Companhia das Letras/Divulgação
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Histórias sobre perda de identidade

Em Fama, o alemão Daniel Kehlmann apresenta contos que ressaltam o poder de redes sociais e ferramentas eletrônicas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

04 Abril 2011 | 00h00

As nove histórias de Fama (Companhia das Letras), o novo livro do jovem escritor alemão Daniel Kehlmann, de 36 anos, estão interligadas pelo desejo incontrolável do autor de comandar a vida de seus personagens. Por vezes eles se revoltam, como a mulher que se recusa a morrer para cumprir o destino escolhido por seu voluntarioso criador.

Outras vezes, eles são punidos e buscam uma forma de desaparecer da ficção que os condena pelo papel ambíguo que desempenham no mundo, como o escritor Miguel Auristos Blancos, protagonista da história Resposta à Abadessa, "venerado pela metade do planeta e indulgentemente desprezado pela outra metade".

Possivelmente inspirado na figura de Paulo Coelho, embora o autor negue, Miguel, autor de livros de autoajuda, é flagrado num momento de crise de identidade, como outros personagens de Fama, sobre o qual Kehlmann concedeu uma entrevista ao Caderno 2, anunciando para breve a estreia de uma peça e de um filme baseado em seu best-seller A Medida do Mundo, para o qual escreve o roteiro.

Numa das nove histórias de Fama, uma mulher decide escapar do confinamento a que a ficção a obriga. Como você, autor, se sente diante dessa mulher que implora para não ter o destino cruel reservado pelo autor? Essa história, Rosalie Viaja para Morrer, colocou-o na posição de Deus?

Acho que o escritor ocupa sempre essa posição - ele pode fazer tudo o que quiser com seus personagens, o que está próximo da ideia que fazemos de um deus. Nessa história tentei refletir sobre o que significa essa estranha posição e fazer com que a personagem conversasse com seu deus - eu - do mesmo modo que conversaria com o Deus a quem apelamos quando sofremos.

Fama não é apenas um livro ficcional sobre celebridade, mas um ensaio sério sobre o poder das redes sociais, ferramentas eletrônicas e aparelhos como o celular. Você acha que já estamos diante de uma mutação antropológica, de uma ciber-humanidade nascida na ciberesfera?

Não sei sobre a ciber-humanidade, mas estou certo que esta é a maior das mudanças experimentadas pelo homem desde a invenção do telefone. Talvez até ainda maior do que possamos imaginar. O fato de agora estamos em permanente contato com pessoas no mundo inteiro, até mais do que com as que nos rodeiam, vai provocar profundas mudanças na fábrica social. Nós nem começamos a entender o impacto que isso terá. Não sei se é uma boa ou má mudança, mas será definitivamente vasta.

A maioria dos personagens do livro está perdendo ou a caminho de perder a identidade, o que acontece com frequência no mundo real. Como explicaria essa perda? Diria que redes sociais como o Facebook pode mudar a personalidade de alguém ou ter efeito em suas fantasias?

Definitivamente, sim. A perda e a troca de identidade têm sido temas frequentes na literatura. Estava interessado na nova forma que se pode dar a esses velhos tópicos, contando histórias sobre nossa moderna tecnologia de comunicação.

Há quem aponte em seu estilo literário traços de Kafka, embora eu veja nele um parentesco ainda maior com a ficção do suíço Robert Walser. Quem são, afinal, os escritores com os quais você mais se identifica? Qual a sua opinião sobre contemporâneos seus alemães, como Ingo Schultze?

Fui mais influenciado por escritores americanos - tanto do Norte como do Sul - do que por escritores alemães, e diria ainda que o mesmo se aplica a Ingo Schulze, para quem o clássico conto americano foi um importante modelo. Não poderia ter escrito A Medida do Mundo, por exemplo, sem conhecer E. L. Doctorow ou García Márquez, assim como não teria escrito Fama sem ter lido Roberto Bolaño ou David Foster Wallace.

A Medida do Mundo foi um grande sucesso aqui no Brasil, repetindo o êxito que teve em todo o mundo. Seu ponto de partida foi satirizar a sociedade alemã ao comparar dois estilos de vida diferentes como o do naturalista Alexander Von Humboldt e do astrônomo Carl Friedrich Gauss? É possível usar suas vidas como metáforas da complexa natureza do povo alemão, dividido entre a dedução e a intuição?

Foi exatamente o que tentei fazer. Tentei usar os dois modelos de diferentes maneiras de ser alemão e também duas maneiras opostas de fazer ciência: o empirismo e o racionalismo. O livro acabou sendo uma comédia sobre o modo germânico de ser, o que, engraçado, não foi notado por grande parte do público leitor alemão, ao contrário dos leitores estrangeiros, que perceberam essa intenção.

Certa vez você disse que sofreu uma crise durante o processo de escrita de Fama, mais particularmente ao escrever a história da mulher que se recusa a morrer. Você chegou a ficar aterrorizado com a ideia de usar modelos reais para escrever ficção?

Não foi exatamente uma crise de identidade. Tinha a sensação de que a personagem implorar por sua vida era mais importante que a história que estava contando - algo que gostaria de dizer a Deus ao morrer. Na história, eu, o escritor, digo à mulher que ela é apenas um personagem, enquanto eu sou real, observação que a faz dar boas gargalhadas. Isso me fez pensar: talvez ela pense que é real e que eu é que só uma ficção, o que introduziu um novo elemento à história: não era apenas pura fantasia. Para mim, escrever essa história foi, de fato, uma forte experiência existencial.

No ano passado, a New Statement entrevistou você e perguntou se Fama era uma reação ao sucesso estrondoso de seus livros, que viraram best-sellers - e não só na Alemanha. Você se importa com o reconhecimento crítico?

Tento não me importar, mas me importo, sim. Acho que um artista tem de se aprimorar e ensinar a si mesmo a não se preocupar com reações alheias. Por outro lado, pessoas que não se importam com a opinião dos outros não se tornam artistas, esse é o problema. Então, ainda estou trabalhando isso dentro de mim e, nesse ínterim, me importo mais do que deveria me importar.

Uma das histórias de Fama trata da vida de um escritor, que identificamos imediatamente como Paulo Coelho. Você pretendeu fazer uma paródia dele? Como fez a pesquisa de seu estilo de vida?

Honestamente: não sei nada sobre a vida de Paulo Coelho. Não fiz nenhuma pesquisa, nem mesmo dei uma olhadela na Wikipédia. Queria mesmo escrever uma história sobre um guru de sucesso em nossa nova era esotérica, mas não posso negar que o personagem - um escritor de não ficção, ao contrário de Coelho, que escreve romances - foi influenciado por sua persona pública. Em todo caso, não é uma paródia de Coelho, mas de um certo tipo de escritor, até mesmo porque nunca li um livro dele e não poderia emitir nenhuma opinião sobre seu valor literário. Contudo, até acho que Coelho poderia gostar da história, embora acredite que ele não tenha se dado ao trabalho de ler.

É impossível ler algumas das histórias do livro sem pensar em Pirandello. Você sente alguma identificação com seu teatro ou com Beckett?

Amo Pirandello e também Beckett, claro. Podem ter influenciado o resultado, sim, embora acredite que uma influência ainda mais forte tenha sido o cinema surrealista de Buñuel. Não poderia ter escrito Fama sem o exemplo de O Fantasma da Liberdade, esse filme maravilhoso.

Você já pensou em escrever peças ou roteiros para o cinema?

Escrevi uma peça engraçada que deve estrear no outono, em Graz, Áustria. Atualmente trabalho num roteiro para o cinema que é uma adaptação de meu romance A Medida do Mundo. No começo, disse ao diretor que não queria escrever, mas agora estou me divertindo tanto que não sei por que fui tão relutante. Adoro escrever cenas e diálogos. De qualquer modo, sinto que minha ocupação principal ainda é a de escrever prosa. Talvez esse desvio seja uma tentativa de escapar da árdua tarefa de elaborar o próximo romance.

FAMA

Autor: Daniel Kehlmann

Tradução: Sonali Bertuol

Editora: Companhia das Letras Preço: R$ 39,50, 160 páginas

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