Historiadores reprovam nova série da Globo

A família real portuguesa nemameaçou vir para o Brasil e a nova minissérie da Globo jádesagradou a historiadores portugueses e brasileiros."Pornochanchada" foi a palavra usada por vários dosentrevistados pela reportagem para definir o primeiro capítulode O Quinto dos Infernos, de autoria de Carlos Lombardi, quefoi ao ar na noite de terça-feira, num capítulo supostamenteespecial. Até a trilha, que recorre a músicas contemporâneas(como Marylin Monroe cantando My Heart Belongs to Daddy, deCole Porter), alerta para a idéia de que não se pode confiar nareconstituição histórica da série - recheada de muito silicone ehomens nus.O único que conseguiu encontrar algum elogio para oprograma foi o secretário-geral do Conselho da ComunidadeLuso-Brasileira, Paulo Machado: "Pelo menos um mérito não podeser negado: a Rede Globo reuniu para a novela um elenco deprimeiríssima qualidade." Mas foi um pequeno afago, depoismuita crítica: "No meu entender, trata-se de uma publicidadeenganosa; a Globo, em suas chamadas, anunciou que faria ´umaversão bem-humorada da história do Brasil´; pelo menos noprimeiro e enfadonho capítulo, não houve história e muito menoshumor." Para Machado, O Quinto ficaria melhor se fossefeito pela turma do Casseta & Planeta.Segundo Mary del Priore, professora da Universidade deSão Paulo e autora de História das Mulheres no Brasil(Contexto), "o episódio presta-se à caricatura, pois se inspirana bibliografia republicana e positivista do fim do século 19que, para afirmar a identidade do novo regime, enxovalhou oanterior". Ela diz ainda que, "emprestando um pretextohistórico, no caso a vinda da Família Real portuguesa ao Brasil(1808), a série apenas vende ao espectador mais umapornochanchada global".Elias Tomé Saliba diz que a minissérie estrelada porDanielle Winnits (Manuela), Betty Lago (Carlota Joaquina) eHumberto Martins (Francisco Gomes, o Chalaça) repete, com seuapelo excessivo à sexualidade, "erros de Carlota Joaquina", deCarla Camuratti, sem se aproveitar das qualidades do filme. OQuinto, segundo a emissora, faz uma adaptação livre dos livrosO Chalaça, de José Roberto Torero, A Imperatriz no Fim doMundo, de Ivani Calado, e As Maluquices do Imperador, dePaulo Setúbal. Saliba afirma que "o resultado fica muito aquémdessas obras".De acordo com Rui Rasquilho, diretor do Instituto Camões, órgão cultural ligado à Embaixada de Portugal, a série "é umdivertimento sem reconstituição histórica": "O autorabrasileira os personagens, sem os contextualizar." Elepergunta: "Será que os brasileiros não se envergonham de fazeruma coisa dessas?" Na sua opinião, a minissérie propaga idéiase versões equivocadas da história, "o que é preocupante para aeducação do povo brasileiro".José Jobson de Arruda, autor de Brasil-Portugal -História - Agenda para o Milênio (Edusc), considera OQuinto a versão brasileira do filme norte-americano Debi eLóide. "Um lixo televisivo, uma chanchada da pior espécie."Segundo ele, torna-se, assim, difícil julgar tanto acaracterização dos personagens quanto o conteúdo da trama. "Osadultos com boa formação conseguem entender a brincadeira, mas,para os jovens e adolescentes, a imagem distorcida pode ficarcomo referência, até porque o humor facilita a apreensão dahistória." Na sua opinião, a Globo, por seu alcance, "temuma responsabilidade social" e não poderia estar "prestandoesse desserviço à educação". Arruda defende que "a imagem ded. João VI como indeciso", explorada por Carlos Lombardi, éequivocada: "D. João VI foi um sábio, que soube usar a astúciada neutralidade para lidar com as pressões exercidas pelaspotências França e Inglaterra."Mary del Priore acrescenta: "D. João VI podia não ter opadrão global de beleza, mas foi um soberano que muito fez peloBrasil: fundou a Imprensa Régia, o Banco do Brasil e trouxe amissão francesa, responsável por transformações nas artes;espero que entre uma mordida e outra na coxinha de galinha sediga isso ao espectador."Renato Pinto Venâncio, co-autor do Livro de Ouro daHistória do Brasil, acha que escolhas menos óbvias (eproblemáticas do ponto de vista histórico) por parte do autorpoderiam interessar mais ao público. Ele cita, por exemplo, ofato de d. João ser adepto de algumas modas românticas, como opiquenique: "Logo que chegou, chocou a sociedade do Rio deJaneiro por comer na grama e com as mãos, um hábito dos escravos- o que resultou na sua imagem de glutão e desajeitado."Também Carlota Joaquina, crê Venâncio, poderia terrecebido um tratamento mais profundo. "Ela não era apenas umfuror uterino; foi uma articuladora política importante, cujaação ficou conhecida como carlotismo." Causava problemas para adiplomacia portuguesa (afinal de contas, ela era espanhola) eera uma mulher avançada para seu tempo: andava a cavalo, davatiro de canhão e já tinha uma imagem negativa na corteportuguesa, por conta de sua relativa independência. "NaRepública, essa imagem negativa virou caricatura."

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