Homenagem ao mestre Zweig

Nos 70 anos de sua morte no Brasil, o escritor austríaco é lembrado pelos autores Alberto Dines e Deonísio da Silva

ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2012 | 03h09

"Finalmente entrei no quarto de dormir e estive ali não sei por quanto tempo sem levantar a cabeça. Eu não podia ou não queria ver. Em duas pequenas camas unidas estava o mestre, com sua formosa cabeça somente alterada pela palidez. A morte violenta não lhe deixou violência alguma. Dormia sem seu eterno sorriso, mas sim com uma doçura enorme e com uma serenidade maior ainda." Desta forma, a escritora e diplomata chilena Gabriela Mistral (Prêmio Nobel literatura de 1945) descreveu o momento em que entrou no quarto da casa do escritor austríaco Stefan Zweig em Petrópolis, horas após o suicídio do autor de Novela de Xadrez, Maria Stuart e Brasil, Um País do Futuro.

O relato em forma de carta foi destinado a Eduardo Mallea, escritor argentino, que na época comandava o suplemento literário do jornal portenho La Nación. O conteúdo integral dessa epístola, publicada originalmente no dia 3 de março de 1942, ficou esquecido durante décadas, até que a carta - da qual só se conheciam trechos esparsos - foi resgatada em sua totalidade há poucos anos pelo jornalista brasileiro Alberto Dines, diretor do Observatório da Imprensa e autor de Morte no Paraíso (Rocco). A quarta edição dessa obra - uma das principais escritas sobre o suicídio de Zweig - será lançada no fim de março e conterá a íntegra da carta de Mistral, entre outros detalhes sobre a vida do escritor.

"O texto de Gabriela Mistral está carregado de emoção", disse Dines ao Estado sobre a carta, reproduzida pelo La Nación na sexta-feira passada. O jornal recordou que o interesse original de Zweig em conhecer a América do Sul era a Argentina. No entanto, depois de viajar a Buenos Aires nos anos 1930, e de fazer uma escala no Brasil, ficou fascinado pelo afeto com o qual foi tratado pelos brasileiros. Desta forma, em 1940, quando partiu da Europa, Zweig foi para o Brasil, instalando-se em Petrópolis.

Ali preparou um livro cujo título se tornaria um slogan informal de sua terra de asilo: Brasil, País do Futuro. Segundo Zweig, "se o Paraíso existe em algum lado do planeta, não poderia estar longe daqui".

O dia em que Mistral viu seu amigo deitado placidamente sobre o leito, sem vida, era o 23 de fevereiro de 1942. Menos de uma semana antes, Zweig havia sido informado sobre o naufrágio do Buarque, navio brasileiro afundado por um submarino do Terceiro Reich. O escritor austríaco, judeu, refugiado na América do Sul para escapar do avanço do nazismo na Europa, considerou que o fim estava próximo, já que a guerra estava atingindo um país sul-americano.

Nas primeiras horas daquele dia, Stefan Zweig, autor de sucesso em todo o mundo, havia cometido suicídio. A seu lado estava Lotte, apelido de Charlotte Altman, secretária e virtual esposa de Zweig. "Parece que ele morreu antes do que ela", conjetura Mistral na carta a Mallea. "Sua mulher, que havia visto seu fim, segurava sua cabeça com o braço direito e toda sua cara estava apoiada na dele. Ao ser separada de seu corpo, ela ficou com o braço e a mão tortos e rígidos, e será necessário dar um jeito nesse pobrezinho corpo para colocá-la no ataúde. O rosto dela estava muito parecido (ao de Zweig). Não haverá nada que poderá dissolver em mim esta visão."

"Nunca se soube o que foi o que ele ingeriu. Possivelmente morfina", disse Dines. "Seu livro foi importante para o Brasil. Mas na época foi muito esculhambado pela imprensa, por razões maliciosas, pois achavam que Zweig havia se vendido ao Estado Novo de Getúlio Vargas. E, como Vargas não podia ser criticado diretamente, criticavam o Zweig", explica Dines, que viu o escritor de perto quando tinha 8 anos, em 1940, durante uma visita do autor de Amok à escola de seu futuro biógrafo.

"Ele posou para uma foto com uma centena de alunos e os professores. Naquele dia, não tivemos aula. Foi um dia que não esquecerei", diz. "A efeméride destes 70 anos de sua morte é muito interessante, pois Zweig era, desde o início, um europeu, muito antes de que existisse uma concepção de uma Europa unida", sustenta o biógrafo.

Segundo Dines, "Zweig não morreu". "Está vivo, pois continua sendo reeditado e reaproveitado. O diretor Bernard Attal preparou um filme baseado em A Coleção Invisível, de Zweig, que talvez seja o único livro de ficção na literatura que está centralizada na inflação."

"Tinha ele 61 anos; ela, 33. Ele dizia sempre: 'em (quantidade de) anos, sou mais (velho) que teu pai'. Ela soube ir embora com ele, deixando atrás a vida...

inteira. A observei muito tempo no gesto e no prodigioso emagrecimento do veneno ou da angústia da última hora: a de vê-lo morto a seu lado. Mantenho todo meu conceito cristão sobre o suicídio, amigo meu, mas acredito que ele não me proíbe de sentir este desgarrar-se pelo amor dessa mulher com um homem velho a quem ela quis com paixão e amizade. Ela o cuidava com um zelo de tal dimensão que não estava longe dele nem dez minutos: do ar frio, de escrever muito, de andar muito - que era seu vício único - do desânimo: ela o protegia de tudo. Em meu país eu teria implorado que os sepultassem juntos, como os Bertholt. Zweig dormia sem sonhos, aliviado para sempre do tempo e do mundo vergonhoso que foram a ração de sua velhice."

Ainda não são conhecidos todos os detalhes da morte de Stefan Zweig e sua mulher Lotte, mas isso não intimidou o escritor Deonísio da Silva a escrever Lotte & Zweig, que a editora LeYa Brasil lança nesta semana. Trata-se de uma visão romanceada de uma tragédia sem testemunhas. Silva apresenta detalhes arrepiantes de como teriam sido os últimos momentos do casal antes do suicídio, quando Lotte, até então uma mulher submissa ao marido, supervisionou com tranquilidade a ação derradeira. Depois de se assegurar que o marido já não mais vivia, ela então tomou um veneno poderoso. Como assegura Alberto Dines na orelha, Silva escreveu uma narrativa eletrizante e comovedora. / U.B.

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