Histórias da realidade quatro décadas depois

José Carlos Marão e José Hamilton Ribeiro reúnem texto da revista em livro

Raquel Cozer, O Estado de S.Paulo

20 de dezembro de 2010 | 00h00

Convencer um coronel do Nordeste a receber a revista Realidade para um perfil, em pleno 1966, não era tarefa fácil. Só depois da intervenção de "embaixadores", como recorda o jornalista José Hamilton Ribeiro, o velho Chico Heráclio aceitou abrir seu gabinete - ou melhor, a varanda de sua casa, em Limoeiro, no Agreste pernambucano. E a dúvida deixou para tirar no último dia: teria de pagar pela reportagem? Ficou inquieto ao saber que não. Era indício conclusivo de que não controlaria o resultado.

Esses bastidores da apuração que abasteceu o texto "Coronel não morre", publicado na edição de novembro daquele ano, são contados agora no livro Realidade Re-vista (Realejo), de José Hamilton e José Carlos Marão. Além dessa, outras 25 reportagens aparecem reunidas, acrescidas de contextualizações e detalhes que não podiam ser revelados à época, mas que diziam muito sobre aquele período - nas informações que acompanham a outra reportagem política do volume, por exemplo, ficamos sabendo que um então jovem e promissor Íris Rezende, prefeito de Goiânia, também teve preocupações quanto à viabilidade financeira da publicação de seu perfil.

Objeto de estudos por décadas, a Realidade circulou de 1966 a 1976, com fases bem distintas, depois que desandou a tentativa da Editora Abril de criar uma revista semanal de atualidades que pudesse ser encartada em jornais. O projeto que começou a se desenhar então era mais complexo. Trataria-se de uma publicação mensal que desse conta de assuntos do momento em áreas como política, saúde e comportamento. O desafio era, sem perder a atualidade, abordar fatos do mês, já antes dissecados pelos jornais diários e pelas revistas semanais. Assim, como exemplifica Marão num dos textos de apresentação do volume, a morte do papa poderia ser mote para uma investigação sobre a sucessão na Igreja e a política entre os cardeais.

Havia também o regime militar em andamento, mas naqueles primeiros anos isso ainda não se mostrava grande empecilho. "Em 1966, 1967, a censura era mais um exercício de cautela da equipe, digamos assim, porque sabíamos que a coisa não estava fácil. Em vez de tomar posições ostensivas, buscávamos nos expressar pela ironia", lembra Marão, hoje diretor do Observatório da Imprensa, e que tinha 25 anos ao se juntar a José Hamilton, alguns anos mais velho, na equipe que reunia apenas jovens de até 30 anos, como Paulo Patarra, Luiz Fernando Mercadante e Mylton Severiano da Silva.

Novo jornalismo. O efeito da mistura de jovens jornalistas com um formato que eles mesmos não sabiam qual poderia ser teve resultados explosivos. A primeira edição alcançou os 250 mil exemplares vendidos, número que quatro meses depois já havia subido para 450 mil. "Há uma série de análises e estudos sobre o que a revista representou, o que influenciou o formato, mas tudo surgiu da nossa cabeça. Há quem diga que seguimos o new journalism. O que sabíamos era que estávamos fazendo uma revista mensal que tinha de lidar com tendências e ter um texto que atraísse o leitor. A Realidade veio preencher um espaço", diz Marão, que hoje coloca as revistas Brasileiros e piauí entre as que mais se assemelham ao jornalismo feito na publicação. "A Realidade oferecia aos repórteres todo o tempo e investimento necessário para investigar uma história, algo raro nos dias de hoje."

"Pobre menina Miss", o texto cujo fac-símile ilustra esta página, é um exemplo. Para mostrar os bastidores dos concursos de beleza, Marão hospedou-se no hotel onde se concentravam as misses e passou dias por lá sem se identificar como jornalista, de modo a poder circular em paz. A reportagem foi publicada em agosto de 1966, numa edição sobre a mulher brasileira, que acabou tendo a apreensão das bancas determinada pela Justiça.

A justificativa da sentença deixa claro quanto eram provocativas aquelas reportagens que, lidas hoje, em alguns casos não dão a dimensão de serem mais que textos bem apurados e escritos com esmero: "O exame dos artigos reunidos (...) revela, às claras, o objetivo da revista: ampliar a liberdade sexual e reduzir o casamento a "algo secundário e dispensável, senão desprezível"", argumentaram os juízes.

Mas também há exemplos em que a provocação é explícita mesmo para dias atuais. Em artigo sobre as abordagens da revista relativas ao preconceito na sociedade, José Hamilton Ribeiro conta como tentou, com a ajuda da ciência, "ficar preto" para vivenciar na pele a sensação. Após tentativas frustradas de pretejar por meio de injeções e mergulhos em substâncias que pigmentassem sua pele, concluiu que não havia tecnologia, àquela altura, para realizar a investigação no Brasil. A solução foi enviar o editor de texto Sérgio de Souza, moreno de cabelo encaracolado que não chegava a ser considerado negro por aqui, mas que facilmente seria visto como um nos EUA, para relatar a experiência.

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