Historiadora rastreia patrocínio de publicações

Em 1994, a construtora Odebrecht patrocinou um dos maiores projetos culturais já realizados no País, a exposição e o livro de arte O Brasil dos Viajantes, organizado por Ana Maria Beluzzo. O livro (três grande volumes) foi impresso uma única vez, mas a procura já justifica uma segunda edição."O livro é uma maravilha e é um absurdo que tenha chegado a tão poucas pessoas", considera a crítica e historiadora de arte Cacilda Texeira da Costa, que resolveu contar a história daquela e de outras publicações dessa natureza em Livros de Arte no Brasil: Edições Patrocinadas, que lança amanhã. Ela inventariou os livros do arte desde 1952 - época em que garimpou uma publicação patrocinada pelo grupo Sul América, com coordenação de Rodrigo de Mello Franco e colaboração de Cecília Meirelles e Frederico Barata, entre outros.A historiadora teve a idéia de começar a pesquisa há três anos, quando ajudou a montar, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio, e no Instituto de Estudos Brasileiros da USP, dois centros para tentar reunir todos esses livros de arte patrocinados. Com o apoio do CCBB, Cacilda começou a fazer um rastreamento dos livros."O grande problema é que, nas bibliotecas, o nome do patrocinador não entra na ficha bibliográfica", conta Cacilda. "Por conta disso, um colega baiano que tinha tido a mesma idéia foi forçado a desistir, após ir pelo caminho das bibliotecas."Recorrendo diretamente às empresas patrocinadoras, Cacilda começou a receber pelo correio o material que requisitava. Algumas companhias chegavam a mandar caixotes inteiros de livros - a média de tiragem dos livros patrocinados gira entre 2 mil e 3 mil exemplares. "Não é que façam um pingo de livro, mas é que não conseguem distribuir", pondera.A maior parte dos patrocinadores banca edições de livros de arte com o intuito de distribuí-los como brindes comemorativos aos seus clientes, como nas festas de fim de ano. Por isso, não vêem razão para uma segunda edição, porque fugiria do seu objetivo e mesmo da sua capacidade de produção - afinal, não se trata de uma editora. E a distribuição é caríssima. "Alguns empresários me contam que desistiram de distribuir porque seria como fazer outro livro", lembra.Ela conta que recebeu livros patrocinados do Brasil inteiro. "A produção se multiplicou com a chegada das leis de incentivo, a partir da Lei Sarney", diz. E também veio a falta de critério, que leva a imprimir livros de qualidade duvidosa - atualmente, a vantagem fiscal da Lei Rouanet faz com que a impressão tenha custo zero ao patrocinador."A grande maioria desses livros não teria condições de ser realizada sem o apoio dos empresários", pondera Cacilda. "O que eu acho é que deveria haver um aprimoramento das leis, para evitar oportunismo e também para garantir uma distribuição mínima da produção", afirma.Uma das sugestões da historiadora, para que livros importantes não fiquem restritos aos clientes de uma empresa, é que a lei determine que um número determinado de exemplares seja encaminhado a bibliotecas públicas.Livros de Arte no Brasil: Edições Patrocinadas. De Cacilda Teixeira da Costa. Amanhã, 19 h, Itaú Cultural (Rua Leôncio de Carvalho, 108).

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