Historiador inglês derruba mito do francês antipático

Com a reputação de ser um historiador bem pouco heterodoxo, capaz de escrever um livro inteiro sobre um País baseado apenas em seu aguçado senso de observação - nada muito científico, sem nenhum ranço de sociologuês -, o inglês Theodore Zeldin é também um animal político. Dizem que mais à direita, mas uma avaliação mais atenta de sua obra derruba qualquer rotulação.A Editora Record acaba de lançar no Brasil seu mais conhecido livro, Os Franceses, escrito em 1983. Nele, Zeldin demoliu a crença geral de que os franceses são o povo mais antipático da Europa. Debruçou-se sobre temas como moda, culinária, política, ensino, Asterix, crêpes suzettes e outros temas. E examinou com rara verve os motivos que fazem do francês o povo que mais intensamente procura encontrar e exprimir sua identidade, "insistindo em inventar rugas que não existiam e se preocupando se a linha de sua boca formava um sorriso de ironia ou um sorriso sincero".Catedrático de Oxford, ele ainda é o autor de De la Conversation (publicada pela Fayard, Paris, 1999), Uma História Íntima da Humanidade (Fayard, 1994, publicada aqui pela Record em 1996) e Histoire des Passions Françaises, 1848-1945 (Recherches, Paris, 1978). A Magazine Littéraire o considerou um dos cem mais importantes pensadores atuais.De Londres, ele se desculpou pela demora em responder à reportagem porque estava em Paris a pedido do primeiro-ministro francês, Lionel Jospin. "Ele me pediu para criar um web site com o intuito de apresentá-lo ao mundo, sem impor qualquer restrição", disse Zeldin. "Fui convidado a filmar os diferentes quartos de sua residência oficial de Matignon, e posso usar essa visita para ilustrar o que torna o primeiro-ministro da França diferente de outros líderes democráticos", afirma. "Durante a visita, ele interveio várias vezes no filme para debater minhas questões, numa discussão aberta."O site de Theodore Zeldin para Jospin estará pronto em dois meses, prevê o escritor. Terá duas seções, uma com uma personalidade francesa que vai dar sua interpretação do País e outra com o próprio Zeldin oferecendo a sua. Que está completamente disposta no seu livro. E nas suas idéias.O sr. disse, recentemente, que a França é "uma idéia muito mais que um País". Esse ponto de vista permanece o mesmo? Quero dizer: a França vive um aumento de sua auto-estima, ganhou a Copa do Mundo e experimenta um novo desenvolvimento econômico. Como o sr. vê a França hoje, 17 anos após a publicação do seu livro?Theodore Zeldin - Eu não posso pensar em nenhum outro País que tenha seguido um curso similar. É por isso que eu digo que a França é uma idéia muito mais que um território. A Declaração dos Direitos do Homem não foi proclamada simplesmente em benefício dos habitantes de uma pequena parte da Europa, mas para o mundo inteiro - ao contrário da Magna Carta e do Habeas Corpus britânicos, aplicados somente entre os ingleses e no território inglês. Os filósofos do século 18 definem patriotismo como o amor pela humanidade. Você deve lembrar que nas Celebrações do Bicentenário da Revolução Francesa a passeata em Paris foi liderada por estudantes chineses, que mostravam solidariedade aos rebeldes de Tienenman. Se você aprecia a cultura francesa e se diverte com os ritmos de sua linguagem, você se torna parte da civilização francesa. O time de futebol francês, por exemplo, enfatiza quão multirracial o povo francês pode ser. Hoje, um terço da seleção francesa tem sangue estrangeiro. Essa ênfase na diversidade acaba com a celeuma sobre o que isso significa ser francês, que é uma questão sem resposta. O sucesso econômico da França, eu acredito, tem a ver com uma atitude de abertura.Em seu livro, o sr. não fala muito sobre as ondas xenofóbicas na França. O sr. crê que é um sentimento menor naquele País? Como vê essa questão?Não há dúvida de que a França sofre de racismo entre alguns setores da população que se sentem acuados pelos imigrantes. Isso tem sido tratado por uma grande variedade de literaturas estrangeiras. É verdade também que um setor da população não gosta da influência americana, e considera isso um perigo para a manutenção de sua identidade nacional. Mas, por outro lado, a França tem sempre absorvido influências estrangeiras, de italianos, alemães, ingleses e americanos. As contradições são uma parte fundamental da tradição francesa.O sr. acha que os esforços contra o franglais (o francês misturado com o inglês), que os leva a dar um nome como ordinateur ao computador, tem tido alguma eficácia na proteção da língua francesa?Eu sempre me pergunto como eles poderiam defender sua linguagem. Eu creio que as restrições ao uso do inglês são ineficazes. O vocabulário francês sempre assimilou palavras do inglês. Por exemplo: comfort, tourist, ticket, wagon, legislature, majority, budget, radicalism, conservative. É inevitável que novas idéias criem novas palavras no futuro. A língua francesa não pode sobreviver simplesmente sendo bela, mas também sendo prática, e isso deve ser ensinado ainda na infância. A aristocracia mundial costumava falar francês porque tinha governesses franceses. Eu creio que a França poderia democratizar essa idéia e criar uma rede mundial de suas notáveis escolas maternais, oferecento serviço prático para pais olhando seus jovens quando estão trabalhando - sempre em francês. As crianças crescerão bilíngües. Ser monolíngüe é anormal.Uma questão sobre futebol: na Inglaterra, vocês têm os hooligans, os bárbaros dos estádios, assim como a Argentina tem os barra-bravas. Por que os extremistas não aparecem entre os torcedores franceses?O fenômeno hooligan está diretamente associado com o álcool, e o álcool não é aprovado ou glorificado na França como em alguns países. Na Inglaterra, beber é entretenimento regular entre alguns jovens. De qualquer modo, há hooligans na França, provenientes de uma violência diferente que ocorre nos subúrbios, onde os jovens desempregados demonstram de forma aguda seu desencanto.Os fotógrafos Cartier-Bresson, Joseph Nicéphore, Jeanloup Sieff, Brasaï, Florence Henri, Robert Doisneau e Helmut Newton viram alegria e glória, desolação e brilho, miséria e heroísmo nas ruas de Paris neste século. Por que o sr. acha que Paris se tornou a cidade mais esquadrinhada pelos fotógrafos do mundo todo?Paris não nasceu bela. Ela se tornou assim por ter mudado constantemente seus métodos de sedução. Costumava ser uma cidade predominantemente masculina, tipo uma cidade de fronteira americana, um pouco maior. Balzac expressou essa ambição ao escrever: "Devo forçar os homens a obedecer e as mulheres a me amar." Hoje, a maior parte dos habitantes de Paris são mulheres, com diferentes ambições, em busca de um novo tipo de vida e não simplesmente de poder. Paris tem sempre mudado porque sua população está constantemente renovando-se. É uma cidade cara, na qual pessoas vêm fazer parte de uma espécie de encontro massivo de verão para tentar tornar-se alguém. Então é claro que eles sofrem todos os problemas nervosos que tornam a vida difícil e a literatura interessante. Eles projetam a si mesmos (e a cidade) numa caçada cultural três vezes mais intensa que a que faz o resto da população francesa. Em Montparnasse, por exemplo, você encontra 30 cinemas em cinco minutos de caminhada. Os guias parisienses informam que há 93 teatros em Paris, mas eles são de fato um milhão, porque cada apartamento é um teatro lá, a despeito do fato de que metade dos parisienses vive sozinha. Paris é um lugar onde as pessoas tentam transformar seus sonhos em realidade.O sr. acredita no clochard (sem-teto) como um despossuído ou ele é só mais uma das ficções parisienses? Como o sr. define o homem das ruas de Paris?Só uma minoria dos homens que vivem nas ruas de Paris tem uma escolha. Eu tenho conversado com alguns dos homens que encaram isso como um way of life. Mas a maioria é mesmo desempregada. Quando pedem esmolas, não é só realmente pelo dinheiro: eles querem pessoas que falem com eles; e o pedestre que os ignora faz com que se sintam como se não existissem.O sr. vê demasiada diferença no franchouillard, o francês suburbano, e os cidadãos de subúrbio do Brasil ou Inglaterra?Todo país tem pessoas que tentam ganhar respeito imitando outras pessoas, se moldando, seguindo a maioria, ganhando excitação a partir de bogeys estrangeiros. Muitas pessoas sentem que sua vida não estará inteiramente completa se não viajarem para longe. Cada ano, 400 milhões de pessoas no mundo visitam outro continente. O que me interessa nisso é como essas pessoas podem ser alienadas do fato de estarem inventando uma nova forma de viver.Pessoalmente, quais suas preferências entre os prazeres da cozinha francesa?O que mais gosto na cozinha francesa são os pães, o mais básico e o mais satisfatório dos alimentos. A França ainda tem padeiros brilhantes. Mas o pão industrial está avançando, e nem todos os padeiros resistem. A busca por um bom padeiro não é um dos derradeiros prazeres que o turista pode admitir.Quais são suas impressões sobre o Brasil?A civilização francesa é baseada nas idéias de que os seres humanos são perfeitos, que são todos diferentes, e que a alegria pode ser extraída da vida com inteligência e convivência. No Brasil, eu tive uma convicção similar, de que é um país com valores diferentes, que está desenvolvendo um modelo alternativo ao modo americano, e que sabe como se divertir. É por isso que eu tenho grandes expectativas no Brasil para o próximo século, a despeito dos problemas. No tempo do maravilhoso Machado de Assis, havia sempre brasileiros que, de diferentes maneiras, mostravam como se manter firmes face à pretensão do mundo, como desenvolver independência intelectual e cultivar esperança. Todo mundo que quer viver inteiramente precisa visitar o Brasil. E ninguém pode usufruir completamente a humanidade sem ter visto uma dança brasileira.

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