Histórias cativantes para o público infantil

As publicações de arte destinadas ao público infantil formam um enorme mundo, que merece ser investigado. A cada dia as editoras parecem mais seguras do enorme filão que este mercado representa e as livrarias estão abarrotadas de obras que seduzem leitores de todas as idades. O segmento mais dinâmico ainda é o das biografias de artistas, que apresentam de forma lúdica a obra dos grandes mestres da arte mundial por meio de textos romanceados e didáticos, muitas vezes usados como suporte para aulas de educação artística. Escolher um desses títulos nem sempre é fácil, pois existem nas prateleiras várias versões sobre um mesmo artista. Picasso, Van Gogh e Monet estão entre os best-sellers. Mas a oferta começa a diversificar-se e é possível encontrar obras sobre artistas menos midiáticos, como Bruegel, Edvard Hopper e Jean-Baptiste Debret, e ? melhor ainda ? trabalhos de cunho autoral que fogem do resumo puro e simples da trajetória de um determinado autor. O fato de serem resumidos não quer dizer que não se possa aprender muito com essas obras. A primeira lição é aguçar o olhar e o interesse, mostrar ao publico ? de todas as idades ? a apreciar expressões tão distintas quanto o modernismo endeusado de um Picasso quanto as belas e misteriosas garatujas encontradas nas cavernas de Lascaux, cujas imagens arquetípicas ecoam ao longo de toda a história da arte. Mesmo assim, é difícil encontrar produções 100% nacionais. Comprar os direitos de uma editora estrangeira é mais prático e barato. Essas coedições reservam excelentes surpresas, como a série Minhas Primeiras Descobertas da Arte, da editora Gallimard, que a Melhoramentos relançou no Brasil. Felizmente, as excessões à tradução se tornam cada dia mais comuns. A coleção Arte para Crianças, da Berlendis & Vertecchia Editores (e que posteriormente ganhou um novo braço, destinado aos jovens, com o objetivo de conquistar os adolescentes que se recusavam a ler livros dedicados às "crianças") é seguramente uma das pioneiras nessa tentativa de integrar arte e literatura, orientada por uma clara política de arte educação. Ela acaba de completar a marca dos 15 títulos, com grande sucesso de venda. No entanto, quando a editora Donatela Berlendis decidiu entrar neste mercado há 20 anos, com Era Uma vez Três (com obras de Volpi e textos de Maria Clara Machado) foi chamada de maluca. ?Mas o Volpi me deu um beijo e tocamos o projeto?, lembra a editora, que acaba de lançar este mês O Tesouro do Capitão Policarpo, com texto de Alberto Goldin e obras de Thomaz Ianelli e Um Brasil do Outro Mundo - Aventura na Barreira do Inferno, com texto de Silvia La Regina e ilustrações de Antonio Henrique Amaral. A grande inovação de Donatela foi promover uma aproximação entre a imagem e o texto ao propor que o escritor utilize as obras de um determinado artista como motor de criação. Esse trabalho costuma servir de base para um projeto de educação artística, sendo trabalhado em sala de aula ao longo do ano letivo, colocando os alunos em contato com as obras e com os artistas. Donatela calcula ter atendido diretamente cerca de 50 mil crianças nos eventos que organizou ao longo dos últimos 10 anos (isso não inclui as iniciativas de professores que decidam adotar os livros individualmente). ?Nosso interesse é despertar a sensibilidade e desenvolver a criatividade, o que será útil não só no campo das artes, mas por toda a vida?, explica a editora. As publicações da Berlendis & Vertecchia têm um grande respeito em relação às obras de arte reproduzidas. Mas vem ganhando força recentemente uma linha de trabalho mais ousada, que promove uma releitura do discurso plástico. É o caso, por exemplo, do livro A Princesa e o Pintor, de Jane Johnson, traduzido pela Salamandra. Numa surpreendente viagem pelo universo velázquiano, a autora norte-americana recria um dia na vida da infanta Margarita, retratada pelo mestre espanhol na antológica tela Las Meninas. Em contrapartida, o texto literário fica aquém da qualidade obtida nas imagens, com contornos muito contemporâneos. Uma obra nacional parece ter conseguido com maior sucesso esse casamento entre texto e imagem, abordando de forma poética a obra de Lasar Segall. A Floresta e o Estrangeiro, com poema de Alberto Martins e projeto gráfico de Hélio de Almeida, fala da descoberta das cores e da paisagem tropical pelo artista europeu. Martins teve a idéia do livro quando dava aula no Museu Lasar Segall, em meados dos 90. Na época estava interessado no tema da paisagem e descobriu encantado uma série de esboços cenográficos do pintor. "Fui fisgado", conta. Mesmo adotando um grau de liberdade grande, o trabalho gráfico de Hélio de Almeida também manteve uma grande harmonia com o texto e com as imagens de Segall. Martins discorda da posição mais museográfica, de deixar a obra intocada. ?Acho que quando vamos para o livro tempos que assumir que essa imagem é diferente da do quadro; nesses projetos a idéia de seqüência é fundamental?. Segundo ele, o uso da imagem como apoio implica no risco de que se acabe respeitando apenas o ritmo da palavra escrita. Os livros que apelam para uma terceira forma de comunicação com o leitor ? lançando mão de personagens de quadrinhos para explicar a obra, por exemplo ? acabam tornando-se excessivamente confusos, ao invés de contribuirem para uma melhor compreensão do tema. Segundo Ana Lúcia Brandão, que há anos estuda os livros de arte infantis e está preparando uma tese de doutorado sobre o tema, há espaço para as duas linhas de atuação. A sua maior preocupação refere-se mais à dificuldade de se atingir o público. "Ao estimular uma criança você obtém respostas rápidas, mas às vezes vemos o professor passar batido pelas mesmas imagens", diz ela. "A questão central é como educar esse olhar. Vivemos num mundo de imagens e a maioria das pessoas não têm a educação do olhar", constata ela, reafirmando que esse tipo de alfabetização visual é lentíssima. Cada dia cai mais por terra a afirmação de que tal livro é infantil. Muitas dessas obras cativam de maneira impressionante os pais abrindo-lhes as portas para um universo que não usufruiram quando eram crianças. "Um dos grandes males dos livros para crianças é simplificar coisas que não devem ser simplificadas", diz Martins. O futuro é promissor para esse mercado, que conta com a participação ativa de importantes instituições, como os museus de arte moderna de Nova York e de Paris (MoMA e Beaubourg). Segundo Ana Luísa, são lançados cerca de 800 livros infantis por ano. É verdade que, desse total, apenas uma minoria (de 30 a 40 títulos) traz alguma descoberta ou qualidade surpreendente. Martins, que também é editor, acredita que um dos veios pouco explorados no País é o da produção de informação acessível e de boa qualidade sobre a arte brasileira. De forma geral ainda predominam os textos acadêmicos e eruditos ou então as obras destinadas a produzir uma informação clara, mas que deixam a desejar no que se refere ao conteúdo. "As coisas não são incompatíveis", diz ele.

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