Homem contempla Barcos Encalhados

O conto a seguir, de Ronaldo Correia de Brito, faz parte do livro Retratos Imorais, que sairá em setembro pela Alfaguara. No momento, o ficcionista de Galiléia - Prêmio São Paulo de Literatura/2009 - escreve outro romance

Ronaldo Correia de Brito, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2010 | 00h00

O silêncio é uma rua de janelas fechadas ? declamou em voz alta o verso do poeta Everardo Norões.

À luz da lua, avistou na areia branca da praia o que pareciam caveiras de elefantes, mas que eram na verdade os restos encalhados de barcos de pesca. Lembravam as costelas de um paquiderme, desmanchando-se ao embate das ondas. Se a maré subia, naufragavam; se baixava, as proas pediam socorro.

Fazer o quê? O avô quisera assim.

? Os homens inventaram os cemitérios.

Ramon acendeu um cigarro e riu. Nunca contava os cigarros fumados, nem olhava as fotografias ilustrando as embalagens, para não se amedrontar e desistir do vício. Um homem numa máscara de oxigênio e a frase ameaçadora: O Ministério da Saúde adverte: fumar provoca câncer de pulmão. A foto mais aterrorizante era a de um cigarro com as cinzas arqueadas, sugerindo algo que baixara e nunca mais se levantaria. Nem precisava ler o que estava escrito. Uma sucessão de horrores como nos quadros de Jerônimo Bosch: meninos desnutridos, membros ulcerados, rostos anêmicos, corpos escaveirados, um tratado de patologias. Ele mesmo perdera os dentes, um a um, enferrujados pela nicotina.

Como os barcos que o avô deixara encalhar na praia, depois que adoecera e não pudera mais se aventurar nas águas profundas.

? Nunca mais sairão à pesca ? sentenciou, sem ressentimentos.

As madeiras apodreciam, os tabuados finos soltavam-se das vigas, a maresia comia os ferros. Do jeito que se decompunham os elefantes mortos na savana. Primeiro, os caçadores arrancavam as presas de marfim. Depois, as aves de rapina devoravam os olhos, furavam o couro e comiam as vísceras. Por último, as hienas se banqueteavam com gorduras e carnes. Restavam os ossos, arreganhados para o céu, sem nenhum pudor. Iguaizinhos aos barcos.

Sem ligar para a metáfora de que o silêncio é uma rua de janelas fechadas, Ramon riu de si mesmo e do poeta. Depois falou em voz alta que o silêncio é uma fileira de barcos arruinados. Alguém deixaria de se divertir com a imagem de caveiras de elefante, enfileiradas e silenciosas? Achou-se um gênio do humor e riu até se engasgar com a nona taça de vinho. Tornou-se sério apenas quando acendeu outro cigarro. Sem querer, viu a foto de um menino raquítico.

Nunca visitara a África, onde as crianças desaprendiam a mastigar, porque não comiam. O Ministério da Saúde adverte: fumar durante a gravidez causa problemas ao feto. Ainda bem, não corria esse risco. Mais uma vantagem em nascer homem: os espermatozoides não sofrem desnutrição pelo tabagismo. Nem pelo álcool.

Encheu a décima taça e olhou através da janela. Era a única aberta na rua. A única com as luzes acesas e gente espreitando. Ele.

Do outro lado, a praia e os barcos encalhados.

O avô lhe presenteara um maço de cigarros ao completar treze anos. Ensinou-o a desfazer o invólucro de celofane, a tragar e a expelir fumaça pelo nariz. Sempre fumaram juntos, até poucos dias antes do avô morrer de câncer de pulmão.

? Não acredito que isso faça mal ? o avô falou. ? Uma coisa tão pequena, tão insignificante.

Riram.

O avô contou sobre a única vez em que decidiu largar o vício. Pescava no mar alto. Não permitira que ninguém levasse cigarros na embarcação. Uma noite não suportou o desejo e deu ordens para voltarem. Encontrou os botecos fechados. Bateu na porta de uma casa de comércio, pediu que lhe vendessem um maço. Pagava qualquer preço. Acendeu um cigarro e revoltou-se com a constatação de que uma coisa tão pequena o dominava. Jogou o cigarro no chão e esmagou-o.

? Você é um homem letrado, meu neto, mas o vício nos iguala ? falou pra Ramon.

? É possível.

Mudos, os dois olhavam os barcos se desmanchando.

Nos porões apodrecidos, nenhuma memória de peixe. Refletiam que tudo se assemelha na morte, até os navios.

E o avô, no que pensaria poucos minutos antes de morrer? Ele e Ramon amavam o silêncio, acima de todos os bens. O silêncio que se segue a uma baforada, a fumaça pairando sobre as cabeças, como nuvens antes de uma tempestade.

Em silêncio, os homens são iguais como ruas de janelas fechadas.

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