Holocausto pelos olhos de hoje

Talvez de À Espera de Turistas venha novo alento para o tema do Holocausto. A história é bem bolada. Um rapaz alemão, Sven (Alexander Fehling), vai prestar serviços comunitários em Auschwitz, na Polônia. Lá, tem de cuidar de um velho sobrevivente do campo de concentração, que, aliás, virou ponto de peregrinação, mas também uma espécie de macabra atração turística.

O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2012 | 03h26

A ideia é, num primeiro momento, neutralizar a imagem do antigo campo de concentração através do olhar de alguém que não alimenta qualquer sentimento particular em relação ao passado. Sven é um jovem alemão. Não se sente culpado pelo que seus antepassados praticaram. Também não alimenta nenhum sentimento positivo ou negativo em relação a esse passado. Vai para a Polônia, e para aquele lugar, particularmente, porque não teve outra alternativa. Ninguém queria ir, ele foi. Avançou na direção de menor resistência, no que pensava ser o mais fácil para si mesmo.

Estava enganado, é claro, e logo descobre o engano quando conhece o velho de quem terá de se ocupar. Esse polonês rabugento (Rzyzard Ronczemski) é ninguém menos que um antigo prisioneiro de Auschwitz, alguém que traz tatuado em seu braço o número de matrícula e conserva lembrança feroz daqueles tempos.

A ideia do diretor Robert Thalheim é poderosa, em teoria. Contrapor esses dois universos - o do jovem alemão, que não está nem aí para o que se passou antes de ele nascer, e o velho prisioneiro, que não tem a mínima intenção de esquecer do passado e portanto facilitar as coisas para o outro. São personagens divergentes, com tudo o que essa situação comporta de possibilidades.

Nem tudo anda bem nem sempre as situações são conduzidas de modo criativo. Mas, de qualquer forma, a discussão está posta e pode ser formulada nestes termos: o que fazer com a memória de fatos terríveis para que não seja banalizada pela excessiva exposição? Como lembrá-la sempre, sem atenuar sua força pela reiteração contínua?

Por outro lado, como conciliar, em torno dessa herança comum, pessoas de gerações e nacionalidades diferentes? O que tem a ver um jovem alemão nascido duas ou três décadas após o fim da guerra com um velho prisioneiro preso ao passado?

São interrogações que ficam depois de vermos este filme incomum, que reflete sobre a memória, a presença do passado no presente e a exploração turística do horror. / L.Z.O.

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