Homens na estrada

Os feitos de Criolo e Emicida em 2011 são dignos do uso do termo 'revolucionários'

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

24 de dezembro de 2011 | 03h05

A quebrada era sinistra, o 'bagulho tava louco'. A música em forma de manifesto que duas gerações de jovens haviam abraçado vagava dentro de um círculo criado por ela mesma. É certo que sem bronca não há rap - ele só existe porque ela o legitima e lhe dá vida. Mas se a bronca vem sempre igual, em letra e música, perde-se o efeito, fica vazia e o MC prega no deserto.

O ano de 2011 pode ser lembrado como o de uma virada histórica para o gênero. Sobretudo puxada por dois filhos de sangue do rap clássico, Criolo e Emicida, a música mais ouvida pelos jovens nas periferias transborda e parece agora grande demais para a própria classificação. Criolo canta como pouco se viu. Emicida divide rimas como nunca se imaginou. Ambos parecem pensar com transmissões cerebrais em banda larga e criam músicas - aqui o grande salto - com uma liberdade em poesias, harmonias e bases de forma despudorada e inédita. Seus pés estão fincados nos ideais de respeito e igualdade que deram início a tudo no final dos anos 70, mas suas cabeças não parecem prisioneiras da 'filosofia do ódio' que justificou a existência de muitos grupos. "Não estou aqui para dar um tiro no Michel Teló, estou aqui como uma opção", diz Emicida.

Criolo foi abraçado por Caetano Veloso e Chico Buarque, que cantou seus versos na estreia de sua recente turnê. Emicida foi ao festival Coachella, nos Estados Unidos, abrindo uma trilha internacional. Sua agenda é sinal dos tempos. Janeiro de 2009:1 show. Janeiro de 2010:4 shows. Janeiro de 2011:8 shows. Janeiro de 2012:12 shows. Juntos, estarão no Sesc Pompeia. "É nosso encontro de Jay Z com Kanye West", diz Evandro Roque, irmão de Emicida, que emparelha o duo brasileiro aos rappers do Olimpo norte-americano. Bobagem. Quem sabe Kanye West e Jay Z cheguem um dia à riqueza de Criolo e Emicida.

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