Erik Almeida/Divulgação
Erik Almeida/Divulgação

Hitchcock, entre o cômico e o teatral

Os 39 Degraus, inspirada na obra do cineasta, pede mais força do elenco

, O Estado de S.Paulo

17 de setembro de 2010 | 00h00

Com tradução e adaptação de Clara Carvalho e Alexandre Reinecke, que também assina a direção, e texto de Patrick Barlow, Os 39 Degraus é um espetáculo teatral com temporadas também em Londres e Nova York, baseado no filme homônimo de Alfred Hitchcock, que, por sua vez, fez o filme a partir do romance de mesmo título de John Buchan.

Em termos de dramaturgia, o que se vê é uma peça que Tzvetan Todorov, embora contra rótulos, poderia dizer ser uma junção de gêneros distintos de literatura policial, como a literatura noir e a de enigma, isto é, uma "história de suspeito-detetive". Assim, "a personagem principal é ao mesmo tempo o detetive (para a plateia), o culpado (para a polícia) e a vítima (para os verdadeiros assassinos)." E é essa a estrutura que estabelece a linha de força da peça. Richard Hannay, diante de rumores e notícias de guerra, é acometido por uma crise de tédio. Para se livrar dele, ironicamente, resolve ir ao teatro, onde presencia um disparo de revólver. Conhece Annabella, uma espiã alemã, e a leva para sua casa, onde, então, é assassinada. A partir daí, Richard precisa encontrar o verdadeiro assassino a fim de se livrar da culpa, pois é acusado de ter cometido o crime.

A linha estética escolhida pela direção parece ir ao encontro do que pede o texto, seguindo o modelo já criado na versão estrangeira da peça. Apesar de o espetáculo aludir, em diversos momentos, a filmes de Hitchcock, seu tratamento é cômico e teatral. Leva da sugestão ao paroxismo mecanismos como a metalinguagem, as repetições, pantomimas que lembram o cinema mudo e os ingleses do Monty Python, além das gags de equívoco. Esses procedimentos teatrais pedem precisão nas expressões e, como se diz no jargão teatral, no timing cômico, isto é, no tempo de realização delas. Isso ocorre, em muitas cenas, como a dos espiões que entram, três ou quatro vezes, segurando o poste de luz, bem como toda a cena do trem (com destaque para as trocas de personagens, só com chapéus, entre Danton Mello e Henrique Stroeter, e para a perseguição de Richard pelo policial). Por outro lado, algumas vezes, como, por exemplo, nas cenas da fuga pelo "pântano" ou do falso discurso - não há tanta precisão assim e o tempo fica esgarçado, criando, ao que parece, digressões que dissolvem a trama, fazendo-a perder a linha de força.

Com relação às interpretações, Danton cumpre bem, mas precisa manter a coerência da caracterização das personagens, sem deixar que a característica de uma invada a outra. Stroeter é bem preciso, mostrando um repertório capaz de dar conta das pantomimas do cinema mudo às gags de repetições. Fabiana Gugli veste bem a femme fatale. Ainda que os personagens sejam propositadamente caricatos, talvez haja espaço para que ela carregue um pouco menos nas tintas, no geral, como quando constrói com precisão a camponesa. Dan Stulbach tem o perfil de Richard Hannay e o interpreta com base em seu it. Mas será que isso é suficiente para dar conta de que a personagem precisa? Será que, para elevar um personagem à categoria de construção estética, de signo que traduz algum sentido no palco, mesmo que seja uma comédia não tão complexa, é o bastante? Nesse sentido, parece faltar a Dan um preparo técnico vocal apropriado para essa peça. Sua dicção ora demonstra um esforço ora um relaxamento demasiados, utilizando o ar na boca em excesso, faz com que muitas palavras se percam.

Umberto Eco alerta para o fato de que um corpo humano no palco já não significa mais só a espécie, e sim o que nele traz de singular e plural ao mesmo tempo. Quando se lida com uma peça dessa envergadura, talvez seja preciso cuidar para que cada gesto traçado e cada palavra desenhada passem por escolhas precisas, porque vai comunicar algo. Assim, o espetáculo parece oscilar entre a alta comédia e alguns momentos em que os efeitos não têm significados preponderantes.

OS 39 DEGRAUS

Teatro Frei Caneca. Rua Frei Caneca, 569, telefone 3472-2229. 6ª, 21h30, sáb., 21h, dom, 19h. R$ 70 (6ª. e dom.) e R$ 80 (sáb.). Até 28/11.

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