Nacho Doce/Reuters
Nacho Doce/Reuters

Homenagem a Saramago conta com Chico Buarque

Em entrevista ao 'Estado', viúva fala do escritor, de suas ideias afiadas e sua honestidade estremada

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

22 de setembro de 2010 | 06h00

A voz soava rouca, o corpo exibia magreza aguda, mas as ideias continuavam afiadas - na última vez que esteve no Brasil, em 2008, o escritor português José Saramago ainda convalescia de uma doença que quase o matou na época. Mesmo assim, fez questão de vir lançar A Viagem do Elefante. "Ele amava os brasileiros", conta Pilar Del Río, com quem o autor, que morreu em junho aos 87 anos, foi casado. Ela participa hoje da homenagem a Saramago, no Sesc Vila Mariana, reunindo leitores ilustres, como Chico Buarque de Holanda, além da direção de Daniela Thomas.

 

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O evento marca também o lançamento de As Palavras de Saramago (Companhia das Letras), seleção de trechos de entrevistas. Sobre a importância dessas palavras, Pilar respondeu, por e-mail, às seguintes perguntas.

 

Em uma entrevista ao 'Estado' quando da morte de Saramago, o crítico americano Harold Bloom disse que o escritor português se tornou um homem iluminado ao conhecer a senhora e ao se mudar para as Canárias. 

Agradeço as palavras do professor Bloom, mas confesso não ter influenciado nenhuma obra de Saramago. Pode ter ocorrido - porque todos nos influenciamos mutuamente - em aspectos concretos da vida prática, mas não na obra: escrever é um ato solitário, o autor utiliza sua bagagem pessoal, em silêncio, sem intromissões. Fechado em si mesmo. E, no caso de Saramago, com uma honestidade extremada, maravilhosa.

 

A relação de vocês contrastava com a frieza em muitos temas dos livros dele e até com a sua descrença na humanidade. Como explicar isso?

Sua vida pessoal não tinha nenhuma relação com sua visão de mundo e suas reflexões. Saramago não reduzia a obra e a vida a seu pequeno entorno, mas além do lar estava o inferno sobre o qual ele refletia, inferno que, para muitos, é a vida, quando poderia ser melhor. Saramago não entendia como o homem, capaz de chegar a Marte, não conseguia resolver o problema da fome ou da falta de água em diversos continentes. Ou que houvesse depredadores entre os cidadãos, tão variados, mas sempre infames.

 

Apesar de sua veemente posição política (ele se descrevia como um "comunista hormonal"), Saramago não foi um autor de uma obra abertamente política, não?

Saramago não utilizava a literatura para passar mensagens políticas. Era um cidadão comprometido com uma forma de ver e analisar o mundo, tinha causas e partidos, mas isso não influenciava seu trabalho literário, ainda que fosse evidente que seus livros não são de um conservador de direita.

 

Ele sempre pareceu estar feliz quando vinha ao Brasil. Qual a relação dele com o País?

Uma boa relação porque sempre se sentia rodeado de amigos e, no Brasil, tinha muitos, além de muitos leitores. O que não significa que não se sentisse incomodado com algumas situações, que a pobreza não lhe despertasse um sentido de urgência, que os sem-terra não o motivassem, que não o desgostasse o abismo entre uns e outros. Ele ficou contente com a escolha do Rio para ser sede da Olimpíada porque, dizia, incentivaria o trabalho. Para Saramago, esse direito era questão indiscutível. Politicamente, acompanhava de perto o que se passava e sempre, a despeito das conquistas internacionais do País, esperava por mais e melhores notícias internas. Gostava muito do Brasil e demonstrou isso vindo aqui para o lançamento de A Viagem do Elefante, quando quase já nem podia com a própria alma. Amava, sobretudo, muitos brasileiros.

 

Haveria um livro de sua preferência entre os escritos por Saramago? Por quê?

Viagem a Portugal. Porque ali cabem Saramago e Portugal. E estamos todos, seres humanos, representados.

 

Qual é o principal legado de José Saramago, em sua opinião?

Seus livros, que são monumentos. Mas, à margem deles, que o próprio Bloom qualificou como você sabe e eu, por pudor, não repito, sobressai sua atitude diante do mundo. Era um transgressor, que não se calou para não incomodar. Dizia sempre o que pensava, propôs questões fundamentais e tratou de encontrar respostas. Afirmou que faltavam dois pontos à Declaração Universal dos Direitos Humanos: o direito à heresia e à dissidência. Ser dissidente para não se acomodar. Ser herético para não ser calado por dogmas. Um belo plano, não?

 

Documentário exibe momentos do cotidiano

 

O documentário já foi exibido na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, e durante a Bienal do Livro de São Paulo, ambas no mês passado, mas José e Pilar, de Miguel Gonçalves Mendes, continua provocando grande expectativa. Na homenagem de hoje, a diretora Daniela Thomas selecionou alguns trechos que serão exibidos em momentos intercalados.

O filme, que traça um retrato da vida e da obra de José Saramago, será exibido no Festival do Rio no sábado. Trata-se de um meticuloso trabalho de Mendes que, durante três anos, filmou a rotina do prêmio Nobel de Literatura de 1998. E, como nem todas as entrevistas obviamente entraram no documentário, a Companhia das Letras pretende lançar até o fim do ano um livro com a íntegra dessas conversas, acompanhado de um DVD com o próprio filme.

 

Definido pelo próprio diretor como "uma espécie de Big Brother da vida de José Saramago", o documentário registra momentos de carinho do escritor com sua mulher Pilar alternados com reflexões sobre seu cotidiano. Ou seja, da intimidade para as discussões públicas, oferecendo um retrato do que realmente era rotineiro na vida do escritor.

 

Mendes compôs um fiel perfil, editando como se movido pelo humor peculiar de Saramago. Em uma determinada cena, por exemplo, vê-se o autor em sua casa, na ilha de Lanzarote, na Espanha. Ele ouve música clássica enquanto concentra o olhar no computador. O espectador não vê a tela, apenas Saramago, concentrado, mexendo no mouse e murmurando: "Este para aqui, este para ali." Um corte seco e a surpresa: não se trata da escrita de um livro mas de um jogo de paciência. "Está ganho. As cartas fazem uma espécie de dança e são boas para afugentar o Alzheimer", comenta.

 

O crítico literário americano Harold Bloom afirmou que Saramago se tornou um homem mais solar ao compartilhar a vida com Pilar. As imagens de Miguel Gonçalves Mendes comprovam a afirmativa. O casal tanto aparece de mãos dadas, sentado no sofá e assistindo à TV como, em flagrante peraltice, Saramago surpreende ao dar um tapa na bunda da mulher.

 

Cético, agnóstico, firme em seus propósitos, Saramago, que morreu de complicações respiratórias provocadas por um fungo e leucemia crônica, encara a finitude com impressionante placidez: "Medo? Não. A morte para mim é a diferença entre estar e já não estar."

 

Homenagem a Saramago - Sesc Vila Mariana. Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000. Direção: Daniela Thomas. Quarta, 22, às 20h30. Ingressos esgotados.

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