Roger-Viollet/Lapi
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Historiador Mark Mazower lança o esplêndido 'O Império de Hitler'

Obra mostra que, sem idiotismo ideológico, Führer teria explorado melhor os países conquistados

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

06 Setembro 2013 | 19h30

Em poucos lugares a incompetência dos nazistas manifestou-se de forma mais evidente do que na administração de seu império europeu. O historiador Mark Mazower, no esplêndido O Império de Hitler, mostra que, se o Führer e seus comparsas não tivessem a visão turvada pelo idiotismo ideológico e pela incontornável inclinação para o crime, é possível concluir que teriam conseguido explorar melhor os países conquistados e, eventualmente, ficar em condições mais vantajosas para enfrentar a coalizão que afinal os derrotou.

A história é conhecida. Bafejado por uma combinação de sorte, blefe e senso de oportunidade, e contando com a covardia das potências europeias, Hitler construiu seu formidável domínio sobre a Europa em poucos anos, num ritmo alucinante, dando aos nazistas a certeza de que eram apenas um instrumento da História para a transformação radical do mundo segundo a fantasia da superioridade racial.

A velocidade do avanço nazista no Leste não foi acompanhada de nenhum planejamento sobre como administrar as conquistas. A volúpia obedecia somente ao imperativo da dominação absoluta, sem jamais considerar a hipótese de permitir alguma forma de autonomia aos dominados – o que talvez conferisse um mínimo de coesão e solidez ao império.

Hitler, porém, nunca esteve interessado em coesão. Seu governo era conhecido pelo caos, pela superposição de ministérios e órgãos de segurança e pela indefinição de objetivos – salvo a meta de tornar o império “livre de judeus”. Mesmo a chamada “Questão Judaica”, porém, tinha muitas respostas, e sua “solução”, isto é, o extermínio dos judeus, só ficou clara quando os nazistas entenderam que estavam perdendo a guerra.

Essa confusão política e administrativa se refletiu na relação da Alemanha com os países ocupados por suas tropas. Hitler nunca se mostrou disposto a emular as outras potências imperiais – ele não era movido por um ideal civilizatório nem imaginava a Alemanha como centro comercial da Europa. Seu objetivo, explica Mazower, era apenas fazer dos países atropelados por suas tropas meros fornecedores dos recursos de que os alemães precisavam em seu avanço para o Leste, reproduzindo uma velha obsessão nacionalista germânica.

Apesar disso, não houve resistência significativa dos europeus ao avanço nazista, com exceção da exemplar luta inglesa. Ao contrário: atingida pela crise econômica dos anos 30 e desencantada com o liberalismo econômico, a maioria dos países do continente aceitou a suserania de Hitler, e muitos trabalhadores europeus desempregados atravessaram a fronteira para oferecer seus serviços aos alemães.

Hitler perdeu a chance de explorar esse apoio porque só confiava nos alemães, e mesmo essa confiança foi se esvaindo à medida que a guerra se encaminhava para o desastre. O nacionalismo nazista, o mais radical da Europa, era incompatível com qualquer forma de autonomia aos povos conquistados, em especial dos eslavos. A “polonização” do Reich, expressão pejorativa para manifestar repúdio à presença majoritária de poloneses em partes do território alemão, foi objeto de crítica tanto de liberais quanto de conservadores no século 19 – mesmo intelectuais como Max Weber engrossaram esse coro – e muitos, já naquela ocasião, defendiam a deportação de poloneses para acomodar colonos alemães nessas regiões. Hitler não é, portanto, um ponto fora da curva – a diferença é que ele levou a violência contra os eslavos e os judeus ao nível do paroxismo.

A “Nova Ordem” alemã criada por Hitler para a Europa, portanto, tinha apenas um objetivo: unificar os alemães europeus e ocupar o Leste para dele extrair as riquezas necessárias para a manutenção da Volk germânica. Todas as demais considerações políticas e diplomáticas eram não apenas irrelevantes, mas contrárias aos interesses do Führer – o direito internacional, para ele, era exclusivamente racial.

Apesar disso, como mostra Mazower, a Europa ocidental se dobrou sem muita dificuldade aos desígnios de Hitler e, em vários casos, colaborou abertamente com o esforço de guerra alemão. A tomada da França foi crucial para isso – quando a grande potência rival da Alemanha capitulou sem luta e se pôs à disposição dos nazistas, ficou claro que muitos europeus, inclusive no Leste, estavam dispostos a aceitar o status quo, tanto para apaziguar seus novos senhores quanto para, eventualmente, tirar proveito da situação. Poder semelhante só foi obtido por Napoleão.

No entanto, ao destruir as relações comerciais e financeiras da Europa, a título de controlar todos os recursos naturais, Hitler atingiu em cheio o pilar da prosperidade do continente. A pilhagem tornou-se o padrão dos negócios alemães com os países ocupados. O plano de alimentação da Alemanha consistia em fazer os alemães comerem à custa da dieta dos demais europeus. “Eles podem morrer de fome sem problema, desde que nenhum alemão morra de fome”, disse o poderoso ministro Hermann Göring.

Quando os governos aliados pressionavam Hitler para que explicasse sua visão de futuro para a Europa, o Führer tergiversava. Julgando que poderia ditar os termos da paz quando bem entendesse, o ditador dispensou os diplomatas e ignorou a necessidade de negociar. Como mostra Mazower, ao espoliar tanto os inimigos quanto os colaboradores, graças à sua visão apocalíptica de mundo, Hitler selou sua sorte.

O IMPÉRIO DE HITLER

Autor: Mark Mazower

Tradutor: Lucia Boldrini e Claudio Carina

Editora: Companhia das Letras (824 págs., R$ 79,50)

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