Homens, segredo desvendado

Conhecida pelos personagens femininos, a portuguesa Inês Pedrosa decidiu, em Os Íntimos (Objetiva), tentar entender as atitudes masculinas a partir da história de um grupo de amigos em Lisboa. Sobre o assunto, ela conversou com o Estado.

Entrevista com

, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2010 | 00h00

Sua literatura sempre apresentou belíssimos personagens femininos mas, em Os Íntimos, sobressai-se o retrato de uma certa geração de homens. A convivência com amigos a incentivou?

Creio que sim, embora nunca saiba exatamente o que faz com que um romance comece a acontecer-me - e procuro não pensar nisso. É verdade que alguns dos meus mais íntimos amigos são homens. Em conversa com eles, fui-me dando conta de que há ritos e rituais específicos das amizades masculinas que, de certo modo, prolongam a adolescência e defendem os homens contra a pressão da seriedade e da competitividade do mundo. Há também entre eles uma tocante capacidade de compreensão silenciosa e perdão.

Ainda assim, são as mulheres o ponto de escape do livro?

Diria que as mulheres são o contraponto - não tanto os escapes. Se imaginarmos esse grupo de homens como uma versão contemporânea dos Cavaleiros da Távola Redonda, elas são tanto o Santo Graal deles quanto quem os impede de alcançá-lo. Surgem no livro através de documentos escritos, simultaneamente como elos de permanência e de instigação à mudança. Ana Lúcia, a mais presente delas, diz a páginas tantas: "Temos que inventar uma ordem que permita a respiração do caos." Na busca desassossegada dessa ordem, homens e mulheres convergem. O romance aborda uma geração que sente que o modelo em que foi criada acabou, sem que se saiba ainda muito bem o que virá: vivemos sobre as fendas de um mundo que se desmoronou, procurando ver novas configurações no horizonte. Creio que para os homens esse abalo foi ainda mais forte do que para as mulheres, porque o lugar deles no mundo era mais rígido e definido do que o das mulheres.

Sua escrita parece diferente agora, mais cruel.

Não sei comentar, mas gosto que você tenha notado essa mudança. Não há nenhuma determinação prévia, e não só eu não sei exatamente o que é a maturidade, como desconfio muito de quem saiba. Procuro que a minha escrita reflita esse mundo em aberto de que parte, e que ouse aventurar-se nele. Sei que a minha voz está nessa busca e que não faz sentido escrever sem reinventar a língua e procurar nela a cor, a crueza e a plasticidade que correspondem aos universos mutantes em que vivemos.

Você disse, em uma entrevista, que a perda do medo é reveladora, pois é possível fazer coisas novas e diferentes. Como isso se encaixa no romance?

Isso vem acontecendo comigo desde Fazes-me Falta. A Eternidade e o Desejo foi um passo importante desse caminho: nesse romance perdi o medo de falar do Brasil como se fosse meu, porque o sinto também meu, e o medo de dialogar com esse prestidigitador de palavras e sentidos que foi o Padre Antônio Vieira. O tempo e a morte me fizeram abandonar o medo, sim. Medo de que, afinal? Pura e simplesmente, não penso no medo - ou seja, no modo como o que escrevo pode ser lido e interpretado, nas consequências. Já é suficientemente difícil o trabalho de escrever livremente. Mas só assim se pode escrever: o medo mata-nos a intuição e impede-nos de ouvir a música da verdade - a nossa e a dos personagens, que nascem para nos ensinar o que não sabemos.

"Às vezes, quando acordamos para a realidade, já é tarde demais", diz um trecho do livro. É curiosa a relação dos portugueses com o tempo, que prevê uma certa existência de eternidade. Parece que você foi impiedosa demais ao tratar desse assunto.

A impiedade advém de um estado exaltado de paixão - é uma impaciência amorosa que não confundo com a crueldade. E sou impaciente e apaixonada, sim. Isso me torna talvez excessivamente exigente com o meu país. Em minha defesa posso dizer que também o sou comigo mesma.

OS ÍNTIMOS

Autora: Inês

Pedrosa

Editora: Objetiva (200 págs., R$ 36)

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