Holliger, inesquecível como compositor, oboísta e regente

Suíço fez dois programas com a Osesp, em que soube conquistar plateias com as diversas facetas de seu talento musical

JOÃO MARCOS COELHO , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

30 de abril de 2013 | 02h07

Que o regente e oboísta suíço Heinz Holliger é um dos maiores músicos da atualidade, ninguém duvida. Maravilhoso é poder assisti-lo em todas as suas facetas no curto espaço de quatro dias: regente, compositor e instrumentista. Nas três qualificações, ele é fora de série. Como regente, contagia os músicos, injetando-lhes uma intensidade que transforma cada performance num acontecimento essencial.

O compositor e o regente foram capazes, de quinta-feira a sábado, de manter a respiração do público suspensa, seguindo eletrizada sua obra Gesänge der Frühe, ou cânticos da manhã, para coro, orquestra e fita pré-gravada. Concessões? Nenhuma. Prova de que não é preciso apelar para o pop para agradar.

Longe disso. Holliger une nesta complexa obra de 2003 textos diversos, poemas e diários de Hölderlin e Schumann, e as autópsias de seus cérebros a uma música que caminha como uma constelação fragmentária, aproveitando até uma harmonização de Schumann para coral escrita quando o compositor já estava internado em Endernich. Naquele 1853, Schumann escreveu a peça para piano Cânticos da Manhã, pinçada por Holliger. Naquele 1853, Clara queimou uma série de peças por julgá-las já sintomas de sua bipolaridade, com aprovação de Brahms. Quem já ouviu o CD Romancendres (ECM), com peças para cello e piano de Clara e duas obras de Holliger, entendeu melhor o concerto: o CD contém os Cânticos que vimos na Sala São Paulo e seis peças para cello e piano; numa atitude arrojada, o suíço puxa as orelhas de Brahms por ter permitido a destruição das peças de Schumann. É desmedida sua paixão pela música de Schumann. Ele construiu um mágico itinerário, para além da finitude humana: "Vida é morte, e morte também é vida", segundo o verso de Hölderlin. Parte das cinzas para ir dar trevas à luz, fazer renascer a arte de Schumann, como uma fênix. Por isso, o concerto retroage no tempo: a segunda peça foi o estranho concerto para violino, daquele mesmo 1853. Holliger na batuta, o magnífico Thomas Zehetmair ao violino, afastaram as habituais alusões mórbidas, acentuando seu caráter inovador. Bettina von Arnim, candidata a amada imortal de Beethoven e musa de Goethe, convive nos textos com Diotima, a amada de Hölderlin, que canta "Do vale escuro surge o novo mundo/e a primavera é feliz ao alvorecer". Terminar o concerto com a Primeira Sinfonia, apelidada "Primavera", era a conclusão lógica.

No domingo, além do regente preciso de obras do século 20 clássicas de Stravinski e Milhaud e de uma mais recente porém palatável, de Zimmermann, o público saboreou o Heinz Holliger oboísta numa iluminada performance da Gran Partita, de Mozart. Foi de levitar a entrada do oboé no Adagio, passagem célebre do filme Amadeus. Salieri, ao ouvi-la, jogou a toalha diante do concorrente: "parecia ouvir a voz de Deus".

Sem dúvida, os melhores concertos desta e possivelmente de várias temporadas. Holliger é um Midas musical. Tudo que toca vira ouro. Não só a Osesp estava sanguínea, pulsante, na quinta-feira; os sopros também, num domingo inesquecível.

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