Histórias de um Brasil francês conquistam Paris

A história da França Antártica ou da frustrada tentativa de colonização do Brasil pelos franceses na segunda metade do século 16 inspirou o que os mais exigentes críticos parisienses estão considerando como a obra-prima do romance francês da rentrée literária de 2001/2002. Tanto que foi contemplada recentemente com o Prêmio Literário Goncourt, a principal distinção literária da França.O segredo ou "achado" do autor Jean-Chistophe Rufin em Vermelho Brasil, para seduzir o leitor e conferir à temática renovado sabor, foi o de centrar a narrativa - servida por riquíssima documentação e um estilo primoroso - nas experiências, emoções, encantos, desencantos e destinos de dois adolescentes, Colombe e Just.Estes, com 13 e 15 anos de idade, foram seqüestrados e incorporados à expedição colonizadora chefiada por Nicolas de Villegagnon, para servirem dali a pouco de intérpretes junto aos índios, conforme o preconceito dominante entre viajantes e exploradores de que espíritos jovens assimilavam as línguas estrangeiras mais rapidamente.Villegagnon instalou-se numa pequena ilha da baia de Guanabara apenas para ver sua missão civilizadora do Novo Mundo se transformar, nos seus 5 anos de duração (1555-1560), em drámatico e absurdo confronto entre católicos e protestantes membros da expedição, por causa de uma controvérsia teólogica a propósito da eucaristia.Nem a rumorosa e invasora alegria dos índios, com suas danças, plumas coloridas, tamborins e maracas, conseguiu aplacar o fanatismo das duas partes. Nisso, o cenário tido como "divino" da baía, acabou sendo conspurcado e blasfemado ao se converter numa espécie de "laboratório experimental" das guerras religiosas que iriam explodir na França 10 anos depois.Em meio a toda uma composição de perfis fascinantes, como o de Villegagnon, esplêndidas descrições de paisagens, de usos e costumes, do encontro enfim de civilizações a despeito da querela religiosa, Rufin situa a evolução de Just e Colombe naquela aventura fracassada de conquista.Just se manteve ao lado de Villegagnon até o fim, até o desmoronamento do sonho antártico. Já a doce Colombe, descobrindo na taba dos tupis o sentido da liberdade, liberdade da mulher sobretudo, se oferta ao mundo dos "selvagens", nele se funde em busca da "pureza primitiva", no desejo inaudito de concórdia e amor.Igualmente médico, pioneiro das causas humanitárias como um dos fundadores da organização Médicos Sem Fronteira, o romancista e humanista Jean- Christophe Rufin soube magnificar em Vermelho Brasil o destino encarnado por Colombe como símbolo das "Luzes" que iriam fecundar o diálogo permanente entre as culturas francesa e brasileira.De resto, conforme a observação do autor em entrevista à Agência Estado o fanatismo religioso que se apoderou de católicos e protestantes na pequena ilha de Villegagnon no século 16, basicamente não se diferencia do que subverte nos dias atuais a prática do Islã. "Ainda que o catolicismo e o protestantismo tenham assumido hoje formas mais moderadas, o certo é que as religiões monoteístas em geral comportam um núcleo potencial de totalitárismo que pode levar ao fanatismo."Rufin é também autor de um dos mais discutidos ensaios sobre as questões do desenvolvimento publicados na Europa no início dos anos 90. Trata-se de O Império e os Novos Bárbaros (traduzido no Brasil) em que ele sustentava que um "fosso" equivalendo ao muro de Berlim derrubado com o fim da guerra fria no final de 89, iria ocupar, dali em diante, o espectro da geopolítica mundial - "o fosso entre o Norte e o Sul".O que o levou a escrever "Vermelho Brasil"?Jean-Chistophe Rufin - Era um velho projeto que passei a alimentar desde quando vivi no Brasil (em Recife) no final dos anos 80. Inicialmente pensei em escrever sobre a França Equinocial do Maranhão, já que eu morava no Nordeste. Deixei a coisa decantar e terminei optando pela aventura da França Antártica. Grosso modo, o que me seduzia na temática era a suspeita de que a história portuguesa e a história não-portuguesa do Brasil nunca abarcaram e resumiram a totalidade dos elementos que entram na composição da identidade brasileira. Tem-se a impressão de que existem aspectos, presenças e influências que foram limados, eliminados, mas dos quais ficou alguma coisa nos vestígios de fortes e de outras edificações sobretudo no Nordeste. O outro fator de sedução da temática era póetico. A cada vez que me encontrava no Rio, cidade que me inspira sentimentos misturados de deslumbramento, medo e repulsão, tentatava imaginar o que teria sido a Baía de Guanabara, Copacabana no começo do Brasil, quando ali ainda não havia nada a não ser a beleza esfuziante da paisagem. Nessas buscas imaginárias, acabei reencontrando uma história esquecida que se desenrolou naquele cenário grandioso, história mais esquecida pela França do que pelo Brasil, hoje - a história de Villegagnon e de sua expedição colonizadora.A expedição é descrita pelo Sr. com base na experiência de dois adolescentes, Colombe e Just. Como explica a escolha desses personagens?Para escrever um romance, preciso encontrar uma porta de entrada para me enfiar de cabeça dentro da narrativa, onde passo a viver eu diria quase literalmente. No caso de Vermelho Brasil, eu não me via escrevendo um livro do ponto de vista de Villegagnon, com o qual não me identificava, mesmo se ele me interessava. Não podia ocupar o lugar dos índios, a diferença era demasiada entre nós. Finalmente, lendo Jean de Léry (História de uma Viagem em Terras do Brasil) cai em cima da passagem sobre aquelas crianças que, na França, eram recrutradas nos orfanatos para servirem de intérpretes junto aos índios, pois aprendiam depressa as línguas estrangeiras. Descobri então nos personagens de Colombe e Just a porta para penetrar e me instalar na trama romanesca. Eles iriam testemunhar o nascimento da sociedade brasileira, simbolizar o diálogo da parte européia com a parte indígena. De resto, senti-me de cara muito próximo de ambos, já que conheci meus pais somente aos 18 anos. Fui criado pelos meus avós.Por que a aventura colonizadora da França fracassou no Brasil?A experiência francesa foi muito particular porque não se tratava de uma colonização econômica nem religiosa. Afinal, a expedição de Villegagnon se operou sob a forma da Arca de Noé: em tres bojudas embarcações foram acumulados porcos, vacas leiteiras, cavaleiros da Ordem de Malta, galinhas, ferreiros, padeiros, vinhateiros, bandidos recuperados nas prisões e outros tantos tipos que a civilização inventou. Em suma, uma miniatura da França, com os elementos básicos de sua geografia humana, foi transportada para a Baía de Guanabara, juntamente e sobretudo com aquelas fraturas expostas da sociedade francesa, a começar pela fratura religiosa, representada pelos conflitos entre católicos e protestantes. Desse modo, não se assistiu propriamente a um fracasso da missão colonizadora - que não teve problemas com os índios nem enfrentou diretamente os portugueses - mas a algo mais central, ou seja, a implosão no Brasil da crise da sociedade européia do século 16, o que terminou por inviabilizar a missão de Vilegagnon.As disputas no Brasil entre católicos e protestantes da expedição de Villegagnon foram então o prelúdio das guerras religiosas que iriam explodir na França 10 anos mais tarde?Foram, sim, o prelúdio. Aliás, vários dos protagonistas das disputas no Brasil iriam se transformar depois em atores importantes das guerras de religiões e assistir mesmo em Sancerre, em plena França, à reprodução das cenas de canibalismo que haviam testemunhado entre os índios brasileiros e que constituíam um dos álibis avançados pelos europeus para justificarem sua missão civilizadora no "Novo Mundo".Voltando à questão, o fermento das disputas religosas do "Velho Mundo" encontraram no cenário grandioso da baia de Guanabara um espécie de laboratório. Ali, se desenvolveriam, em modelo reduzido, os mecanismos da intolerância e do fanatismo em face da controvérsia sobre a presença real do Cristo na hóstia. Por causa disso, católicos e protestantes se engalfinharam, quase se entredevoraram sob as vistas de uma nova civilização, a indígena, que serviu de involuntário e irônico contraponto àquela questão teológica ao mesmo tempo fundamental e absurda e da qual os "selvagens" se achavam tão distantes...É lamentável que a expedição de Villegagnon, na esteira do movimento generoso de idéias próprio do século 16, sobre a tolerância, o progresso, o humanismo nascente e precursor da "Filosofia das Luzes", tenha se extraviado num panorama físico divino e se convertido na prefiguração das guerras religiosas.Qual foi o erro maior de Villegagnon na condução desse projeto de conquista?O erro maior foi o de condicionar ao casamento religioso a aceitação da união dos franceses com as índias, o que não havia acontecido na experiência de colonização do Canadá, onde os franceses se relacionavam livremente com as nativas. Com isto, Villegagnon não procurava propriamente facilitar asoperações de conversão dos indígenas - se bem que suas diretivas acabam ensejando tal resultado - mas sim estabelecer uma certa moral na sua "ilha" de Guanabara. Ora, ao explodir a querela teológica em torno da eucaristia, tudo parou nas igrejas, os casamentos não foram mais celebrados, a integração dos índios parou nessa ausência de magistério e a colônia francesa se atrofiou, não pôde mais funcionar. Virou pura e simplesmente uma espécie de sucursal dos conflitos religiosos da Europa, sem a menor relação com o Brasil.De humanista, Villegagnon tornou-se uma inquisidor cruel e um dom Quixote por antecipação. Como analisa essa metamorfose?Villegagnon era uma figura singular, que encarnava a ruptura do século 16 com sua cultura, espírito de abertura, humanismo, conhecimento de idiomas e que guardava, ao mesmo tempo, um vínculo com a Idade Média. Ele atravessou a primeira metade do século marcando a presença em todos os grandes eventos da época com uma coragem estupenda e praticando às vezes bravadas no estilo de um Artagnan ou de um dom Quixote antecipados. No final da vida, tornou-se um combatente católico feroz nas guerras religiosas, foi denunciado como "traidor" pelos protestantes depois de haver sido tolerante com a reforma.Como explica o fato de o interesse notável dos grandes humanistas como Montaigne não haver suscitado maior repercussão na Corte francesa?É preciso ver que os ensaios de Montaigne não tiveram efeito imediato em qualquer domínio da vida francesa da época. A importância deles só se faria sentir a partir do século 17, 18. Isto se explica pelo fato de que a França atravessou longo período de instabilidade, houve as guerras religiosas, osassassinatos do Conde de Guise e de Henrique III, a tomada muito problemática do poder por Henrique IV, que seria morto em seguida. Com graves politicos internos, a França não estava em condições de se interessar realmente pela obra dos humanistas, da mesma maneira como abandonaria suas veleidades colonizadoras da Flórida e do Brasil.No romance o Sr. estabelece o contraste entre o índio que sabe rir, se divertir e guarda intacta essa faculdade ao longo da narrativa e o europeu que, após uns instante de conivência com a caçoada "selvagem", se crispa, se torna lúgubre e mesmo criminoso. Foi essa mesma a realidade?Não. O contraste foi exagerado pela liberdade romanesca. Mas o certo é que, para um certo número de franceses, sobretudo do lado dos protestantes, o ambiente se tornou lúgubre, grave, dramático com a eclosão da controvérsia teológica. Acontecia, entretanto, que nem todos os membros da expedição pertenciam às duas igrejas em conflito. Existiam os negociantes, antigos náufragos, viajantes, exploradores diversos que freqüentavam as costas brasileiras há décadas e viviam como os índios. Comiam, bebiam, dançavam como eles, se pintavam com carvão e urucum, ostentavam majestosos cocares com plumas de pássaros etc. Sem dúvida, os índios brasileiros eram vocacionados para o prazer como o evidenciavam suas festas, músicas, formas de expressão física nas danças e rituais, porém uma questão se coloca: eram eles integrantes de uma sociedade realmente livre? Não creio muito, visto que a sociedade indígena era submetida a regras muito estritas por causa da onipresença do sagrado, do papel importante do pajé, chefe religioso em comunhão com os espíritos. Havia também, portanto tensões, constrangimentos, entraves na sociedade índigena.O Sr. não exprimiria com esse livro um lamento pelo fato de o Brasil não ter virado francês?Não, nenhum lamento, nem nostalgia. Não me veio ao espírito a idéia de um brado forte "Viva o Brasil francês!". O que me tocou na história foi a constatação de que, independentemente da experiência de Villegagnon, já existia uma forte presença dos franceses no meio dos índios, com os quais eles mantinham intensas relações comerciais. A baía do Rio esteve praticamente sob o controle dos franceses durante quase um século. E o fato de ser Portugal a potência dominante não abafou, esvaziou a influência cultural francesa. É por isso que o livro termina com a cena desconcertante da tomada do forte pelos portugueses. Na ocasião, houve os tiros de canhão, sim, mas houve sobretudo o toque dos tamborins e maracas pelos nativos. Mem de Sá verifica então haver apenas capturado um forte, mas que o resto lhe escapava, não lhe pertencia. Era um Brasil que nascia ali sem dono nem etiquetas. Um Brasil que não era português, não era francês e que iria construir uma identidade própria a partir da herança indígena e antropofágica polimorfa, que o leva até hoje a dar uma expressão original a tudo quanto digere. A obra de Mário de Andrade é bem uma ilustração dessa criatividade brasileira sem fronteiras, globalizada, conforme o ensinamento de Montaigne, que já dizia naquela epoca "um homem honesto é um homem misturado".

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