História recriada em clima de noir

Os últimos dias de Martin Luther King Jr. Ganham versão de Hampton Sides

JANET MASLIN, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2010 | 00h00

Ao escrever Hellhound on His Trail, o historiador Hampton Sides correu um risco de enormes proporções. Criou uma narrativa visceralmente dramática dos últimos dias do reverendo Martin Luther King Jr. - e a entrecortou com o relato dos passos de James Earl Ray, o homem julgado e condenado como seu assassino. O potencial para exploração é imenso, especialmente à luz da visível influência literária de Sides. O assassinato de King é recriado não apenas segundo o preto e branco dos movimentos pelos direitos civis mas, também, pelo noir de James Ellroy.

Poucos documentários tem a urgência discreta e, ainda assim, empolgante da versão de Sides. Ele conseguiu cercar os fatos de narrativas sem perder o senso de veracidade. Ele amplia a verdade, mas o faz de maneira responsável. Ele aborda temas como a possível existência de cúmplices de Ray sem jamais perder o foco; ao abordar os últimos dias de King, não permite que os detalhes se transformem em distrações. E consegue criar grande suspense, mesmo que o final seja conhecido de todos e não vá exatamente surpreender o leitor.

Para alcançar tamanha verossimilhança, Sides faz uso de diversas fontes. Alguns, como David Halberstam, estão acima de qualquer suspeita; outros, em especial pessoas próximas do reverendo, não conseguem disfarçar a necessidade de remodelar os acontecimentos e suas consequências em seus relatos. E há também os depoimentos daqueles personagens que foram ignorados até agora, perdidos ou esquecidos em meio ao furor que se seguiu ao assassinato. E até mesmo a versão de Ray é levada em consideração na construção do texto. "Como se diz, até mesmo um relógio quebrado mostra a hora certa duas vezes ao dia", escreve Sides.

Hellhound on His Trail é, basicamente, uma história coesa sobre dois homens, King e essa figura sombria que, em 1968, chamava a si mesmo de Eric Starvo Galt. Sides começa com a descrição da fuga de Galt da prisão, em 1967, e o acompanha até Los Angeles, onde se tornou barman e trabalhou como voluntário na campanha de George Wallace à presidência. Sem tentar explicar as motivações interiores de Galt, o livro segue com ele então a Memphis, onde sabia que encontraria King. Surge, então, a narrativa cuidadosa do encontro entre eles. E do assassinato do reverendo.

Sides tinha apenas 6 anos e vivia em Memphis quando a notícia de que King havia sido baleado chegou à população. Seu principal objetivo neste livro audacioso, dinâmico e surpreendentemente vívido é trazer uma perspectiva adulta para eventos que ele não poderia compreender ou esquecer.

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