Historiador assume a Fundação Palmares

Depois de um longo mês em meio a lobbies e avaliações, o ministro da Cultura, Gilberto Gil, nomeou o historiador Ubiratan Castro como o novo presidente da Fundação Cultural Palmares. Criada na gestão Sarney, a fundação tem a função de promover a preservação dos valores culturais, sociais e econômicas, decorrentes da influência negra. E Castro foi incumbido da delicada missão de conduzi-la. Natural de Salvador, o historiador, de 54 anos, teve de deixar o cargo de diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais (Ceao), da Universidade Federal da Bahia, e de professor da universidade, para se dedicar à fundação.Intelectual do movimento negro, fez mestrado e doutorado na França e realiza estudo voltado para a economia política da escravidão. Defende cotas diferenciadas para negros em universidades, em cursos onde o índice desses alunos é menor, como em Medicina. Conhecia Gil apenas pela TV e pelos discos, e teve de enfrentar uma forte concorrência antes de ser nomeado. De malas prontas para Brasília, onde toma posse na terça-feira, Castro deu entrevista por telefone ao Estado. Ele falou sobre principais ações no cargo, entre elas, intensificar parcerias com organizações governamentais ou não, como forma de intercâmbio cultural e de aumentar recursos da instituição, uma vez que a verba orçamentária cedida pelo governo não é suficiente para mantê-la.Por que houve tanta demora na definição de seu nome para o cargo? Ubiratan Castro - Como o movimento negro brasileiro é bastante diverso, houve várias propostas. Eu nunca tinha pensado em ser presidente da fundação, mas sendo diretor do Centro de Estudos Afro-Orientais, entidades e grupos universitários lançaram meu nome. Formulei uma proposta que foi encaminhada para o ministro, há mais de um mês. Mas outros grupos também apresentaram suas propostas, com pessoas representativas, por isso a demora. Ele chegou a ter 14 nomes e 14 propostas diferentes. Foi desgastante, mas é uma demonstração de como o movimento negro brasileiro tem propostas.Quais serão as ações prioritárias do senhor como presidente da Fundação Cultural Palmares? Eu diria prioridades internas e externas. Prioridade interna seria recuperar o orçamento da fundação, sua capacidade de operação, porque ela, como todo ministério, foi contraída. Perdeu vários cargos, por uma questão de economia. Então, a fundação deve voltar a ter o peso que já teve, porque é voltada para população negra, que equivale a 48% da população brasileira. Outro compromisso de Gilberto Gil é de tirá-la simbolicamente do subsolo da República. Palmares funciona no subsolo de um prédio, fora da área de circulação das decisões.E as ações externas, quais serão? Com o governo Lula e Gil, a Palmares se redefiniu mais propriamente como fundação cultural, na medida que vai ser criada uma Secretaria de Promoção da Igualdade Racial, que vai se ocupar de uma política global de igualdade racial. Poderemos nos voltar para o trabalho de cultura que seja de promoção e valorização de cultura negra brasileira, apoio a grupos culturais e trabalho de informação, formação e divulgação da cultura afro. Existem também objetivos específicos, como a preocupação com a juventude negra. Há levantamentos feitos no Rio, São Paulo e na Bahia, mostrando quadros, perto do dramático, de genocídio do jovem negro que, pela circunstância da falta de acesso a cultura, educação e formação profissional, é mais exposto a marginalidade. Há uma mortalidade entre jovens negros, que é inaceitável. É evidente que esses dados não competem a Palmares, mas acho que deve haver a oferta de alternativas culturais que os mobilizem e os tirem dessa zona de perigo.Como será tratada a questão das comunidades remanescentes de quilombos no Brasil? Esse é um compromisso da fundação, historicamente tem sido responsabilidade da Palmares. É um assunto controverso, não há um consenso se a Palmares deve cuidar dos quilombos exclusivamente. Está em discussão se a Palmares, sendo uma fundação cultural, tem de assumir tarefas de natureza fundiária, jurídica. O que a gente tem de fazer é ter consciência e convencer a população que a proteção dos quilombolas, aqueles que fizeram sua própria reforma agrária por sua iniciativa, é uma política de governo. A fundação deve se credenciar, para ser a instituição que poderá coordenar uma ação intergovernamental em benefício dos quilombos.Que balanço o senhor faz das atividades da fundação durante o governo FHC? O que foi feito e o que se deixou de fazer? Eu prefiro não fazer essa análise agora. A primeira coisa que eu vou fazer é uma avaliação geral do que foi feito. Acho que foi mérito manter uma fundação - e esse é um elogio que posso fazer para a administração de Carlos Moura (ex-presidente da fundação) - num tipo de governo que não deu prioridade à cultura e à cultura negra. A fundação viveu com recursos limitadíssimos, por mais que as pessoas lá tivessem inteligência e boa vontade. Eu participei da formulação do planejamento da Palmares há dois anos, quando Carlos Moura assumiu. Eu vi como era ridículo um orçamento para uma fundação da importância da Palmares, que tinha responsabilidade de dar assistência a milhares de quilombos no Brasil e não tinha recursos para nada. Era o único órgão na estrutura do Estado brasileiro que servia de endereço a tudo que dizia respeito à população negra. Então, a pressão sobre a Palmares era imensa e pouco recursos. Esse é um quadro que temos de mudar.

Agencia Estado,

10 de fevereiro de 2003 | 10h47

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