História real inspira o monólogo 'La Douleur'

Solo com Dominique Blanc traduz vivência da escritora francesa Marguerite Duras, expresso em texto de 1945

Beth Néspoli, de O Estado de S. Paulo,

11 de setembro de 2009 | 18h03

Na noite de quarta-feira, na mesma hora em que Patrice Chéreau subiu ao palco do Teatro Anchieta, em São Paulo, entrava em cena, no Theatro São Pedro de Porto Alegre, a atriz Dominique Blanc para apresentar o solo La Douleur, dirigido a ‘quatro olhares’ por ele e Thierry Thieû Niang. Hoje à noite, será a vez de ela subir ao palco do Anchieta, enquanto Chéreau atuará no festival gaúcho. Na verdade, Dominique já estará em cena na entrada do público. "É um tempo longo, mas é uma ideia muito bela: uma mulher que espera ao lado do telefone. É uma imagem dramática, na minha opinião, muito forte", comenta Dominique em entrevista exclusiva ao Estado na manhã seguinte de sua primeira apresentação no Brasil.

 

O solo A Dor tem como texto-base um diário escrito por Marguerite Duras em 1945. Os campos de concentração começam a ser esvaziados e ela espera notícias do marido Robert (Antelme). Não é ficção, ocorreu com a escritora. Sempre ao seu lado está o amigo D. (o escritor Dionys Mascolo, um segundo marido). No palco, apenas uma mesa e cadeiras. Com poucos movimentos, uma interpretação de impressionante intensidade e nenhum exibicionismo, Dominique nos leva a ‘ver’ imagens como a estação D’Orsay apinhada de mulheres no fim da guerra. Simpática, recebe a reportagem, mas não permite fotos, nem da entrevista, nem do espetáculo.

 

Há interferências no texto original? Por exemplo, há um momento em que você se dirige ao público e deseja a mesma dor a quem estiver ‘enojado’ com o que ouve. Soa bem agressivo. Por que essa opção?

Isso foi escrito por Marguerite Duras, é inacreditável, parece endereçado à uma plateia. Não há interferências. Nós misturamos o texto La Douleur, escrito em 1945 e editado em 1985, com trechos dos Cadernos de Guerra, que foi publicado não faz muito tempo, foi elaborado a partir do diário e é muito mais violento. Por exemplo, o que ela fala contra De Gaulle e a Direita francesa é terrível, muito mais agressivo. Dali retiramos esse trecho que dirigimos ao público. Eu peguei o diário na mão. São dois cadernos escolares com anotações em uma escrita regular e calma para contar algo tão caótico e horrível.

 

Há uma sutil opção pelo distanciamento. Você fala em primeira pessoa, mas não é Duras. Por quê?

Não seria interessante interpretar Marguerite Duras, cair na imitação. E eu iria me apoiar na escritora que conhecemos hoje ou na mulher de 30 anos que escreve o diário? De qualquer forma seria uma redução. Uma mulher espera, durante a Guerra, em Paris, seu marido que é um resistente e está num campo de concentração. Isso retratado num texto magnífico torna-se espera mítica, universal. Compreensível em qualquer lugar.

 

Muito intensa, sua atuação parece ser meticulosamente elaborada para não provocar piedade. Por quê?

Penso que o patético seria menos interessante nessa situação. Explorar o pathos não seria bom. Quero transmitir a dor dessa espera, mas para isso não preciso mostrar sofrimento dessa forma (faz expressão de vítima).

 

Gostaria que falasse um pouco sobre sua parceria com Chéreau. Não há o risco de se repetir ao trabalhar muito com um mesmo diretor?

Comecei a fazer teatro com Chéreau, na montagem de Peer Gynt, em 1981, na qual eu tinha um papel pequeno. Fiz outras coisas fora e, mais tarde, quando ele era já diretor do Théâtre Amandiers, em Nanterre, atuei com ele em Les Paravents, de Jean Genet, num papel bem maior. Fizemos dois filmes, A Rainha Margot e Ceux Qui M’aiment Prendront le Train e, depois, ele me dirigiu no papel central de Phedra, de Racine. Aí fizemos juntos a leitura dramática de La Douleur e, depois, ele e Thierry dirigiram esse texto. Ou seja, foram algumas atuações, não é exclusividade, que considero perigosa, porque pode cair na rotina.

 

Qual é o papel de cada um, Chéreau e Thierry, na direção de La Douleur?

São dois olhares. Às vezes eu ensaiava só com Thierry, outras só com Chéreau e também nós três juntos. A qualidade do olhar não é a mesma, a sensibilidade muda. É uma parceria original que resultou muito bem.

 

Numa entrevista à imprensa francesa você diz que estava em plena crise quando iniciou os ensaios de La Douleur, mas não explicita. Poderia falar qual era a sua insatisfação?

O métier de atriz é magnífico, mas também difícil. Sou exigente com minhas escolhas. Recebemos convites para trabalhos que não são muito bons, mas também com os quais se pode ganhar dinheiro, há muitas tentações no caminho dos artistas. Assim, há momentos em que nos sentimos muito frágeis, vulneráveis, e depois de Phedra isso me aconteceu. Finda a temporada e a turnê, de repente... O deserto. Eu não encontrei ninguém para trabalhar e me senti muito só. Eu tinha começado com Chéreau, que me viu debutar, e então pensei que a única pessoa que teria um olhar sobre o meu caminho seria ele, e fui procurá-lo.

 

Quais as interferências sobre o texto original? Por exemplo, num dado momento a senhora se dirige diretamente ao público de forma contundente e chega a desejar a mesma dor a quem estiver `incomodado´ com o que ouve. Soa bem agressivo. Por que essa opção?

Isso foi escrito por Marguerite Duras, é inacreditável, parece mesmo endereçado à uma plateia. Na verdade nós partimos do texto La Douleur, escrito em 1945, e editado em 1985 e misturamos com trechos dos Cadernos de Guerra. Você conhece? Não? Foi publicado não faz muito tempo, é um texto elaborado a partir de seu diário e muito mais violento do que você viu no teatro. Por exemplo, o que ela fala contra De Gaulle e a Direita francesa é terrível, muito mais agressivo. Dali retiramos esse trecho que dirigimos ao público. La Douleur ocupa apenas uma parte desses Cadernos retrabalhados a partir do diário original. Eu o peguei na mão. São dois cadernos desses escolares, de criança, com anotações em uma escrita incrivelmente regular e calma para contar algo tão caótico e horrível. É sábio.

 

Há um distanciamento sutil no seu trabalho. Você fala o texto de Marguerite Duras, mas parece deixar claro que não é ela. É isso?

Não seria interessante interpretar Marguerite Duras, cair na imitação. E eu iria me apoiar na escritora que conhecemos hoje ou na mulher de 30 anos que escreve o diário? De qualquer forma seria uma redução. O que interessa é: uma mulher espera, durante a Guerra, em Paris, seu marido que é um resistente e está num campo de concentração. Eu a defino como a mulher que espera. Uma espera mítica, universal, retratada num texto magnífico. Por isso pode tocar qualquer ser humano em qualquer parte do Planeta.

 

Embora muito intenso, seu trabalho parece ser cuidadosamente elaborado para não provocar piedade. Estou certa?

Eu penso que o patético não seria interessante nesse caso. Mesmo explorar o pathos dessa situação seria menos interessante. Quero transmitir a dor dessa espera, contar sobre ela, mas para isso não preciso eu mesma mostrar um sofrimento dessa forma (faz uma expressão característica da vítima)

 

Gostaria que falasse um pouco sobre sua parceria com Chéreau. Não há o risco de cristalizar, de se repetir ao trabalhar muito com um mesmo diretor?

Eu comecei a fazer teatro com Chéreau. Foi numa montagem de Peer Gynt, em 1981, na qual eu tinha um papel pequeno. Fiz outras coisas fora e, mais tarde, quando ele era já diretor do Théâtre Amandiers, em Nanterre, atuei com ele em Les Paravents, de Jean Genet, num papel maior. Fizemos A Rainha Margot e Ceux qui M’aiment Prendront le Train no cinema e, depois, ele me dirigiu no papel central de Phedra, de Racine. Aí fizemos juntos a leitura dramática de La Douleur e, depois, ele junto com Thierry dirigiram esse texto. Mas eu não trabalho só com ele, não é uma exclusividade, que eu considero perigosa. Tenho necessidade de trabalhar com outros e ele também. Há o risco da rotina. Quando eu pedi que ele faça um espetáculo ele quis trabalhar com Thierry. Um pouco com ele, um pouco com cada um.

 

Qual a função de cada um no espetáculo, exatamente?

São dois olhares. As vezes eu ensaiava só com Thierry, as vezes só com Chéreau e também nos três juntos. A qualidade do olhar não é a mesma, a sensibilidade muda. É uma parceria original que resultou muito bem.

 

Quando Chereau convidou você estava questionando sua trajetória. Qual era sua insatisfação, se a senhora não se importa de falar?

É uma história interessante. Você sabe, o métier de atriz é magnífico, mas também muito difícil. Eu sou muito exigente com minhas escolhas. Recebemos convites para trabalhos que não são muito bons, mas também com os quais se pode ganhar dinheiro, há muitas tentações. Assim há momentos em que nos sentimos muito frágeis, vulneráveis,e depois de Phedra isso me aconteceu.Eu atuei em Phedra por uma temporada, depois fiz uma turnê, e depois de repente... O deserto. Eu não encontrei mais ninguém para trabalhar comigo e me senti muito só. Eu tinha começado com Chéreau que me viu debutar e então pensei que a única pessoa que tem um olhar sobre o meu caminho é Chéreau e fui procurá-lo.

 

Em 1999 a senhora participou do júri em Cannes. Difícil essa experiência de julgar, estar numa competição?

Fiz parte do júri no Festival de Cannes e depois de Berlim. E sempre difícil. Reuném-se dez pessoas, veem 26 filmes e todas devem entrar em acordo nas escolhas. É quase impossível. Mas o que é fascinante nessa experiência e encontrar gente que tem um olhar amoroso para o cinema. Lembro de um cineasta que se chama George .... eu fez Mad Max e esse homem conhecia o cinema francês dos anos 30 e 40 melhor do que eu. E ele se pos a falar de uma forma apaixonada desse cinema e foi extraordinário. E tem o momento em que todos discutem, brigam, negociam, e isso não é tão interessante. Mas também se aprende muito. Não sei se repetiria a experiência. Se é essa a pergunta, não tenho paixão pelo ofício de fazer parte de júri.

 

Qual a sua visão sobre a explosão de violência nos subúrbios de Paris?

Há um governo de Direita que não tem muita estima pela população de imigrantes, cada vez mais marginalizada, não há programa de Cultura, não há nada, só polícia. E se há muito policiamento não se pode dizer nada. Evidentemente que a juventude oprimida iria explodir em algum momento.

 

É guerra. Como tal, há um movimento semelhante ao da Resistência por parte da Esquerda? A senhora percorreu os subúrbios com La Douleur?

Eu fiz dezenas de apresentações de La Douleur nos arredores de Paris, na Provence, continuo em turnê até abril, passo por Lisboa, Roma, Madrid, mas não há um programa específico para os subúrbios e a população de imigrantes não vai ao teatro, sobretudo os jovens. E não há qualquer movimento, a Esquerda está dividida em disputas internas e isso é muito mal. Falta um líder carismático para unir forças.

 

Há uma parte do espetáculo em que a mulher ‘reforça’ a ideia quase inacreditável que de aquele massacre de guerra ocorre na Europa. Também surpreendeu ao mundo a violência nos subúrbios de Paris recentemente. Qual a sua visão sobre esses acontecimentos?

Há um governo de Direita que não tem estima pela população de imigrantes. Então há as pessoas desamparadas, cada vez mais marginalizadas, não há cultura, não em nada. E a pobreza é tratada como caso de policia e se há muito policiamento não se pode dizer nada. Evidentemente que a juventude oprimida iria explodir em algum momento.

 

É também um guerra. Há um movimento semelhante ao da Resistência por parte da esquerda? A senhora percorreu os arredores de Paris com La Douleur.

Eu apresentei La Douleur nos arredores de Paris, na Provence, Lisboa, Roma, Madrid, continuo até abril, mas não há uma turnê específica para os subúrbios de Paris. A população de imigrantes não vai ao teatro e sobretudo e jovens imigrantes não vêm ao teatro. Infelizmente, porque esse texto poderia tocá-los. Eu amaria muito que eles viessem. Mas não há qualquer movimento, a esquerda momento está dividida em disputas internas e isso é muito mal. Falta um líder carismático que possa unir a esquerda.

 

Em 1999 a senhora participou do júri em Cannes. Difícil essa experiência de julgar, estar numa competição?

Fiz parte do júri no Festival de Cannes e depois de Berlim. É sempre difícil. Dez pessoas se reúnem em poucos dias, veem 26 filmes e todas devem entrar em acordo nas escolhas. Impossível. Mas o que é fascinante nessa experiência e encontrar gente que tem um olhar amoroso para o cinema. Lembro de um cineasta que se chama George Miller, o diretor de Mad Max. Pois esse homem conhecia o cinema francês dos anos 30 e 40 melhor do que eu. E ele se pôs a falar de uma forma apaixonada desse cinema e foi extraordinário. Tem aqueles momentos em que todos discutem, brigam, e depois negociam, e isso não é tão interessante. Mas também se aprende muito. Não sei se repetiria a experiência. Não tenho paixão pelo oficio de fazer parte de júri.

 

Há uma parte de La Douleur na qual Marguerite Duras enfatiza - ressaltada no espetáculo - que aquele massacre ocorreu na Europa. Não numa aldeia, num canto selvagem do Planeta, mas na Europa. Também surpreendeu ao mundo a violência que explodiu recentemente nos subúrbios de Paris. Qual a sua visão sobre esses acontecimentos?

Há um governo de Direita que não tem muita estima pela população de imigrantes, cada vez mais marginalizada, não há programa de Cultura, não há nada, só polícia. E se há muito policiamento não se pode dizer nada. Evidentemente que a juventude oprimida iria explodir em algum momento.

 

É também uma guerra. Como tal, há um movimento semelhante ao da Resistência por parte da Esquerda? A senhora percorreu os subúrbios com La Douleur?

Eu fiz dezenas de apresentações de La Douleur nos arredores de Paris, por toda a região da Provence, continuo em turnê até abril, passo por Lisboa, Roma, Madrid, mas não há um programa específico para os subúrbios. E a população de imigrantes não vai ao teatro, sobretudo os jovens. Eu amaria que eles viessem. E La Douleur pode ser compreendida e apreciada por qualquer espectador, é uma espera mítica. Mas eles não vêm. E apesar disso não há qualquer movimento, a Esquerda está dividida em disputas internas e isso é muito mal. Falta um líder carismático para unir as forças de esquerda.

 

Isso seria necessário?

Sim. Por causa de Sarkozi, para fazer frente ao seu poder.

 

Serviço

La Douleur. 75 min. 14 anos. Sesc Consolação. Teatro Anchieta (320 lug.). Rua Dr. Vila Nova, 245, 3234-3000. Hoje, 21 h; amanhã, 19 h. R$ 30

 

A repórter viajou a convite da organização do festival

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