Histórias de ternuna e de mortos-vivos

Filmes como o da argentina Paula Hernández e do cubano Alejandro Brugués propõem contrastes

LUIZ ZANIN ORICCHIO, FORTALEZA, O Estado de S.Paulo

07 de junho de 2012 | 04h24

Um suave triângulo amoroso, que se desenvolve ao longo dos anos, é o tema de Um Amor, da diretora argentina Paula Hernández. Filme calmo, de muitos diálogos e, digamos, pouca ação, foi bem recebido, e de maneira serena, pelo público do Theatro José de Alencar, o espaço histórico onde estão sendo realizadas as sessões do 22.º Cine Ceará.

Essa serenidade vem do filme, da maneira como Paula trata seus personagens. Lalo e Bruno são dois amigos adolescentes e inseparáveis. Vivem no interior da Argentina. A vida dos dois é posta de cabeça para baixo com a chegada da intempestiva Lisa, menina de temperamento forte e que logo se envolve com os rapazes. Mandona e sexy, a garota se impõe aos dois meninos e claro que os dois caem por ela.

A história se desenvolve em dois tempos. Nos anos 70, na adolescência dos personagens, e 30 anos depois, com o reencontro do trio, já maduro. Cada qual colecionou uma história particular, feita de sucessos e fracassos. Houve toda uma turbulência política no meio, mas esta é apenas aludida, de passagem. As tempestades de Um Amor restringem-se à esfera íntima.

É verdade também que são tormentas amenas, controladas, com um senso de medida muito grande. Quem pensa nas grandes referências de triângulos amorosos, em especial no clássico Jules e Jim, de François Truffaut, pode ficar decepcionado com este. E até chamá-lo de careta, como andou acontecendo por aqui. O filme não deixa, no entanto, de registrar a diferença entre a nossa época e os anos 60, quando Truffaut adaptou o romance de Henri-Pierre Rocher. Dito isso, deve-se reconhecer que Um Amor é um bonito trabalho. Paula Hernández já concorreu com outro filme, Lluvia (Chuva) no Festival de Gramado, anos atrás. Tem o mesmo tom algo melancólico de Um Amor. Pode ser um traço autoral.

Muito mais energético, e descabelado, é Juan de los Muertos, trash cubano que passou fora de competição, numa sessão tardia muito movimentada. Os jovens da plateia foram ao delírio com essa história de mortos-vivos ambientada em Havana. Em entrevista, o diretor Alejandro Brugués esclareceu que o filme era uma coprodução com a Espanha e feito fora do âmbito do Icaic, o instituto do cinema cubano.

De fato, dificilmente se pode imaginar um órgão burocrático de um país como Cuba envolvido nessa produção sobre a doença que transforma quase toda a população de Havana em zumbis. Juan (Alexis Días de Villegas) e seus amigos se oferecem para matar os seres infectados e assim livrar as famílias de suas incômodas presenças. Enquanto isso, as rádios oficiais continuam a dizer que se trata de uma invasão de dissidentes a soldo do imperialismo.

De tão óbvias, as alusões políticas são gritantes, embora o diretor e o ator Jorge Molina, presentes em Fortaleza, se limitem a dizer que brincam com o cinema de gênero.

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