Historiadora investiga a escravidão no Rio

Durante muito tempo, tomou-se como verdade que nunca seria possível estudar a escravidão no Brasil porque todas as fontes haviam sido destruídas. Partia-se do princípio de que, em 1890, o abolicionista Rui Barbosa, para evitar que os antigos senhores pudessem tentar restabelecer o controle legal sobre seus ex-escravos, mandara queimar os papéis, livros e documentos relacionados com a escravidão. Para reforçar ainda mais essa idéia, na década de 1960 um incêndio queimou a coleção de manuscritos de posse da irmandade negra de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito no Rio de Janeiro. Tudo isso é verdade. E, durante mais de 30 anos, a historiadora norte-americana Mary C. Karasch, professora da Universidade de Oakland, só ouviu palavras de desestímulo. Mas, como todo pesquisador nato, sempre duvidou daqueles que vinham com explicações prontas e fez ouvidos moucos para quem procurava dissuadi-la de mergulhar nos arquivos. O resultado de seu esforço está em A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), desde já a mais completa e mais bem documentada obra sobre a história da escravidão no País. Escravos bem vestidos - Para erguer este imenso painel não só do tráfico como dos hábitos, tradições e condições de vida dos escravos, Karasch, a princípio, valeu-se da literatura composta por viajantes que passaram pelo Rio de Janeiro. É claro que precisou de muita cautela para analisar essas fontes: o viajante nunca deixava de fazer críticas etnocêntricas ou preconceituosas, num comportamento típico de quem ficara pouco tempo na cidade. Encontrou as melhores fontes entre aqueles que moraram no Rio de Janeiro por mais de dois anos, como o inglês John Luccock e o francês Jean-Baptiste Debret. Do francês não há quem não conheça suas famosas gravuras, que reproduzem em detalhes os trajes africanos, instrumentos musicais e costumes.Para reconstruir a vida e a cultura dos escravos, Karasch valeu-se de outras fontes não tradicionais, como folclore e cultura material contemporânea, história da arte, tradições religiosas do século 20, registros de enterros, teses médicas do século 19, registros notariais, correspondência e anotações da polícia, petições de escravos, entre outras. Só falhou ao não estender suas pesquisas aos arquivos portugueses. Uma das principais contribuições de Karasch é a contestação à tese de Gilberto Freyre a respeito da "suavidade" do sistema escravista brasileiro, segundo a qual os senhores de escravos do Brasil teriam sido mais benevolentes que os da América do Norte. Essa tese teria partido de observações apressadas de viajantes do século 19, que assinalaram a existência de escravos bem vestidos e bem nutridos a serviço de cariocas abastados. Freyre foi um dos poucos estudiosos do assunto traduzidos para o inglês e suas idéias, a partir de tais generalizações, influenciaram muitos estudiosos norte-americanos. Os senhores cariocas - Como mostra Karasch, a tuberculose foi a maior causa do aniquilamento de escravos no Rio de Janeiro, conseqüência direta das más condições de vida, da dieta pobre e das punições violentas a que eram submetidos. Registros de enterros encontrados pela autora documentam que os escravos morriam muito cedo, vítimas de moléstias associadas à baixa condição sócio-econômica e não em razão de doenças tropicais exóticas, como imaginava o mestre de Apipucos.Os senhores cariocas, em vez de investir na expansão das famílias de seus escravos, preferiam recorrer ao degradante mercado do Valongo, já que a oferta era sempre abundante. Quando o escravo perdia força e utilidade, geralmente ficava abandonado à própria sorte. Às vezes, morria nas ruas e seu corpo entrava em estado de putrefação, sem que se tomassem providências para recolhê-lo. Os castigos, invariavelmente, eram brutais. Também sempre foram exceções as alforrias, pois não interessavam ao senhor nem ao escravo, que, além de ter de investir alta soma na "compra" de sua liberdade, teria dificuldades para sobreviver por conta própria. Alforria como resultado de um ato de caridade foi caso raríssimo. Geralmente, o africano importado morria escravo mesmo.A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro (1808-1850), de Mary C. Karasch. Cia. das Letras, 643 págs., R$ 48,00.Adelto Gonçalves, jornalista, é doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela USP e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo

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