Histórias pouco conhecidas do fenômeno Pavarotti

Livro revela o tenor das multidões como uma pessoa mimada, ambiciosa, insegura, incapaz de aprender a música que cantava

João Luiz Sampaio, do Estadão,

06 de setembro de 2007 | 02h21

Um crianção mimado, preguiçoso, ambicioso, inseguro, incapaz de aprender a música que cantava e, ainda assim, o tenor das multidões, o homem que virou símbolo da ópera no século 20, uma das estrelas mais festejadas e bem pagas do show business mundial. Veja também:Morre Luciano Pavarotti, um dos mais importantes tenores da históriaPavarotti, cantor de voz belíssima, com dicção impecávelPavarotti esteve sete vezes no BrasilOs grandes papéis do tenor Luciano PavarottiPavarotti - Nessun Dorma  Os Três Tenores - Nessun Dorma James Brown & Pavarotti Luciano Pavarotti - Ave Maria - Schubert Queen + Luciano Pavarotti - Too Much Love Will Kill You  Luciano Pavarotti é um fenômeno: uma voz poderosa, instintiva, um homem repleto de contradições. O lançamento da biografia de seu empresário Herbert Breslin ajuda a explicar o mito Pavarotti. O livro de Breslin, The King and I (O Rei e Eu, lançamento somente em inglês pela editora Doubleday), mostra Pavarotti como uma pessoa mimada, ambiciosa, insegura, incapaz de aprender a música que cantava e, ainda assim, o tenor das multidões, o homem que virou símbolo da ópera no século 20, uma das estrelas mais festejadas e bem pagas do show business mundial. É uma biografia de sua relação com o tenor. Pavarotti foi seu primeiro trabalho como empresário - antes fazia as vezes de assessor de imprensa de estrelas como Renata Tebaldi e Joan Sutherland. Ele conta que sentiu no jovem tenor do interior da Itália os elementos que poderiam fazer dele a maior estrela do mundo da ópera. O livro nos leva pelos bastidores dos 40 anos da carreira do tenor.  São histórias de vaidades, de relacionamentos frustrados com secretárias, da avidez cada vez maior por dinheiro, da rivalidade com colegas. É também o conto de uma fila enorme de exageros: lá pelas tantas, a gente fica sabendo que todo um restaurante de Módena foi levado para a China (fogões, geladeiras, cozinheiros, ingredientes etc.) porque o tenor tinha medo de não encontrar nada que prestasse para comer em sua ida a Pequim...  Mas como, então, esse homem tornou-se o fenômeno de público e de vendas? Aí vale a pena ver e ouvir os DVDs lançados em uma caixa em edição nacional da Universal para perceber que nem tudo é marketing. O primeiro é um recital com piano em Nova York; o segundo, um concerto de gala pelos seus 30 anos de carreira; o terceiro, seu famoso concerto no Central Park em 1993.  Juntamente com a polêmica a respeito de seus casos com secretárias, a separação da mulher e o novo casamento com uma mulher 35 anos mais nova, ou sua famosa briga com o fisco italiano - na década de 90, ele devia algo em torno de US$ 10,5 milhões em impostos atrasados -, houve um momento em que bater na voz de Pavarotti tornou-se o esporte preferido de críticos mundo afora. É claro que ele ajudou. Cantou com U2, Mariah Carey, Tom Jones, Sheryl Crown, Ricky Martin, em concertos nos quais está claramente desconfortável. Mas, tudo no canto de Pavarotti é instintivo - e não dá para negar que, em muitos sentidos, a ópera seria outra sem essa voz.  IMPOSTOS: "Luciano me mandou ir a Washington para encontrar o presidente dos EUA. Eu deveria dizer a ele que seria correto liberar cantores de ópera do pagamento de impostos. "Ah, mesmo?", eu disse. "E por quê?" "Bem", explicou Luciano, "porque estamos fadados a uma carreira curta". A carreira de Luciano foi tão curta que ele esteve nos palcos por mais de 40 anos. Claro, ele poderia argumentar que não estava trabalhando tanto assim em parte desse tempo, talvez sua carreira tenha sido mais curta que a de outros. Mas isso com certeza não estava refletido nos seus ganhos."  CACHÊS: " A preocupação de Luciano com o soldi, dinheiro, passou a superar outras coisas, como aprender a música ou ensaiar seus papéis. O que acontece quando muito dinheiro entra na história é que você começa a acreditar que deve ser alguém realmente especial. Você começa a acreditar na sua própria publicidade. E, se você é tão bom, não precisa trabalhar duro. Foi isso que aconteceu com Luciano. Tudo o que ele queria, conseguia. E o desafio passou a ser descobrir quanto conseguiríamos." LETRAS: "Para Luciano, a parte mais difícil sobre ensaiar nada tinha a ver com entender as motivações do personagem. Ele não era um intelectual. Não era alguém que, ao preparar o Otello de Verdi, iria ler Shakespeare. Para Luciano, a pior parte era decorar as letras. Nunca entendi isso. Quantas vezes você pode cantar O Sole Mio e ainda precisar de alguém soprando a letra?" MULHERES: "Nunca encontrei uma mulher que se incomodasse com os avanços de Luciano. Para ser honesto, não estou convencido de que se tratava de sexo. Sei que ele queria mas é muito difícil dizer quanto ele realmente conseguia. Ele tinha suas namoradas, mas o que acontecia, eu não sei. Algumas mulheres contam que foram convidadas para jantares. Às vezes, ele tinha quatro ou cinco mulheres à sua volta, jantando, e depois ia para a cama sozinho. Apenas comida, nada de sexo. No universo de Luciano, são essas as prioridades".  TRÊS TENORES: "Os rumores eram de que a (gravadora) Decca pagou US$ 1 milhão para Luciano. Foi US$ 1,5 milhão. Não acredito que a Decca tenha dado isso a Plácido ou José. Mas eles devem ter dado algo a Plácido. Ele nunca ficaria quieto sabendo que Luciano estava recebendo algo por fora e ele não. Os concertos dos Três Tenores eram amigáveis na superfície, mas a atmosfera nos bastidores não era exatamente de confiança." POP: "O problema com os concertos Pavarotti & Friends é que Luciano não é um cantor pop, não sabe como cantar essa música. E, ao lado daquelas estrelas do rock, murmurando canções, checando as letras de cinco em cinco segundos, ele parece um palhaço."

Tudo o que sabemos sobre:
Pavarottitenor italiano

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.