Wilton Junior/AE
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Homem com H

Antes de mudar uma geração, Ney Matogrosso teve de mudar a si mesmo. Às vésperas dos 70 anos, o rapaz de Bela Vista (MS)segue sem ter medo da verdade

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2011 | 00h00

Ney Matogrosso faz 70 anos no dia 1.º de agosto. A notícia assim, em uma página de jornal sem a foto do artista, pode parecer banal. Afinal, quantos outros notáveis não chegam aos 70? No caso de Ney, o ingresso na sétima década com integridade física e moral é um fato quase espantoso. Desde que se entende por gente, o cantor vem traindo um a um os prognósticos que lhe deram, quisesse ele saber ou não. A ditadura lhe mandou ultimatos por meio de cartas, a aids atingiu parceiros à direita e à esquerda, os especialistas diziam que sua voz teria sérios problemas antes que ele chegasse aos 40. Os heteros não o entenderam. Os gays também não. E Ney seguiu por um caminho que trilha sozinho desde que decidiu assumir alguns princípios.

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A reportagem do Estado o visitou em seu apartamento no bairro do Leblon, no Rio de Janeiro. O homem que criou um personagem andrógino nos anos 70, a bordo dos Secos & Molhados, para torcer a caretice da MPB e, por tabela, atormentar a ditadura fala como se vivesse tudo ali, mesmo quando o assunto arranha e as memórias de uma infância nada convencional ameaçam atormentar.

A agenda de Ney não permite que ele fique só nas lembranças. Este será um ano cheio, que não vai esperar o carnaval passar para ter início. Ney trará de volta a São Paulo os shows da turnê de Beijo Bandido, que já foi lançado em CD e DVD por sua gravadora; se prepara para a estreia do documentário Olho Nu, que conta sua história desde a infância em Mato Grosso do Sul; deve ter também por aqui a estreia do monólogo dirigido por ele chamado Dentro da Noite, já encenado no Rio de Janeiro; e começa a gestar um próximo disco com músicas inéditas que, segundo Ney, devem chocar por algumas escolhas. "Vou gravar muitas coisas que as pessoas não vão entender", diz.

A história começa com um homossexual sendo vaiado por toda a rua na cidadezinha de Bela Vista, em Mato Grosso do Sul. Ney, criança, via aquilo horrorizado. Quando começou a sentir por homens aquilo que aprendeu que um homem só deveria sentir por mulheres, ficou preocupado. Não queria ser aquela pobre alma de Bela Vista. Se quisesse ser respeitado, teria de bater o pé. E ele bateu.

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