Robson Fernandjes/AE
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Hobby de Luxo

Quando não entrevista e não atua, Marília Gabriela canta. E pode provar agora que não é só uma aventureira

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2010 | 00h00

"O que você quer saber de mim?", pergunta bem humorada uma Marília Gabriela recém saída do estúdio de gravação de seu programa no GNT (Marília Gabriela Entrevista). Difícil responder. Marília, aos 62 anos, exibe energia de dar inveja a praticantes de Pilates. Impossível não querer saber como ainda encontra tempo e disposição para fazer um show. Sua estreia no palco do Bourbon Street será na próxima quarta e, apesar de ter no currículo três discos, define a música como um hobby luxuoso.

Seu primeiro álbum, Marília Gabriela, de 1982, foi gravado ainda na fase TV Mulher pela Som Livre. Em seguida, em 1984, veio o segundo, também Marília Gabriela, com direção musical de César Camargo Mariano. O terceiro, Perdida de Amor, de 2002, teve arranjos de Ricardo Silveira e produção de Max Pierre. Agora, ela leva ao Bourbon um repertório eclético que, com arranjos e direção do maestro Ruriá Duprat, inclui de Boneca Cobiçada a Cry me a River.

Como você, que já acumula tantas funções, ainda encontra tempo e vontade de cantar.

Para não entrar no processo de enlouquecimento, eu me ocupo muitíssimo. Se não eu piro legal mesmo. E as questões não respondidas, de onde vim, quem sou, para onde vou? começam a rolar na minha cabeça.

Fazer um show é uma ideia boa para ocupar a cabeça...

Costumo dizer que cantar é um hobby luxuoso. Já esta apresentação começou a surgir lá em 2004, quando fiz meu último show, no Mistura Fina do Rio, produzido pelo Boni. Na época, o Edgard Radesca, do Bourbon Street, me convidou para fazer um espetáculo. E vim dizendo não desde então. Até que, há um ano, fui ver um show do Antonio Zambujo no Bourbon. Eu estava tão feliz que o Edgard me pegou na curva e disse: agora decide, quando você vai fazer o show. E respondi: no ano que vem.

Agora o ano que vem chegou.

Isso. Estava previsto para junho, mas fui adiando. Surgiu o Roda Viva (para apresentar na Cultura). Adiei mais um pouco e prometi: de novembro não passa. Bom, chegou novembro.

Antes de falar do repertório, conta um pouco como a música entrou na sua vida. Como uma jornalista, antes mesmo de se tornar atriz, se arrisca a cantar?

Quase ninguém sabe disso, mas um dia o Paulo Moura contou em uma entrevista que, quando era menino, morava em uma casa de pensão com o pai, em São José do Rio Preto. E que entre seus vizinhos tinha um homem chamado Mercedo José que tocava piston fantasticamente. E que foi o músico que fez com que ele se encantasse pela música. E este homem era meu tio, irmão da minha mãe. E ele morou na minha casa quando eu também era criança, com a família. Este meu tio organizava circos no fundo do quintal. Juntava as crianças da vizinhança, dava nome artístico e fazia a gente cantar. E também tive educação musical desde sempre. Fomos obrigadas a estudar piano pelo meu pai, que também tocava violão. Neste ano retomei os estudos de música. É bom porque a gente às vezes se propõe a tocar por uma hora e, quando vê, já se passaram cinco. Amo a música. É alegria pura.

Quando a carreira de jornalista decolou, sentiu certa patrulha em relação ao que podia fazer?

Senti, claro. E acho que isso acontece, de a gente se autocensurar, ficar com medo de experimentar, porque outros jornalistas também nos censuram. Para mim, experimentar é viver. Nunca tive este preconceito. Tudo sempre foi muito livre. Outro tio meu, por exemplo, era apaixonado por jazz. Educou meu ouvido. Aos quatro anos, já sabia assobiar Rosemary Clooney, Billy May, Stan Kenton, Harry James. Cresci ouvindo isso e me lembro dele me pedindo para assobiar isso para seus amigos.

Essa sua curiosidade de criança é o que ainda a motiva a brincar com a música.

É a curiosidade infantil com que a gente devia tratar a vida que tem sido pauta de muitos artistas. Quero experimentar. Para que um dia eu não diga: "Meu Deus, não errei nem acertei simplesmente porque não tentei." Cantar deveria ser uma terapia para todos. Todos sabem cantar. Basta treinar.

Você tem tempo de ensaiar?

Sempre arrumo tempo. Estou trabalhando com músicos extraordinários, no estúdio do maestro Ruriá Duprat (que ganhou o Grammy 2009 de Melhor Disco de Jazz contemporâneo pela produção de Randy in Brazil, de Randy Brecker). Ele é excepcional. Ontem ensaiei com a banda por sete horas, sem comer, beber... A gente esquece tudo. É muito bom. A mesma sensação que tive quando gravei meus discos. É bom demais fazer música. Quero fazer algo que valha a pena. É esta boa energia que quero que o público do Bourbon sinta.

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