HISTÓRIAS DE CASAIS EM CRISE

Nos contos de Pulso, o inglês Julian Barnes explora com verve os tormentos do amor

ANDRÉ DE LEONES É AUTOR DOS ROMANCE DENTES NEGROS (ROCCO), TERRA DE CASAS VAZIAS (MESMA EDITORA, NO PRELO), DENTRE OUTROS, O Estado de S.Paulo

23 Fevereiro 2013 | 02h10

ANDRÉ DE LEONES

Pulso é a terceira coletânea de contos de Julian Barnes, precedida por Do Outro Lado da Mancha e Um Toque de Limão. O autor britânico é célebre por romances como O Papagaio de Flaubert, Em Tom de Conversa e O Sentido de Um Fim, ganhador do Man Booker Prize 2011, mas também encontramos em suas histórias curtas o humor angustiado e a inteligência das narrativas extensas.

O livro traz 14 contos e é dividido em duas partes. Se há algo que os une é o fato de que a maioria das histórias trata de casais. Logo na primeira, O Vento Leste, um corretor de imóveis divorciado se envolve com uma garçonete, imigrante alemã. A curiosidade pela figura misteriosa da mulher leva-o a invadir sua privacidade. Mais do que o choque cultural, está em jogo a eterna contradição entre o que queremos e o que o outro está disposto a nos dar.

Uma troca mais honesta, embora não isenta de ruídos, é observada em O Jardim Inglês, em que lemos de saída: "Depois de oito anos de casamento, eles começaram a se dar presentes úteis, que confirmavam mais o projeto de vida comum do casal do que seus sentimentos". O conto se debruça sobre um "projeto comum" deles, o tal jardim que, por assim dizer, testará o pH de sua união. Há que se estar atento ao "grau de acidez ou alcalinidade" do casamento, e Barnes escapa ao óbvio (um casal cultivando um jardim) por meio de uma suspensão que chega ao ápice no desfecho: "Ele ficou parado na janela, sem saber se voltava para cama, ou descia e começava, lentamente, um outro dia".

Os elementos de que se vale o autor são, em geral, os mais simples. Ele apresenta cenário e personagens, e as situações se desenvolvem com naturalidade. Há, por exemplo, uma série de quatro contos, Na Casa de Phil e Joanna, todos passados à mesa de jantar e ancorados em diálogos erráticos sobre os mais diversos temas: Barack Obama, aquecimento global, terrorismo, uma "teoria da britanicidade da geleia de laranja" e, claro, sexo. São conversas que resultariam pueris acaso não dissessem tanto sobre o paradoxo de um mundo que, quanto mais conectado, mais parece se desagregar.

A segunda parte do livro é composta por cinco narrativas. Barnes aprofunda o que foi apresentado antes com um tom eventualmente mais grave. O desencanto que experimentamos n'O Vento Leste reverbera de forma mais seca em Cumplicidade, onde outro divorciado reclama que os nossos pais "nunca nos preveniram contra a dor de um coração partido". Ele diz: "Se você machuca o dedo menos importante, o resto da mão é afetado. Mesmo os gestos mais simples - colocar as meias, abotoar a camisa, trocar de marcha - se tornam tensos e constrangedores". Em seguida, arremata: "Imagine, então, tentar fazer amor com um braço quebrado". Não há tradução melhor para o desconforto sentido pelo personagem no momento em que, tendo encontrado alguém, ainda não sabe como se mover, pensar, falar.

Barnes alterna o eixo temático com outros assuntos, entretanto, o faz com desenvoltura, sem enfraquecer o conjunto. Ele ironiza o próprio meio em Na Cama com John Updike, em que duas escritoras, amigas há décadas, voltam de mais um evento literário e têm uma longa conversa repleta de ressentimentos mal disfarçados. Em Harmonia, viaja ao que se supõe a Viena do século 18, onde um teólogo-filósofo-médico tenta curar a cegueira psicossomática de uma moça por meio do magnetismo. Os efeitos que consegue, porém, parecem mais fruto das conversas e da cumplicidade que surgem entre eles do que dos métodos "científicos" adotados.

O melhor, contudo, está no conto que fecha e dá título ao livro. Voltamos aos casais, no entanto, nada há de repetitivo aqui. Barnes justapõe o péssimo casamento do narrador, que termina mal e precocemente, à longa e bem-sucedida união de seus pais. "Será que somos atraídos por pessoas que têm os mesmos defeitos que nós?", ele se pergunta, mas é justamente na estabilidade dos progenitores que encontra algum consolo. Quando a mãe adoece gravemente e ele vê o pai assistindo, impecável, à sua lenta agonia, é como se qualquer má lembrança evaporasse. Junto ao leito da mulher enferma, o pai redime o filho, assim como a boa prosa redime o mundo.

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