Histórias reais que foram esquecidas

Desenhar cadáveres após o massacre foi o ponto mais delicado do trabalho

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

26 de setembro de 2010 | 00h00

Na segunda parte da entrevista ao Estado, o jornalista e quadrinista Joe Sacco fala sobre a dificuldade em juntar depoimentos para Notas Sobre Gaza, as motivações para registrar fatos históricos em quadrinhos e o interesse em criar uma história de ficção.

Como foi o trabalho de filtrar depoimentos contraditórios?

Bem, você tem que olhar para as lembranças de pessoas sobre o que aconteceu há 50 anos com... não diria ceticismo, mas é preciso olhar de perto para dizer o quanto é de fato verdadeiro, o quanto do que outras pessoas disseram a elas passa a fazer parte das memórias delas também. Não é que não confiasse nelas, mas fiz questão de mostrar em Notas Sobre Gaza essas contradições nos depoimentos para que o leitor conhecesse um problema que enfrentei. O que importa é que o arco da história é real. Algumas pessoas se confundiram, outras disseram coisas que não encaixam na história, mas o arco é real.

Foi difícil achar ex-soldados israelenses dispostos a falar?

Sim, muito. Falei com militares e pesquisadores israelenses que tentaram me ajudar, e também fiz buscas em arquivos. Dois comandantes com quem falei disseram não se lembrar de nada daquilo. Não disseram que não aconteceu, disseram que não se lembravam. Eu questionava às pessoas como podia saber mais sobre o assunto e me recomendavam algum historiador. Daí o historiador dizia que talvez tivesse ouvido algo, mas que não tinha examinado mais detidamente. Minha esperança é que o livro possa fazer as pessoas se voltarem a esse assunto.

Você não teria interesse em retratar como se sentem os israelenses em meio aos conflitos?

Sei que eles sofrem, não há dúvida. A sociedade israelense também sofre com os atentados de palestinos, um lado alimenta o ódio no outro. Mas moro nos EUA, onde a história do lado israelense é muito bem contada, todos conhecem. Aqui, é do lado palestino que nunca se fala. Quero falar das pessoas que saíram como perdedoras na história. Nos EUA, em especial, a palavra palestino é associada ao terrorismo. Quero mostrar o contexto do que acontece. Poderia escrever sobre o lado de Israel, mas sobre isso é possível ler o tempo todo nos jornais.

Houve reações fortes a Notas Sobre Gaza em Israel?

Não repercutiu muito. Uma jornalista israelense escreveu um longo artigo sobre o livro e aquele período. Não soube de muitas reações. Um dos comandantes com quem falei disse à Associated Press: "Isso nunca aconteceu". Vi as notas da nossa conversa, e ele não tinha negado. Disse só que não tinha ouvido falar. O que é diferente.

Além de resgatar o passado, você relata fatos no presente, como as demolições de casas palestinas próximo à fronteira por forças israelenses...

Bem, não podia deixar de fora o que estava vendo porque, em última instância, eu estava lá e vi tudo. Alguém tinha que registrar aquilo de alguma maneira. As demolições agora também fazem parte da história.

Houve algum trecho específico da história que tenha sido mais difícil de retratar?

Perto do final, quando mostro as pessoas pegando os corpos depois dos massacres, as mulheres removendo os corpos. Foi muito difícil. Tive que fazer daquilo uma passagem curta porque me senti nauseado de desenhar tantos cadáveres, era uma coisa tão repulsiva...

Mas, mesmo com o traço tão realista, com imagens que chocam, você evitou uma certa morbidez que seria possível ao retratar os massacres.

Bem, não queria esfregar tudo na cara dos leitores. A coisa boa do desenho é que serve como filtro. Não sei quanto a você, mas se eu visse um filme com aquelas imagens... É de deixar doente. Mesmo fotografias, seria difícil ver um livro com fotografias de situações como aquelas. Com desenho, não se pode dizer que seja agradável, mas é possível olhar. Além disso, até onde sei, não há fotos daqueles massacres. Com o desenho, com acesso a fotografias de como eram as pessoas ou os campos de refugiados, você pode até certo ponto recriar isso.

Esse cenário conflituoso você já tinha retratado em Palestina. Como começou a se interessar por aquela região?

Quando estava no colégio, eu associava palestinos com terrorismo porque toda vez que ouvia falar neles tinha a ver com bombas ou ameaças. Então fui estudar jornalismo, e, quando comecei a entender o que acontecia no Oriente Médio, me dei conta: os americanos sempre se colocaram como os grandes expoentes do jornalismo, mas nunca me contaram direito o que está acontecendo. Eu me senti traído pela minha profissão. Então, nos anos 80, quis tirar essa história a limpo. Não estava certo do que veria, mas achei que podia retratar minhas experiências na Palestina.

E foi daí que veio a ideia de fazer jornalismo em quadrinhos?

Bem, Palestina foi o primeiro exemplo disso. Não estava pensando em criar uma nova... forma de arte ou seja o que for. Não foi uma decisão consciente, foi meio orgânico. Pensei: vou viver essas experiências, falar com as pessoas, anotar e colocar isso junto. É claro, eu tinha o background jornalístico e isso teve impacto no formato que a coisa tomou, mas só depois comecei a pensar mais claramente no que estava fazendo. Foi na história sobre a Bósnia (Gorazde) que comecei a pensar conscientemente em jornalismo em quadrinhos.

Antes disso, quais eram suas influências como quadrinista?

Provavelmente minha maior influência foi Robert Crumb. Meu desenho era meio parecido com o dele e, a certa altura, achei que devia desenhar de maneira mais realista. Não sei, nunca estudei arte, só tentei tornar mais realista. Meus desenhos sempre serão cartuns, porque foi como comecei. Não consigo desenhar melhor do que desenho e está bem assim, acho que está realista o suficiente.

Você teria interesse em criar uma história de ficção?

Sim, tenho grande interesse. Para ser honesto, estou meio cansado de fazer jornalismo. E passei sete anos fazendo esse livro. Há outras coisas que gostaria de experimentar. Algo mais satírico, engraçado, ou um ensaio, teologia, filosofia, não sei bem.

QUEM É

JOE SACCO

JORNALISTA E QUADRINISTA

Nascido em Malta (1960), vive nos EUA. Cartunista autodidata e jornalista por formação, iniciou carreira nas HQs com obras autobiográficas (reunidas em Derrotista) antes de se voltar ao jornalismo - vertente iniciada com Palestina, que lhe rendeu o American Book Award em 1996.

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