Histórias de família. De sangue e do afeto que se escolhe

Crítica: Luiz Carlos Merten

O Estado de S.Paulo

25 Fevereiro 2013 | 02h07

Você já deve ter lido ou ouvido que o novo filme de Stephen Frears é um dos mais inconsistentes da carreira do diretor inglês de A Rainha e outros sucessos. Desconfie da afirmação - O Dobro ou Nada é bom, embora, talvez, não seja realmente o melhor Fears, e de cara tem um atrativo muito especial. É o filme de Bruce Willis em que ele está menos parecido consigo mesmo. Ponto para o diretor. Willis é cool, cria um tipo de herói autoirônico que não se leva muito a sério, mas, na maioria das vezes, sua persona é tão forte que Willis é simplesmente... Bruce Willis. A questão é que ninguém faz esse papel melhor que ele.

Veja-se o caso de Duro de Matar - Um Bom Dia para Morrer. O quinto filme da série é assinado por um diretor, John Moore, que já conseguiu estragar dois filmes cultuados, com os remakes sensaborosos de A Profecia, de Richard Donner, e O Voo do Phoenix, de Robert Aldrich. Podia-se esperar o pior, mas a verdade é que dá para assistir a Duro de Matar 5. O policial John McClane vai para a Rússia, ao descobrir que o filho está preso em Moscou. Na verdade, o rapaz é agente da CIA e participa de uma operação para resgatar um opositor do regime. Só que nada é o que parece ser e a franquia, de repente, leva McClane e o rebento - interpretado pelo vilão de Jack Reacher, Jai Courtney - para Chernobyl.

A Federação Russa virou o ninho dos piores vilões de Hollywood - ou serão os melhores? Cruéis, sem o menor respeito pelo ser humano e, aqui, gananciosos a ponto de negociar com urânio comprometido da usina que explodiu há 30 anos. Duro de Matar 5 é sobre família - o reencontro entre pai e filho -, com muitos tiros, explosões e pancadaria, mais tantas reviravoltas da narrativa que o espectador pode pensar que está numa montanha-russa. E, ah, sim, tem a família do vilão - com a filha Soninha. Afaste-se dessa gente. Embutido na história talvez esteja o conceito de que todo esse povo do mal foi parido no ventre do velho comunismo. Vade retro.

O Dobro ou Nada também é sobre família, mas não a de sangue. A família que a gente escolhe, baseada na amizade. Rebecca Hall vai para Las Vegas para realizar o sonho de servir drinques. Termina empregada na empresa de apostas de Bruce Willis, que tem uma mulher ciumenta (Catherine Zeta-Jones) e dois funcionários zelosos. Rebecca, além de um cachorro, tem um namorado jornalista a quem, lá pelas tantas, pode ter envolvido numa investigação federal sobre jogos de azar. A família adotiva entra em campo para salvar a situação. Bruce Willis, menos Bruce Willis que nunca, dá o suporte, mas quem resolve a parada é mesmo Rebecca Hall. A atriz de Vicky Cristina Barcelona, de Woody Allen, está cada vez melhor. É sexy, chorona, mas, quando sorri, a tela se ilumina. O padrão Stephen Frears de qualidade é mantido e o filme comporta observações saborosas.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.