Fred Cabral/ Divulgaçao
Fred Cabral/ Divulgaçao

Histórias de um país e o apego ao ato de narrar

Escrito em um brilhante pastiche do português arcaico, romance de Samir Machado de Machado remonta ao século 18

André de Leones - Espacial para O Estado de S. Paulo,

13 de janeiro de 2014 | 16h21

Com as graças de São Sepé Tiaraju, dispomos agora do romance Quatro Soldados, de Samir Machado de Machado. Também autor da novela O Professor de Botânica, lançada em 2008, ele investe dessa vez numa viagem de ecos pynchonianos (e logo tal palavrão será explicado) à região sul do nosso continente, em meados do século 18, mais precisamente nos anos posteriores à assinatura do Tratado de Madri (1750) por Portugal e Espanha.

Não cabe explicar, aqui, todo o contexto histórico relativo ao tratado, pois carecemos de espaço e sempre há o Google para os preguiçosos e as bibliotecas para os destemidos. Basta dizer que as querelas envolviam as nações citadas, questões fronteiriças, jesuítas e índios, e que uma das decorrências imediatas da assinatura foi a Guerra Guaranítica (1750-1756). Em seu romance, aliás, Machado alude a um episódio particularmente sangrento dessa guerra, a Batalha de Caiboaté, na qual cerca de mil e quinhentos índios guaranis foram massacrados, incluindo o líder Sepé Tiaraju, por espanhóis e portugueses. Como se vê, embora o livro adote um tom muitas vezes trocista, é impossível contornar a barbárie e o genocídio, sobre os quais foi erguida a nossa bela e aprazível nação.

Quatro Soldados é dividido em quatro partes e escrito em um brilhante pastiche do português arcaico. Os personagens-título circulam por uma região compreendida entre Laguna, hoje município de Santa Catarina, e a Colônia do Sacramento, que integra o Uruguai. Eles são um jovem alferes chamado Licurgo, um oficial de origem nobre que, com certa dificuldade , atende por Antônio Coluna, um desertor, contrabandista de livros e segurança de bordel apelidado de Andaluz e uma figura misteriosa, empenhada em missões escusas e sobre a qual não convém discorrer muito. Eles se cruzam em narrativas de caráter aventureiro, às vezes fantasioso e, na última parte, policialesco, interligadas pelos desatinos do acaso ou, talvez fosse melhor dizer, por um narrador fanfarrão, nada confiável, cuja identidade não é difícil apontar tão logo ele irrompe história(s) adentro.

Quanto ao palavrão utilizado no início da resenha, é bom explicar que uma das inúmeras inspirações do autor é Thomas Pynchon, romancista americano que, em 1997, lançou Mason & Dixon, aventura setecentista, baseada em personagens reais, repleta de lances fantasiosos e escrita em inglês castiço. Várias das elucubrações pynchonianas, sobretudo sobre os “perigos” que a ficção representa para a ordem vigente (conforme diz a certa altura o narrador de Quatro Soldados, não é por acaso que se queimam mais livros do que pessoas), ecoam no livro de Machado. E, sobre isso, sugerimos uma leitura ou releitura do 35º capítulo de Mason & Dixon.

É bom que se diga, contudo, que Machado vai além da mera citação e faz de seu romance uma criatura capaz de se sustentar sobre as quatro patas. Ele concebe um mundo dos mais instigantes, cheio de labirintos, cavernas, abismos e bestas mitológicas e humanas. Mais importante é seu apego resoluto ao próprio ato de narrar, pois o “mundo muda quando mudamos o modo como lo vemos”. E, a nos fiarmos nas fronteiras maravilhosamente movediças da literatura, sempre “há um Novo Mundo nascendo”.

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DO ROMANCE TERRA DE CASAS VAZIAS (ROCCO), ENTRE OUTROS

Serviço:

QUATRO SOLDADOS

Autor: Samir Machado de Machado

Editora:Não Editora (320 págs.,R$ 37,90) 

Trecho de Quatro Soldados

— (...) Mas, de qualquer modo, voltando ao Voltaire, este homem, o Micrômegas, não nasceu na Terra, e sim no planeta Sirius, e vem ao nosso mundo acompanhado de um amigo de Saturno para conhecer nossos costumes e...

— Como se pode levar a sério tal cousa?

— Ora, tanto me dá, que são só firulas para divertir. O que importa é tentar ver nossos costumes do ponto de vista de outrem, como nós vemos aos estrangeiros. Um estrangeiro que fosse de outro mundo veria a todas as nações como donas e prisioneiras dos mesmos hábitos viciados, e nisso está o mérito de uma história assim (...).

Licurgo encolheu-se nos ombros.

— Já me disseram para esgotar os clássicos antes de partir a ler os novos — lembrou o garoto. — Afinal, não há tempo para se ler tudo... ainda mais que os tais romances não distinguem os fatos da ficção, não é o que dizem? Inventando geografias falsas e seres que não existem?

— Ah, agora tudo se explica! Quem te meteu um dislate desses na cabeça!? — o Andaluz exaltou-se, erguendo os braços dum modo intimidante, particularmente todo seu, de tenor de ópera. — Se queres conhecer o passado, busca os clássicos, se queres prever o futuro, vá a um astrólogo... mas para interpretar os dias em que vivemos, só vais encontrar as respostas lendo a ficção do nosso tempo. E algumas das mais fabulosas e distantes histórias do que se considera a Verdade e a Realidade são, por consequência, as que mais próximas chegam da essência das cousas. Todo homem anseia por ver cousas impossíveis, inimagináveis, não apenas para divertir e entreter seus sentidos, mas para ser deslumbrado ao confrontar o que antes julgava inconcebível.

— Mas ainda assim é uma mentira. Como pode a Verdade nascer de uma mentira?

— Decerto que conheces o Tratado de Tordesilhas? Teu rei assinou com o rei de Espanha um documento, dividindo a América entre os dous. Consegues ver Laguna daqui? — apontou para trás, para a vila, já distante deles mas ainda visível no horizonte. — Laguna era o limite do tratado. Por um acaso vês alguma linha traçada na terra ou no céu, a dividir o mundo em dous? Por um acaso algo muda no ar, nas árvores ou nos rios, ao serem separados entre dous reinos? O que é um mapa, senão uma mentira na qual todos consentem em acreditar? (...)

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