Histórias hilárias de Jorge Luis Borges

Livro lançado na Argentina relata situações pitorescas vividas pelo autor

Ariel Palacios, O Estado de S.Paulo

16 de janeiro de 2011 | 00h00

O escritor argentino Jorge Luis Borges poderia ter morrido atropelado em uma rua londrina por uma brincadeira do colega cubano Guillermo Cabrera Infante nos anos 70. Certa noite, os dois caminhavam na direção da Praça Berkeley quando Infante, suspeitando que o colega não era um cego verdadeiro, mas apenas um farsante para "emular Milton e Homero", decidiu deixar Borges sozinho no meio de uma rua com intenso tráfego de automóveis. Os táxis e carros esquivavam o autor de O Aleph, enquanto ele, sozinho, continuava lentamente atravessando a rua. "Borges estava impassível, talvez devido à sua condição de discípulo do (bispo e filósofo George) Berkeley. Isto é, já que ele não via os carros, estes não existiam. Corri para resgatar Borges e o levei a um lugar seguro", explicou posteriormente Cabrera Infante.

Este caso com outros 332 foram recopilados pelo escritor e jornalista argentino Mario Paoletti em O Outro Borges - Anedotário Completo, recém-lançado em Buenos Aires pela editora Emecé. A maior parte dos "causos" mostra as irônicas opiniões - e atitudes - de Borges sobre religião, literatura, política e religião, entre vários outros assuntos. Segundo Paoletti, nenhum outro escritor no mundo hispano-americano gerou tantas histórias como Borges. "Não é impossível que isto se transforme em um subgênero literário", comenta.

CAUSOS

Blefe

No livro, Paoletti conta duas cenas presenciadas pelo escritor Blas Matamoros nos EUA com Borges. Na primeira, alguém disse ao argentino: "Borges, o senhor é um blefe". Ele respondeu: "Sim, mas leve em conta que é involuntário...". Na outra, um estudante contestador grita ao escritor: "Você está morto!". Borges retrucou: "É verdade, só existe um erro nas datas".

Lugar errado

Adolfo Bioy Casares, sua mulher Silvina Ocampo e Borges vão a um velório. Mas, não encontram a casa. Nem se lembram do nome do morto. Em outro dia, o trio vai a um lugar onde Borges terá de proferir uma palestra. Mas entram, por engano, na casa errada, onde é celebrado um casamento. Cumprimentam todas as pessoas e só percebem que a conferência não é ali quando os noivos aparecem.

Gastronomia

Paoletti relata que, em uma entrevista em Roma, um jornalista europeu tentava colocar Borges em uma situação constrangedora. Mas, como não conseguia, recorreu a uma pergunta que considerou ser muito provocante: "Em seu país ainda existem canibais?". Borges, imediatamente, respondeu: "Já não existem mais. Devoramos todos eles".

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