Hoje é dia de urso

Com filmes fortemente comprometidos com a realidade, a 63ª mostra de Berlim anuncia hoje os seus vencedores

LUIZ CARLOS MERTEN, ENVIADO ESPECIAL / BERLIM, O Estado de S.Paulo

16 Fevereiro 2013 | 02h09

E o suspense termina hoje à noite, com o anúncio dos vencedores da Berlinale de 2013. O festival ainda continua amanhã, com a reprise de todos os vencedores, mas hoje já serão conhecidos os vencedores dos Ursos de Ouro, Prata e Bronze. Não foi uma grande seleção. Muitos filmes, medianos, alguns até ruins, mas não faltou coerência, principalmente temática, na seleção organizada pelo diretor artístico do evento, Dieter Kosslick.

Mas não faltaram bons filmes, até grandes. A expectativa é de uma recompensa à altura para o filme chileno Gloria, de Sebastian Lelio. Senão o Urso de Ouro de melhor filme, pelo menos o de Prata, de melhor interpretação feminina, para Paulina Garcia. Gloria é sobre uma mulher de 60 anos que não abre mão de viver. Por intermédio dela, Lelio reflete sobre o Chile contemporâneo. Seu trabalho virou o queridinho da crítica e do público na Berlinale e há rumores de que até Hollywood está interessada num remake da história.

Na quinta, surgiram dois fortes concorrentes. O representante do Cazaquistão, Harmony Lessons, de Emir Baigazin, veio se somar ao russo Boris Khlebnikov, de A Long and Happy Life, e a Danis Tanovic, com seu poderoso drama coproduzido pela Bósnia, Herzegovina e Lituânia, An Episode in the Life of and Iron Piker. São todos filmes fortemente comprometidos com a realidade. Pautam-se pelo rigor estético. Cinema sem firulas, duro, embora não faltem resquícios de poesia.

Apesar do título, Harmony Lessons é muito mais um exercício de desarmonia, sobre a desordem do mundo. Retrata os conflitos numa escola. Um garoto é humilhado pelos colegas, especialmente por um que é o bandidinho do grupo. Este último é morto e há uma investigação. O diretor trabalha no registro da ambiguidade e não deixa claro se foi mesmo o protagonista, um garoto perturbado, que matou. É um filme rigoroso, forte, e os atores jovens - os garotos - são bons.

Foi um festival de mulheres fortes e, consequentemente, grandes interpretações femininas. A chilena Paulina Garcia é poderosa e nove entre dez jornalistas jogam suas fichas de que será a vencedora do Urso de Prata, mas o júri dispõe de uma ampla gama de escolha, incluindo duas estrelas francesas - Juliette Binoche, sublime como a Camille Claudel de Bruno Dumont, e Catherine Deneuve, num papel novo em sua carreira, o de avó renitente, em Elle s'en Va, de Emmanuelle Bercot. E há ainda a romena Luminita Georghiu, de A Child's Pose. Seu papel como mãe dominadora ainda assombra os cinéfilos que apreciaram o filme de Calin Peter Netzer.

Se as mulheres foram fortes, os homens, em geral, foram fracos, o que limita as escolhas no quesito interpretação masculina. Uma boa (rara) possibilidade seria o bósnio Nazif Mujic, do filme de Tanovic, mas ele interpreta o próprio papel como catador de ferro que tenta salvar a mulher, que corre o risco de morrer de infecção generalizada, após abortar. Como o casal não possui seguro social, nenhum hospital aceita operá-la para retirar o bebê morto. Tanovic reconstitui com o próprio casal o que ocorreu com marido e mulher.

Em Cannes, quando presidiu o júri, o romântico Wong Kar-wai privilegiou o social e atribuiu a Palma de Ouro ao Ken Loach de Ventos da Liberdade. Os melhores filmes dessa Berlinale carregam no social. Não vai faltar material para a escolha de Kar-wai e seu júri.

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