Homenagens a Patativa do Assaré

Patativa do Assaré, nascido Antônio Gonçalves da Silva, o mais importante poeta popular brasileiro em todos os tempos, desaparecido no dia 8 deste mês, viveu toda a vida de forma simples e com dignidade, cantando como quis, e de improviso, ao modo dos poetas repentistas, as mazelas e anseios do seu povo; do povo mais puro, sofrido e humilde do Brasil, especialmente o do nosso Nordeste. Não foi à toa que pelo menos 20 mil pessoas acompanharam o seu féretro, ora em silêncio, ora cantando e aplaudindo-o pelas ruas da pequena cidade que o viu nascer, há 93 anos; além do povo, jornalistas, escritores, cantores, como Fagner; e políticos de todos os naipes, incluindo o governador do Estado, que decretou luto por três dias.O poeta foi o primeiro, em toda a América Latina, a falar em versos da necessidade de se fixar o homem do campo no seu próprio habitat; foi o primeiro a falar de reforma agrária. De tudo ele falou um pouco, com clareza e firmeza inabaláveis. Mesmo lírico, era cáustico. Um gênio.Patativa era baixo, magro e dono de uma personalidade fortíssima, imperativo, quase ditador na sua individualidade. Não perdoava erros e nem os mentirosos. De forma geral, tinha ojeriza a políticos, e ai do filho que não lhe estendesse a mão pedindo a bênção... Era católico apostólico romano, praticante. Morava ao lado da igreja matriz de Assaré, que freqüentou por muitos anos. O poeta de Assaré compunha com a mesma facilidade de quem bebe água ou respira, e guardava na memória centenas de versos, poemas enormes e inteiros. Era capaz de passar horas e horas falando em versos, para tanto bastava gostar do interlocutor. Eu, que o conheci em 1978, fui testemunha disso muitas vezes. Com sua permissão, gravei inúmeros poemas seus, suas risadas, seus desabafos. Patativa gostava do seu povo e de alguns poetas repentistas, como Oliveira de Panelas e Geraldo Amâncio; também gostava de Luiz Gonzaga, que, aliás, uma vez, quando o conheceu, tentou convencê-lo a vender-lhe a toada A Triste Partida, composta no princípio dos anos 50, e que à época raro era o repentista que não a conhecia de trás pra frente, de frente para trás... Também gostava de Jackson do Pandeiro, sem conhecê-lo pessoalmente; e passou a desgostar de Geraldo Vandré depois que o conheceu pessoalmente... Era um ser incrível, o poeta de Assaré.O poeta de Assaré não mudou o mundo, sequer mudou as condições de vida do seu irmão nordestino, mas mostrou que é possível viver a vida com alegria e dignidade, mesmo diante da dureza do solo e da falta de sensibilidade dos políticos e dos manda-chuvas em geral, como mostra o poema: O que mais dói O que mais dói não é sentir saudade do amor querido que se encontra ausente Nem a lembrança dos belos sonhos da primeira idade Não é também a dura crueldade do falso amigo quando engana a gente Nem os martírios de uma dor latente quando a moléstia o nosso corpo invade. O que mais dói e o peito nos oprime e nos revolta mais que o próprio crime não é perder da posição o grau É ver os votos de um país inteiro desde o praceano ao camponês roceiro para eleger um presidente mau. (poema de Patativa do Assaré)Assis Ângelo, jornalista e estudioso da cultura popular é autor de O Poeta do Povo - Vida de Obra de Patativa do AssaréServiço - O programa "São Paulo Capital Nordeste" que vai ao ar no sábado, entre 21 e 23 horas, na Rádio Capital (AM 1.040), estará recheado de curiosidades, incluindo depoimentos de Dominguinhos, Rolando Boldrin, Fagner, Inezita Barroso e outros artistas. Nesse mesmo programa o poeta dirá como compôs a sua antológica A Triste Partida Semana do Cordel - Em homenagem ao poeta, a exposição prosseguirá até o dia 20, com cerca de 300 xilogravuras em papel de artistas como José Lourenço, Jerônimo Soares, Francorli e Valdeck de Garanhuns, ao preço médio de R$ 40,00. Mais de 500 títulos de literatura de cordel estão sendo vendidos a R$ 1,00, além de dois livros sobre Patativa:O Poeta do Povo - Vida de Obra de Patativa do Assaré, de Assis Ângelo, editora CPC-UMES, R$ 75,00 Patativa do Assaré - Digo e Não Peço Segredo, Editora Escritura, R$ 40,00 Livraria Cortez: Rua Bartira, 317, Perdizes, tel.: 3873-7111

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