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Histórias silenciosas do dia a dia humano

Ordinário, livro de estreia do gaúcho Rafael Sica, desvenda a solidão e a agonia do cotidiano

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

18 de fevereiro de 2011 | 00h00

"Daqui a pouco vou desenhar bonequinho de palito", imagina o quadrinista gaúcho Rafael Sica, após constatar a evolução de seu traço ao longo dos últimos anos - de algo grosseiro e caricato, conforme diz, a uma simplicidade quase ingênua, cuja busca o fez deixar para trás inclusive os balões de diálogos e a cor.

Ele não planeja chegar a esse extremo, é claro, mas o fato é que em Ordinário (Quadrinhos na Cia), seu livro de estreia, vale a máxima de que menos é mais. Todo composto por tiras silenciosas e em preto e branco, com personagens anônimos em situações que à primeira vista parecem corriqueiras, o volume faz um recorte tão sutil quanto incisivo dessa condição estranha que se chama humanidade.

Nas curtas histórias, não raro a graça se confunde com a melancolia, caso do mímico que, encurvado sobre a cama, puxa uma luva da mesa de cabeceira, veste-a na mão e aponta o dedo para a cabeça como gesto final. Em outros momentos, as narrativas avançam para o surreal, como na sequência de quadros em que o mágico começa a serrar um voluntário e continua serrando e serrando, até sobrarem só quadradinhos de madeira no chão.

"Meu personagem central é o comportamento humano. Por mais que eu não busque um estereótipo e deixe as situações em aberto, as pessoas acabam se vendo naquelas situações, completando a coisa. O leitor se torna também um personagem", avalia Sica. Durante os quase três anos teve tiras diárias publicadas no jornal popular Diário Gaúcho, em Porto Alegre, no entanto, entendeu que a mensagem pode passar despercebida ao leitor menos atento. "Recebia bastante resposta de gente que não tinha a menor ideia do que eu estava fazendo", lembra.

Nascido em Pelotas, em 1979, jornalista por formação e ilustrador autodidata, Sica mantém na internet o blog Ordinário (rafaelsica.zip.net), onde está boa parte das tiras agora publicadas - o livro, conta, estava previsto para sair desde 2007, mas de lá para cá mudou de editora e teve de esperar um novo cronograma. A estreia como cartunista aconteceu aos 17 anos, num jornal de sindicato dos bancários, e em seguida passou a publicar em um diário local. Sua fonte de inspiração eram charges humorísticas de periódicos, mas, passada a fase caricata, encontrou estilo próprio - que, argumenta, resultou de suas dificuldades como desenhista. "Essa coisa da ingenuidade que as histórias passam foi a forma que encontrei de lidar com as limitações do meu desenho. Não tenho o traço bonito, mas é algo que funciona com o que a tira tem a dizer", avalia.

As ideias para as histórias vêm da observação do cotidiano, ainda que por vezes resulte em situações surreais (como a do peixe que fisga uma bota no lago, calça a bota e segue à margem da água empunhando a vara de pesca). E o ambiente de solidão e agonia, diz, pode ser qualquer lugar, mas encontrou cenário nas ruas de Pelotas, cujas fachadas neoclássicas "meio decadentes" o quadrinista procurou reproduzir.

ORDINÁRIO

Autor: Rafael Sica. Editora: Quadrinhos na Cia. Quanto: R$ 29 (128 págs.). Lançamento: Hoje, às 19 h, no +Soma (R. Fidalga, 98, Vila Madalena).

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