Hollywood volta ao Apocalipse em o Livro de Eli

O diretor Allen Hughes e Gary Oldman falam sobre a nova fantasia científica estrelada por Denzel Washington

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

19 de março de 2010 | 00h00

LOS ANGELES

Denzel Washington falta ao próprio apocalipse. O astro de O Livro de Eli deveria participar da rodada de entrevistas do novo filme dos irmãos Albert e Allen Hughes, que se realiza neste sábado, num hotel de Beverly Hills. Mas Washington está doente - "Não é desculpa", garante um dos diretores, justamente Allen. Albert está em trânsito, vindo da Europa, e não chegará a tempo. Allen Hughes e Gary Oldman, que faz o vilão, concedem individuais. Mila Kunis participa de um grupo. Ela é estrela de TV, meio chatinha. Fica se achando, embora para a maioria dos jornalistas faça parte do pacote para poder falar com Allen Hughes e Gary Oldman.

videoAssista a trecho de O Livro de Eli

O filme reabre a vertente de Mad Max. O cult do australiano George Miller que deu projeção internacional a Mel Gibson completava, no ano passado, 30 anos. Os Hughes Brothers dão agora sua versão da Terra devastada. Denzel Washington faz o andarilho que guarda o "Livro". O herói já foi chamado de Mad Max "cristão". Encontra ruínas, por toda parte. E grupos hostis. Gary Oldman comanda essa cidade em que a água consegue ser um dom mais precioso do que o próprio combustível. Oldman dirige uma brigada de motociclistas que seguem o figurino dos Devil"s Angels, Anjos do Inverno. Ele busca do Livro. Há um segredo em relação ao personagem de Denzel Washington. Ilha do Medo, de Martin Scorsese, toma outro rumo, lá pelas tantas, com a revelação sobre o personagem de Leonardo DiCaprio. A revelação sobre Denzel não muda o enfoque de O Livro de Eli, mas surpreende o espectador pelas habilidades que o herói vinha revelando.

Allen Hughes admite que quadrinhos e um certo personagem de filme de sabre japonês foram as principais influências para o irmão e ele. Os dois adoram quadrinhos. Fizeram Do Inferno, versão da graphic novel de Alan Moore, com Johnny Depp. Com todo respeito, não é estranho - bacana - que diretores negros tenham conseguido rapidamente se impor no cinemão, a ponto de dirigir astros do calibre de Johnny Depp e Denzel Washington? "Nascemos numa família de classe média, pais antenados, que desenvolveram na gente o gosto por formas e linguagens mais alternativas. E eles nunca nos levaram a crer que poderíamos ter limites, pela cor da pele. Fizemos carreira nos clipes e foram eles que nos trouxeram ao cinema."

Mad Max foi uma influência? "Uma referência. Quem nunca viu a imagem de Mel Gibson como Mad Max não deve ter ido ao cinema nos últimos 30 anos." Allen conhece o cinema trash italiano? Cannibal Holocaust? Ele não conhece e de onde saiu, então, o casal de velhos que se alimenta de carne humana? "Queríamos um contraponto de humor para o clima sombrio do relato." Por via das dúvidas, pede à assistente que anote o nome do diretor Ruggero Deodato. O tom "preto e branco em cores" da fotografia deu trabalho para ser conseguido. As paisagens desoladas são da fronteira mexicana. "O Livro de Eli teve mais pós-produção do que Do Inferno", Allen Hughes revela. E o som é muito importante, ele arremata.

Homem de família. Gary Oldman diz que se divertiu bastante fazendo seu enésimo vilão. Na cara dura, faz confissão de cinismo - "Tenho contas para pagar, escolho os filmes que pagam bem e que são rodados por aqui. Com mulher e filhos, não é legal ficar longe da família." Seu personagem é obcecado por livros, não apenas o de Eli (a Bíblia). Quando conhece o andarilho, Oldman está lendo a biografia de Mussolini. Foi ideia dele? "Oh, não, estava no roteiro. Esses caras (os Hughes) são bem antenados e pensam nesses detalhes."

É bom fazer o vilão? "Não mais do que o herói, mas o bom do vilão é que tudo lhe é permitido. O mocinho é quase sempre vítima da própria retidão. Existem heróis que são muito chatos." Você pode ficar horas revisitando a carreira de Gary Oldman, todos os grandes filmes que fez. O Amor Não Tem Sexo (Stephen Frears), JFK - A Pergunta Que Não Quer Calar (Oliver Stone), etc. Ele lembra os tempos heroicos da carreira, quando Stone lhe deu liberdade para criar o personagem de Lee Harvey Oswald e ele foi a campo, pesquisar por conta própria. Gary Oldman não gostaria de voltar àquele tipo de experiência? "Are you kidding, man? Está brincando, cara? Faz 20 anos, eu era jovem, estava começando. Hoje em dia, quero conforto." E Oldman ri da própria piada. Está implícito que, não apenas os diretores, mas ele próprio, exigem menos do que o seu grande talento pode dar. Mesmo assim, Denzel Washington precisa do seu antagonismo para que O Livro de Eli funcione. "Ah, mas então funciona?" A última palavra é de Oldman.

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