Hitler na mira do cinema

Uma caixa com seis filmes reúne obras feitas por Hollywood para combater o regime nazista

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2012 | 03h11

Filmes de propaganda política não costumam virar clássicos, mas, no caso dos seis títulos reunidos na caixa Hollywood Contra Hitler, da Versátil Home Vídeo, o adjetivo pode ser aplicado a cada um deles sem qualquer tipo de concessão. São produções assinadas por diretores e roteiristas do primeiro time de Hollywood, realizadas entre 1939 e 1944 como um esforço de guerra dos estúdios para combater o nazismo alemão. Eles usaram também seus mais populares atores (Bette Davis, John Wayne, James Stewart, Spencer Tracy, Joan Crawford) em produções bem acima da média como Horas de Tormenta (Watch on the Rhine), filme com roteiro de Dashiell Hammett baseado numa peça de sua mulher Lillian Hellman, que rendeu um Oscar de melhor ator ao húngaro Paul Lukas.

A caixa com três DVDs traz seis filmes. No primeiro estão reunidos Confissões de Um Espião Nazista (Confessions of a Nazy Spy, 1939), de Anatole Litvak, primeiro filme antinazista produzido em Hollywood, e Uma Aventura em Paris (Reunion in France, 1942), drama dirigido por Jules Dassin sobre colaboracionistas na França. No filme de Litvak, Edward G. Robinson é um agente do FBI que investiga uma rede de espionagem nazista infiltrada nos EUA. A história - verídica, baseada num livro publicado (sem autorização do FBI) pelo ex-agente Leon G. Turrou - fala de um fanático nazista (o mesmo Paul Lukas) que reúne simpatizantes de Hitler num restaurante para imprecar contra a democracia americana.

Sua pregação convence um desempregado descendente de alemães (Francis Lederer), que vê na espionagem uma chance de ascensão social e se torna informante dos nazistas. Litvak faz dele um exemplo das milhares de vítimas da lavagem cerebral promovida pelo Reich e que o diretor Frank Borgaze explora de forma mais densa em Tempestades d'Alma (The Mortal Storm, 1940).

Uma Aventura em Paris muda de categoria social para tratar de colaboracionismo na elite francesa. Um oficial (Philip Dorn) noivo de uma socialite (Joan Crawford) afasta-se dela para receber generais de Hitler em sua casa, mas eles acabam se reencontrando quando Crawford tenta ajudar um piloto americano (John Wayne) perseguido pelo comando alemão. Curiosamente, o diretor Dassin usa uma estilista que mantém seu ateliê aberto durante a Ocupação como uma possível referência ao caso real de Chanel, que foi amante de um general nazista durante a guerra e trocou favores com a Inteligência alemã. Dassin, que seria incluído na lista negra do macarthismo em 1952 e levado ao exílio na Grécia, não trata particularmente de seu caso, mas fala da atitude indigna da elite francesa, que colaborou com os nazistas para manter seus privilégios - exceto a personagem de Joan Crawford, claro.

Na segunda caixa, Tempestades d'Alma destaca-se pela abrangência temática e o desempenho de seus atores, em particular James Stewart como um intrépido estudante antinazista e Frank Morgan no papel de um professor universitário que termina seus dias num campo de concentração. Os EUA não tinham ainda entrado na guerra quando o filme foi feito. Toda a ação se passa na Baviera e diz respeito a uma só família não ariana (a palavra judeu nunca é mencionada no filme). Dividida pela ideologia - os filhos adotados se filiam ao partido de Hitler -, ela desmorona. O diretor Borzage denuncia a brutalidade do regime, revelando o "método" de persuasão dos nazistas que, enfurecidos, baniram o filme do território alemão, proibindo a importação de outros produzidos pela Metro.

Horas de Tormenta começa com um casal (Paul Lukas e Bette Davis) e seus três filhos atravessando a fronteira mexicana para se juntar à família da mulher em Washington (várias cenas externas na capital tiveram de ser cortadas por questões de segurança na época de guerra). Kurt Müller (Lukas) é um engenheiro que passou 17 anos lutando contra Hitler numa organização antifascista. Busca a paz nos EUA, mas encontra na casa dos parentes um oportunista conde romeno alinhado aos conspiradores nazistas. Os diálogos foram escritos por Lilian Hellman e são bastante ácidos, embora tenham parecido "patrióticos" pelo produtor Hal Wallis. A "mensagem" do diretor Herman Shumlin é clara: é inútil fugir num mundo em que a serpente nazista já plantou seus ovos.

Lutar pela sobrevivência era a lição que o diretor Fred Zinneman ensinaria ao público no ano seguinte com A Sétima Cruz (The Seventh Cross, 1944). É um dos raros filmes da época a confirmar a existência de campos de concentração na Alemanha. Baseado num livro da refugiada alemã Anna Seghers, militante comunista que depois da guerra mudou do México para Berlim Oriental, A Sétima Cruz acompanha a fuga de prisioneiros de um campo, levando seu comandante a jurar de morte os fugitivos e erguer as sete cruzes do título. Seis são enterrados. Um deles (Spencer) tenta fugir para a Holanda. O diretor Zinnemann, que era austríaco e descendente de judeus, tenta o equilíbrio ao retratar rudes camponeses alemães e compatriotas gentis que ajudam o fugitivo.

Já em Os Filhos de Hitler (Hitler's Children, 1943), o cineasta Edward Dmytryk deixa a sutileza de lado e denuncia a barbárie reinante na Alemanha durante o regime nazista, quando um casal de namorados descobre que a sucursal do inferno é ali mesmo. O filme choca pelo tema e seu tratamento: a determinação do Reich em perpetuar a "pureza" da raça ariana, mandando engravidar jovens. Uma garota educada nos EUA recusa-se e é açoitada em praça pública. O resto do pesadelo não é difícil adivinhar.

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