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Homem-surpresa

Dar nome às práticas e táticas do futebol pode esconder apenas a necessidade de complicar o que é simples e torná-lo mais esotérico

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S. Paulo

19 de agosto de 2018 | 02h00

O jargão do futebol se renova. O que antigamente era chamado de “cabeça de área” hoje é o mais elegante “volante de contenção”. Outro neologismo é “marcação alta”, quando o time com a bola é marcado ainda no seu próprio lado, antes de cruzar a linha divisória do campo. E já existia e só não tinha nome o “homem-surpresa”: um defensor, meio-campista ou até volante de contenção que, volta e meia, surge na área adversária, de surpresa, para finalizar um ataque. Quem fazia isso com frequência na seleção do Tite era o Paulinho. 

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Dar nome às práticas e táticas do futebol pode esconder apenas a necessidade de complicar o que é simples e torná-lo mais esotérico, para afastar os que não entendem o que estão vendo no campo dos que entendem. O treinador Flávio Costa ficou marcado pela derrota da Seleção Brasileira, que ele treinava, para o Uruguai, na final da Copa de 1950. A decepção do público brasileiro com aquele desastre foi como se tivessem nos aplicado 7 a 1 ou coisa parecida, algo inconcebível. Mas apesar do fracasso de 50, Flávio Costa continuou sua carreira vitoriosa de técnico, que incluiu longos períodos como treinador do Flamengo e outros clubes cariocas e temporadas no Porto, de Portugal. E ele descrevia a tática que usava, com sucesso, nos seus times como “diagonal”. 

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Ninguém, fora o próprio Flávio Costa – e, suspeita-se, nem ele –, via sua diagonal em campo. Comentaristas esportivos diziam que a viam, mas não viam. Era só para mostrar que pertenciam ao pequeno grupo de iluminados que enxergavam futebol, ao contrário de você e eu, que só vemos o óbvio. 

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O “homem-surpresa” pode aparecer em várias situações, além da área adversária. Nossa história política está cheia deles. Jânio Quadros surpreendeu muita gente, renunciando à Presidência. Os militares não tinham se dado conta que o vice do Jânio, se este fizesse alguma loucura, seria – surpresa! – o Jango Goulart. Tomaram providências para impedir sua posse, mas não contavam com outro “homem-surpresa”, o Brizola, que se rebelou contra o golpe o quanto deu. O maior partido do Brasil, o PMDB, com todos os seus conchavos e conluios, nunca conseguiu produzir um candidato viável para a Presidência da República. Sempre dependeu de homens-surpresa de partidos menores, como o Collor.

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O “homem-surpresa” do Tite não funcionou, na Copa da Rússia. Nas poucas vezes em que entrou na área inimiga, inibiu-se. Deve ter pedido desculpa aos defensores adversários por estar ali, mas era só uma visita. Não aconteceria mais. Desculpem a intromissão, gente. Desculpem a surpresa! 

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