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Histórias e crianças

Livros, desenhos, HQs, animações e museus: tudo é material para a expansão da imaginação

Leandro Karnal, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2017 | 03h00

Meu sobrinho e afilhado Davi fará 7 anos no fim do ano. Já lê com habilidade, tem uma energia que esmorece o reator atômico mais potente, adora jogos no seu tablet e, acima de tudo, adora ouvir histórias. Quando estamos juntos, conto algumas passagens históricas e épicas adaptadas para a infância. No Dia das Mães, contei-lhe a lenda do Mapinguari, o ser comedor de gente da Amazônia. Por conta de minha narrativa e encenação teatral do monstro, meu irmão reclama que o pequeno perde o sono à noite. 

Na praia, no início do ano, narrei com liberdade poética a Odisseia de Homero, pulando algumas partes e me concentrando em Circe, Polifemo e nas sereias. Na minha fantasia, tendo ouvido esses nomes de forma lúdica, ele será atraído para narrativas mais complexas. Mais tarde, contarei a Telemaquia, os cantos iniciais da obra, com mais fidedignidade. Por fim, suponho, ele terá o prazer de se perder nos versos originais e ler, com prazer, os derivados de Homero, como o Ulisses de James Joyce. São fantasias de tio-professor. Será que a geração dele, nascida em 2010, lerá poesia épica? Quando Davi atingir minha idade atual, estaremos em 2064. Eu já estarei em alguma Ítaca da memória e ele terá diante de si um mundo sobre o qual não ouso sequer imaginar. 

O futuro é sempre incerto. Já falei para plateias que aprendi muitas coisas que ficaram defasadas. Sou bom com mimeógrafos e uso com habilidade um retroprojetor com lâminas de acetato. São duas habilidades tão úteis quanto seria hoje cardar a lã de uma ovelha em São Paulo. Porém, os eixos estruturados da minha formação, especialmente leitura, permanecem presentes nas adaptações que a vida e o progresso técnico me impuseram. Tudo o que li e aprendi formou uma rede que permite, ainda hoje, pescar novos conceitos e associá-los a ideias. As histórias que ouvi de meu pai, dos meus professores na escola ou que li de forma autônoma são parte estruturada e estruturante da minha cabeça. Minha imaginação existe graças a elas. 

O futuro é sempre incerto, eu já disse. Mas o preparo dado pela sólida imaginação infantil dará gramática para a busca de novas palavras. Quando digo gramática não é apenas a dicionaresca, todavia a capacidade de abstrair, pensar, voar, sair do comum e ampliar. Narrar histórias para criança permite que ela saia do mundo imediato, erga ao infinito sua potência de voo e chegue muito além do que seus limitados pés podem levar. 

O primeiro desafio é narrar histórias adequadas à faixa etária. Nisso, crianças e jovens serão o melhor júri: os olhos brilham com algo interessante e fogem do foco quando a narrativa está fraca. Seus ouvintes são os mais aptos juízes. Olhe para eles. 

Ajuda envolvê-los na escolha da história. Algumas livrarias contam com um setor de obras infantis e juvenis. Bibliotecas públicas maiores apresentam uma área especial. Na ausência do livro, há boas histórias na internet, com imagens. Na falta de tudo, aumenta nosso compromisso com a narração e o improviso. 

Não é possível ser artificial com crianças. Se ler não representa algo para você, ela notará rapidamente. O resultado será desastroso. Funciona como comida: se o brigadeiro é o prêmio para comer quiabo, é lógico supor que o vegetal não é tão bom, já que ele é o pedágio para a felicidade. Por absoluta lógica cartesiana, a criança vai preferir o brigadeiro. Funciona assim com livros. O livro deve ser o brigadeiro e não o legume necessário como multa.

Narrar uma história para uma criança é colocar uma marca indelével na sua formação. Creia-me: ela pode esquecer os nomes, no entanto a experiência será eterna. Para sempre, estarão no fundo da mente, dialogando com outras histórias.

Amo livros, entretanto também vejo valor em ver uma animação com uma criança e fazê-la pensar. Temos enorme variedade para escolher. Só para dar um exemplo, Divertida Mente (Pete Docter, 2015) possibilita um exercício fantástico para consciência de si e sobre como lidar com sentimentos de raiva ou tristeza. Livros, desenhos, histórias em quadrinhos, animações e quadros de museus: tudo é material para a expansão da imaginação. Histórias tristes, divertidas, românticas, de terror, mitológicas e outras: a vida é complexa e as histórias ajudam a lidar com ela. 

O que pode estragar o projeto é a ansiedade dos adultos em formar pequenos gênios. Isso diz respeito mais à vaidade dos grandes do que ao anseio dos pequenos. As narrativas não podem ser formais ou em estilo aula. Cada um tem seu ritmo. Inteligência não vem acoplada com o conceito de rapidez. 

Outra questão importante: ler histórias e acompanhar narrativas podem estimular a formação de foco. Todo o mundo contemporâneo e seu dinamismo são dispersivos. Estou convencido de que existe o Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) e que, em alguns casos, implica acompanhamento médico e uso de fármacos. Porém, estou ainda mais convencido de que muitos diagnósticos que nós, leigos, suspeitamos que sejam TDAH, são apenas energia de uma criança viva, cheia de saúde e pouco estimulada a se fixar em coisas interessantes. Talvez falte a ela mais livros e menos remédios. 

Todos nós podemos ler para crianças. Faça parte desse desafio e conte uma história todos os dias para seu filho. Bom domingo a todos vocês!

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