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Homem-bomba americano

Quando o Trump foi eleito, fiquei doente. Juro. Só conseguia pensar nele. Como é que um sujeito tão repulsivo foi eleito presidente? A explicação talvez esteja na aparência horrenda de seus seguidores.

Arnaldo Jabor, O Estado de S.Paulo

22 Novembro 2016 | 02h00

É impressionante a estupidez estampada nas caras, a feiura do rancor, da ignorância e da obtusa fé, são assustadores os esgares malignos dos primeiros assessores contratados por essa caricatura que vai mandar em um novo mundo velho, um mundo que volta a celebrar todas as doenças que a inteligência, a ciência e a cultura política conseguiram debelar. O horror do totalitarismo é que sua prática corrói os sentimentos críticos e, aos poucos, vamos nos acostumando ao atraso que voltou. Com as consciências massificadas, é difícil reverter o horror e voltar à democracia. A liberdade se esvai e esquecemo-la. Neste tempo em que a barbárie toma o poder, os Estados Unidos eram o único porto, a grande exceção segura para a democracia que constituíram há 240 anos. Agora, dançou.

Entramos na fase das humilhantes racionalizações tipo: “Ahh... vai ver ele é legal... ahhh, tudo bem, ele vai ter de se submeter às regras e aos rituais do cargo”. O problema é que ele não vai. Ele é louco, não vai se curvar a nada. Ele mesmo declarou: “Adoro ser imprevisível...”.

As oposições estão digerindo o pesadelo e vão agir politicamente. Mas, o problema não é ideológico, o problema é psiquiátrico.

Procurei um livro que o explica. Trata-se de A Máscara da Sanidade, (The Mask of Sanity), escrito em 1941 pelo psiquiatra americano Hervey M. Cleckley, um clássico estudo sobre a psicopatia, doença tão comum hoje neste mundo sem cura e sem culpa.

Hervey arrola as características básicas do psicopata, que alguns cientistas chamam de “psicóticos sadios”. Ele faz uma lista de suas anomalias principais. Eles têm a mímica perfeita de uma pessoa funcional e podem mascarar a anomalia da personalidade, um caos interno que resulta em proposital comportamento destrutivo, às vezes até autodestrutivo. O psicopata é incapaz de experimentar emoções genuínas. Cleckley nota que eles desenvolvem uma conduta antissocial, incluindo coisas como racismo, bestialidade, voyeurismo, rebeliões súbitas e promiscuidade. O livro é um retrato profético do Trump.

A lista negra. Segundo Cleckley, o psicopata tem um charme superficial e boa inteligência. Não denota sinais de pensamento irracional, nem de neuroses. Não tem remorso ou vergonha. Mente compulsivamente, muitas vezes acreditando na própria mentira, para conseguir poder. Ele tem um egocentrismo patológico e incapacidade de amar. Nele, há uma absoluta falta de insight, de autoconhecimento. Ele tem grave irresponsabilidade nas relações interpessoais, ele tem uma vida sexual impessoal, trivial, pobre. Também não tem capacidade de aprender pela experiência, porque acha que não tem nada a aprender. Ele tem uma espantosa capacidade de manipulação dos outros, pela mentira, sedução e, se precisar, chantagem. Não se emociona nem tem compaixão pelo ‘outro’. Questionado ou flagrado, o psicopata não se responsabiliza por suas ações, sempre se achando inocente ou ‘vítima’ do mundo, do qual tem de se vingar. Ele, em geral, não delira. Seus atos mais absurdos e cruéis são justificados como ‘lógicos’, naturais. O psicopata não deprime. Certamente, haverá muita oposição da opinião pública americana contra essa doença que pegou na América. Haverá marchas semelhantes à época da luta pelos direitos civis do anos 60. A questão é que Trump é insensível a qualquer sensatez. Ele, provavelmente, vai reagir a essa impopularidade com gestos mais loucos, mais intempestivos ainda, criando situações vergonhosas e insolúveis pelas instituições públicas. Trump vai ser a desmoralização da América no mundo, com os líderes mundiais desprezando-o e tratando-o como débil mental. Ele é um homem-bomba, com sua equipe da Ku Klux Klan, com fascistas como Steve Bannon, que declarou: “Quero destruir o Estado. Quero trazer tudo abaixo, destruir todo o establishment de hoje”. É inconcebível que esse homem possa ser secretário de governo. Trump não poderia presidir os Estados Unidos, mas, infelizmente, um impeachment purificador será impossível, porque ele domina o Judiciário e o Congresso.

Que vai acontecer? Não se trata de esquerda ou direita, conservadores ou progressistas – Trump é o Mal. Seus semelhantes são o stalinista escroto Putin, Assad, Duterte, toda a boçalidade populista atual. Seus seguidores são fanáticos, seduzidos pela aparente eficiência totalitária.

Hillary não perdeu; foi vítima de uma calamidade histórica. Foi traída pelo republicano canalha do FBI James Comey, na última semana da campanha, trazendo a ladainha dos e-mails de volta. É trágico ver o Obama, depois do melhor governo em décadas, tentando convencer Trump a não aderir ‘completamente’ ao Putin, que ‘hackeou’ o programa eleitoral do Partido Democrático.

A velha luta pela ética, pela paz, está virando uma batalha vã. Os chamados comportamentos ‘humanos’ estão se esvaindo na distância. O que é ‘humano’ hoje? O ‘humano’ está virando apenas um lugar-comum para a ‘bondade’ submissa, politicamente correta, uma tarefa inócua para ONGs. E esse comportamento está deixando de ser uma exceção. O psicopata é um prenúncio do futuro, quando seremos assim para sobreviver. Trump é uma catástrofe. É apavorante pensar que o planeta Terra está nas mãos de um louco e ninguém pode fazer nada. A não ser que outros psicopatas o matassem.

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