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Holocausto horror que nunca acaba

Força de A Chave de Sarah promete sacudir evento que começa amanhã

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2011 | 00h00

Começa amanhã na cidade o 15.º Festival de Cinema Judaico, que trará, até o domingo, 40 produções de diferentes nacionalidades para discutir os grandes temas da cultura judaica. No Rio, o festival ocorre de 13 a 18. De cara, o público paulistano terá uma atração muito especial - A Chave de Sarah, de Gilles Paquet-Brenner, amanhã, às 20 horas, no Teatro Arthur Rubinstein, na Hebraica. Se você pensa que o cinema já esgotou o tema do Holocausto, prepare-se. O filme descobre um novo viés para encarar o horror do massacre de milhões de judeus durante a 2.ª Guerra. De Paris, o cineasta conversou com o Estado por telefone.

Na origem do seu filme está a lembrança dos 60 anos do Vel d"Hiv, que a jornalista norte-americana Kristin Scott Thomas deve cobrir. Com o Vel d"Hiv volta o horror do colaboracionismo dos franceses com os nazistas. Era o que lhe interessava abordar?

Sou de ascendência judaica. Meu avô era um judeu-alemão, casado com uma francesa. Ele morreu nos campos de extermínio. Sempre quis contar a história de minha família, mas, como Roman Polanski, que não queria ser autobiográfico, precisava de uma outra história, que não a minha. O livro de Tatiana de Rosnay me forneceu o elemento que precisava. O Vel d"Hiv é um ponto de partida. Kristin - sua personagem chama-se Julia - vai pesquisar e faz descobertas pessoais, que envolvem a família do marido. E tudo começa naqueles dois dias, em julho de 1942, quando a polícia francesa concentrou no Velódromo de inverno de Paris 13 mil judeus que foram entregues aos nazistas e enviados para a morte. A história de Sarah e seu pequeno irmão se inscreve na barbárie daqueles tempos.

Seu filme chega ao festival no momento em que o clássico Le Chagrin et la Pitié, de Marcel Ophuls, está saindo em DVD (pela Videofilmes). No que isso pode contribuir?

Ophuls documentou o cotidiano de Clermont Ferrand sob o nazismo. O filme de 1971 expõe a falta de heroísmo dos franceses perante os ocupantes. Naquele momento, muita gente que havia colaborado estava viva e não queria que a história fosse contada. Era melhor silenciar, pensavam. Hoje, a história de Sarah é contada para uma nova geração que não viveu os fatos nem se comprometeu. Sarah foi muito bem recebido pelo público, e não apenas na França. É o filme francês de maior sucesso nos EUA, na Alemanha, no Japão. O sucesso alimenta o debate, que é necessário.

Quando a gente percebe o que vai ocorrer com o irmão de Sarah, a sensação é de angústia. Você não é Hitchcock, mas trabalha com o suspense. Por que o formato?

Não sou historiador nem jornalista. Sou um diretor de cinema. Respeito os que dizem que o Holocausto não pode ser tratado como ficção - Claude Lanzmann, de Shoah -, mas eu só poderia abordar o tema dessa maneira. Não saberia, ou melhor, não me interessa fazer um documentário sobre o período. Respeito quem faz, mas o que eu queria era que o espectador compartilhasse a história de Julia, de Sarah, de seu irmão. Não com frio distanciamento, mas com emoção, projetando-se na trama e nos personagens.

Você conta com uma das melhores atrizes do mundo, Kristin Scott Thomas. Como foi trabalhar com ela?

Você já disse - é uma das maiores atrizes do mundo. Kristin pode tudo. Por meio dela, do seu olhar, o espectador entra no drama de Sarah. Foi uma experiência única ver Kristin se transformar durante a filmagem.

Na sexta, estreia no Brasil o filme de Lars Von Trier Melancolia. Em Cannes, ele disse que admirava Hitler, que era nazista. O que você pensa disso?

Que vai incrementar o Festival Judaico! Lars é um grande artista, mas é um provocador que, neste caso, se deixou levar por uma espécie de incontinência. Sua obra não reflete antissemitismo, o episódio será esquecido, mas não é uma coisa de que possa se orgulhar.

O festival mostra filmes sobre o Holocausto, mas os temas incluem a questão da identidade judaica, Israel, o Oriente Médio, a questão palestina.

Não podemos esquecer o Holocausto, mas há uma atualidade política que precisa ser encarada e debatida. No fundo, o que interessa é construirmos uma sociedade mais tolerante e humana, com espaço para todos, mas atenção. O meu "todos" exclui a aberração do nazismo.

FESTIVAL DE CINEMA JUDAICO

Informações e Programação completa em www.fcjsp.com.br

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