Sergey Ponomarev/AP
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Homem do século 20

Morre, aos 78 anos, o pianista americano Van Cliburn, ícone da Guerra Fria que conquistou a Rússia

Guilherme Conte, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2013 | 02h10

Mais um dos grandes se foi - e com esta partida o século 20 se distancia um pouco mais de nós. Morreu anteontem, em sua casa em Forth Worth, no Texas, o pianista norte-americano Van Cliburn. Ele lutava contra um câncer nos ossos, tornado público no último mês de agosto. Estava com 78 anos.

Harvey Lavan "Van" Cliburn Jr. é um daqueles casos em que um homem realiza um feito notável e, por caminhos históricos, é alçado a outro plano. Se por meio de suas gravações e apresentações Van Cliburn deixa um legado artístico que fala por si - com leituras referenciais para alguns dos pilares do repertório de concerto ocidental -, a importância de sua figura não pode ser dimensionada sem uma leitura atenta dos rumos políticos do mundo no século 20.

Nascido no dia 12 de julho de 1943 em Shreveport, Louisiana, o pequeno Harvey teve sua sensibilidade musical e intimidade com as teclas notadas logo cedo: ele começou a estudar piano aos três anos, ensinado pela mãe. A linhagem era nobre: Rildia Bee O'Brien havia estudado com Arthur Friedheim, este por sua vez discípulo do mítico Franz Liszt.

A família se mudaria pouco depois para o Texas, onde, aos 12, Van Cliburn ganhou um concurso estadual de piano que o levou a tocar com a Orquestra Sinfônica de Houston. O sonho da carreira o levou para a Juilliard School, em Nova York, onde foi aluno da russa Rosina Lhévinne, professora de toda uma geração de talentosos pianistas. Aos 20, vieram a vitória no Leventritt Award e a estreia no Carnegie Hall, com a Filarmônica de Nova York, regida por Dmitri Mitropoulos. Uma carreira promissora, mas cujo destino seria selado definitivamente do outro lado do mundo, em 1958.

Em Moscou

Van Cliburn foi o vencedor da primeira edição da Competição Internacional Tchaikovsky, o prestigiadíssimo concurso quadrienal que acontece na capital russa.

Conta-se que, uma vez estabelecido o veredito do júri, o próprio Nikita Kruchev, então todo-poderoso líder soviético, teria sido consultado a respeito de se premiar um pianista norte-americano em um evento de tal natureza. A Guerra Fria vivia um de seus períodos mais inflamados e polarizados. "Ele é mesmo o melhor?", questionou Kruchev. Ante à afirmativa, não teria nem titubeado: "Então deem o prêmio a ele!"

Como não poderia deixar de ser, Van Cliburn foi catapultado ao status de celebridade global, em uma época que isso tinha uma dimensão muito diversa do que tem hoje. Uma parada com cem mil pessoas o saudou na Broadway, e a reportagem de capa da revista Time o exaltou como "o texano que conquistou a Rússia". Sua gravação do Concerto para Piano nº 1, de Tchaikovsky, foi o primeiro álbum de música clássica a vender mais de um milhão de cópias, e o disco clássico mais vendido no mundo por mais de uma década.

Carreira e hiatos

A fama abriu portas para Van Cliburn por todo o mundo, e ele se apresentou e gravou com as grandes orquestras e regentes. Seus registros dos concertos de Rachmaninov, Tchaikovsky, Prokofiev, Schumann, Grieg e Beethoven têm ardorosos admiradores. Desde 1962, uma competição quadrienal de piano leva seu nome (já vencida por dois brasileiros: Cristina Ortiz, em 1969, e José Feghali, em 1985).

Em 1978, a morte de seu pai e de seu empresário o mergulharam em uma profunda crise pessoal, longe dos palcos e dos estúdios. Recitais de Van Cliburn faziam quase parte do calendário oficial da Casa Branca: ele tocou para todos os presidentes americanos desde Dwight Eisenhower, nos anos 50.

A figura de Van Cliburn parece emergir a partir deste paradoxo. Um homem que produziu uma arte refinada, universal e atemporal, mas cuja vida ficou absolutamente imersa em seu tempo. Um pianista que estava no lugar certo, na hora certa.

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