca lactose.

Refleti sobre a nossa dieta. Na culinária de países asiáticos, não vai lactose. Não se criavam bois no apertado Japão. E é dos povos mais saudáveis do planeta. Quanto mais giramos o globo para o mundo ocidental, de terras verdejantes e abundantes, vemos a lactose mais presente.

Na culinária francesa, alemã, holandesa, suíça, a do gado confinado, sobretudo na norte-americana e sul-americana, incluindo a brasileira, dos vastos pastos naturais, a base da alimentação é a lactose. 

Entendi meus avós italianos, que não passavam manteiga no pão, mas azeite, e que proibiam o queijo ralado sobre o primo piatto. Diziam que tirava o gosto do macarrão.

Mas o leitor mais bem informado, que balançou a cabeça até então, pergunta se o colunista recém-ingresso na comunidade não conhece os pós e comprimidos à base de lactase, enzima que catalisa a hidrólise da lactose, que ajudam na digestão do açúcar do leite e facilitam o consumo de alimentos lácteos.

Sim. No começo, evitei as enzimas digestivas disponíveis no mercado que facilitam a digestão, como Lactrase, Lactosil ou Digeliv. Mas já pedi a amigos vindos dos Estados Unidos caixas do popular Lactaid, o melhor deles (tome um comprimido antes da refeição com lactose), não fabricado no Brasil, à venda em qualquer birosca americana. 

Enfim, sigo o hábito previsto pela minha clínica geral: o de andar com o remédio no bolso. Mas que é o fim da picada, a essa altura da vida... E que sirva de alerta: precisamos tanto assim da lactose na nossa dieta? Tem lactose até em remédio!

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