A metamorfose do Metallica, de banda revolucionária, seminal para o desenvolvimento do thrash metal, ao status de supergrupo com milhões de discos vendidos é o foco do veterano jornalista Mick Wall, no livro Metallica - A Biografia, cuja tradução chega às lojas do País hoje. Trata-se do ângulo mais lógico a ser tomado na narrativa de uma banda que estabeleceu sua reputação a ferro e fogo nos anos 80, lançando discos reverenciados pelo alto nível de musicalidade, e não parou de buscar a consagração popular, simplificando sua música e transformando-a em espetáculo, a ponto de alcançar um patamar semelhante ao do U2 no universo pop.

Entrevista com

10 de março de 2012 | 03h08

Por isso, Wall, que foi uma das estrelas da então influente revista de rock Kerrang! nos anos 80, e acompanhou de perto o desenvolvimento da banda, começa seu livro com a descrição de um acidente de ônibus na Suécia, em 1986, que tomou a vida do baixista Cliff Burton.

A banda fazia a turnê de Master of Puppets, disco até hoje considerado a obra-prima do Metallica, e na visão de Wall, Burton era, tragicamente, a figura que impedia a banda de dar voos mais altos em termos de popularidade, pois pouco se importava com o hype que a banda angariava dos dois lados do Atlântico, e suas opiniões eram recebidas com respeito pelos outros membros da banda. Com a partida de Burton, em um acidente de tons proféticos (o baixista havia tirado a sorte, na mesma noite, para ver quem ficaria com a melhor cama do ônibus. Ganhou, escolheu a que James Hetfield queria, e ficou preso embaixo do veículo, que capotou diversas vezes), o Metallica ficou mais livre para jogar o jogo pop, o que culminou no disco Metallica (ou o "disco preto"), de 1991, emplacado em primeiro lugar na Billboard em sua primeira semana para transformar o Metallica no que é hoje.

Para Wall, o arquiteto desta marca Metallica senta atrás dos tambores da banda. E a leitura sobre a formação de Lars Ulrich, de filho único de uma privilegiada família dinamarquesa a mito do heavy metal é um dos nacos didáticos interessantes deste livro para iniciantes no folclore da banda. Destoa da enciclopédica sabedoria sobre os mecanismos do show biz (quantos discos venderam, quanto é necessário para fazer uma banda aparecer na MTV, etc...) ostentada por Wall em muitas partes do livro. De acordo com a obra, Ulrich foi o responsável por colocar a banda na capa da Kerrang! Tomou decisões drásticas, como não fazer um videoclipe na época em que isto era tudo o que se esperava de uma banda de rock, e conseguiu assim chamar ainda mais atenção para o Metallica. E foi Ulrich quem decidiu assinar com o produtor Bob Rock, mentor de bandas de cunho pop, como Aerosmith, Bon Jovi e Skid Row (jogada que acabou no disco de 1991).

Mesmo assim, conta Wall, na época em que Dave Mustaine, que sairia da banda para formar o Megadeth, fazia a dupla de guitarras do Metallica com James Hetfield, os dois quiseram demitir o baterista inúmeras vezes. Na turnê de Master of Puppets, por exemplo, isto era um assunto constantemente em pauta.

Como explica na entrevista abaixo, Wall é conhecido próximo de Lars Ulrich, o que, em primeira instância, não ofusca o seu jornalismo, pois não há bajulação aberta no livro. Mas a sua visão de Ulrich como o protagonista da ascensão popular do Metallica, embora seja confirmada pelos outros membros da banda, não deixa de ser influenciada pela sua visão de business do rock (Wall foi dono de uma assessoria de imprensa nos anos 80).

Onde seu jornalismo fica entediante, e chega a níveis questionáveis, é no início de cada capítulo, em que reconta em detalhes os excessos cometidos na época em que era próximo da banda. Em uma destas vinhetas, Wall está cheirando cocaína com um amigo antes de ir para o estúdio e ouvir a mixagem de Master of Puppets. Sua narrativa não se beneficia disto; parece constantemente tentar inserir sua persona na história da banda em uma forma de fanatismo velado. O ápice desta tietagem vem em uma questionável descrição de uma entrevista com Ulrich, em 2008, logo após o início da crise econômica. Na ocasião, Wall se compara a Ulrich: "Éramos figuras eminentes em nossas áreas, jogando conversa fora e sendo bem pagos por isso enquanto o resto do mundo enfrentava um inferno", escreve ele.

Embora o resto de sua história seja didática e deixe os fatos falarem pela banda, as aventuras de Mick Wall e o Metallica acabam minando o interesse do leitor pelo livro. Melhor é quando Wall conta as histórias do início da banda, como a da formação do nome Metallica, que passou por diversas encarnações nas cabeças de Lars e James, de Black Lightning e Black Vette , a Metal Mania.

Wall poderia ter incluído a história de como o riff de Enter Sandman, talvez o mais famoso da banda, foi composto por Kirk Hammet de madrugada, esquecido e desenterrado para virar a peça central do disco Metallica. Mas na descrição do disco, prefere ater-se às letras e ao frenesi causado pelas vendas do disco.

METALLICA -

A BIOGRAFIA

Autor: Mick Wall

Editora: Globo

(472 págs., R$ 49,90)

O jornalista Mick Wall, que escreveu Metallica - A Biografia, também é autor de outros livros sobre grandes nomes do rock. Já falou sobre Led Zeppelin, Black Sabbath e assinou a história não autorizada de Axl Rose, que lhe rendeu uma vil citação em uma música dos Guns n' Roses. Atendendo ao Estado, por telefone, de Londres, falou sobre o Metallica e suas decisões enquanto compunha a narrativa.

Partes de sua biografia são contadas em primeira pessoa. Como conheceu o Metallica?

Foi no início dos anos 80. Eu trabalhava para a Kerrang!, em Londres, e Lars (Ulrich) era fã da revista. Fomos a primeira publicação a escrever sobre o Metallica, quando eles eram apenas uma jovem banda, com Dave Mustaine na formação. Eles eram mais famosos no Reino Unido, então vieram até a revista e começamos a beber. Naquele tempo, todos da revista entravam nos shows deles. O último artigo que escrevi sobre o Metallica foi feito recentemente, e não consegui nem um ingresso para mim.

O sr. começa o livro com uma descrição do acidente de ônibus que matou Cliff Burton. Acha que este é o momento mais importante na história da banda?

Foram vários momentos cruciais, mas a importância deste é enorme. Se Cliff não tivesse morrido, a cronologia da banda teria sido diferente. A terrível ironia disto é que a morte de Cliff libertou-os para que fossem atrás do sonho de virar estrelas do rock, e, ainda assim, reter credibilidade. Isto teria sido inimaginável enquanto Cliff estava vivo. Não era o sonho dele. Eu o conheci. Era um cara formidável, mas ele realmente não se preocupava com o que estava na moda. Ele nunca teria cortado seu cabelo. Ainda descobri que, logo antes de sua morte, a banda estava pensando em demitir Lars Ulrich.

Há diversas histórias sobre você e a banda. Isto não afetou o seu julgamento? Como fez para tentar ser imparcial?

Faço isso há 35 anos. É mais tempo de estrada que o Metallica. Quando eu os conheci, eles disseram que estavam honrados em me conhecer. Eu adoro a música deles, mas não sou um fã. Não escrevo esses livros para fãs, e sim para pessoas que estão atrás de um bom livro. Por causa da biografia, James Hetfield não fala comigo. Lars me ligou e logo haverá uma versão atualizada com as coisas que ele me disse. Outro dia, vi uma entrevista com o cara que escreveu um livro sobre Dave Grohl. E a bajulação me deixou enojado. É puro tédio. Ninguém é tão maravilhoso assim. Eu quero é ler um livro que me diga uma música do Foo Fighters que valha a pena.

Por que James Hetfield não fala com você?

Porque eu não o deixei controlar a composição do livro. Ele é inteligente, nunca deixaria algo estragar sua carreira, mas tem problemas. É uma pessoa extremamente controladora. Isto não é um livro para fãs. Quando eles fizeram coisas extraordinárias, as inclui no livro, e quando eles foram imbecis, também incluí isto no livro. James Hetfield era sacana com Jason Newstead, o baixista que substituiu Cliff. Ele idolatrava o Cliff, odiava o Lars. Ele cuspia em Lars quando ele errava o andamento das músicas. Ele batia no Lars. Ele não iria querer que isto saísse em um livro.

Eles lançaram o disco mais criticado de suas carreiras no ano passado, a parceria com Lou Reed no disco Lulu. O que acha da fase atual do Metallica?

Acho que eles ainda vão fazer coisas interessantes. Eu adoro aquele álbum com o Lou Reed. É uma grande obra de arte. Não achava que eles pudessem fazer algo com tanta raiva. O último disco, Death Magnetic, de 2006, me desapontou. Mas Lulu foi fantástico. Obviamente, sou minoria. É o disco deles que menos vendeu, mas eu os cumprimento pela coragem de fazer algo do tipo, de continuar trabalhando no limite, empurrando a barreira da mesmice. / R.N.

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