História é o trunfo de 'Estive Lá Fora', romance de Ronaldo Correia de Brito

São três os núcleos do livro: a experiência de um estudante de medicina; a repressão e a evocação do Recife

João Cezar de Castro Rocha,

14 de setembro de 2012 | 19h00

Em determinado momento da narrativa, Cirilo, protagonista de Estive Lá Fora, busca uma solução literária para o triângulo amoroso que vive com Paula e seu amigo Leonardo. O estudante de medicina, que no fundo deseja ser escritor, decide confrontar o rival, recordando A Intrusa, conto de Borges. Nele, dois irmãos se envolvem num explosivo triângulo amoroso, que somente se resolve através do sacrifício da mulher que os ameaçava dividir. Cirilo retoma a história:

"- Vou narrar quase como foi escrito. De tanto ler, terminei decorando. Borges começa a história no estilo que o consagrou, o de induzir o leitor a acreditar que se trata de um relato acontecido de verdade.

- Dispense a crítica literária.

- Se não quiser ouvir, não conto.

- Vai, conta".

Talvez o amigo devesse ter resistido! Um senão que se pode fazer quanto à estrutura de Estive Lá Fora é a onipresença tanto de explicações desnecessárias como de reflexões metalinguísticas, por vezes em franca contradição com a história que se narra. De fato, em tese, há no texto várias vozes narrativas, mas o registro delas parece determinado pela mesma dicção.

Ressalve-se que a história é ótima. Trata-se de um romance de formação às avessas, que também realiza uma autêntica evocação do Recife nos anos imediatamente posteriores ao golpe de Estado de 1964.

O romance, portanto, articula três níveis narrativos: a experiência de Cirilo como estudante de medicina; o clima de repressão política dos anos de chumbo; a cidade do Recife e suas formas de convívio. Talvez seja mais exato dizer que o romance é estruturado a partir de três núcleos.

A trajetória do personagem Cirilo favorece o cruzamento dos níveis. De um lado, seu irmão, Geraldo, é um militante de esquerda que termina assassinado por agentes da repressão. De outro, Cirilo palmilha o Recife de alto a baixo, convivendo com estudantes pobres como ele, pescadores que moram em palafitas, trabalhadores que estudam à noite, jovens mulheres de classe média. Uma espécie de Julien Sorel da Veneza americana, os passos de Cirilo costuram os planos da narrativa.

Assim, a trama é envolvente e a estrutura da narrativa muito bem pensada. Contudo, Estive Lá Fora é um romance que mereceria ser mais trabalhado pelo autor, pois não chega a plasmar uma linguagem à altura da ambição do projeto.

Logo no início do livro, em peregrinações eventuais por prédios abandonados, Cirilo encontra "manchas de sangue ou esperma nas paredes dos quartos, revelando que naqueles aposentos as pessoas se amaram e odiaram". A imagem, pelo puro excesso, perde força.

E o que dizer das relações inusitadas de causa e efeito que o narrador propõe em vários momentos? "Não havia lei de congresso estabelecendo a divisão de trabalho nas famílias, por isso (o grifo é meu) as mulheres aceitavam passivamente as funções acumuladas ao longo de séculos."

A intenção provavelmente irônica se perde na enunciação quase didática, que acaba por dominar o texto. Por exemplo, logo no início da narrativa, encontra-se uma "explicação" que se poderia dispensar: "Foi quando Leonardo entregou-lhe a carta em que era possível reconhecer influências de Hermann Hesse, um autor alemão com marcas românticas e regionalistas, execrado pelas esquerdas que o acusavam de pieguismo e excesso de psicologia".

Compreende-se o propósito de ambientação histórica por meio da reconstrução de leituras e interpretações características de determinado período. A ideia, mais uma vez, é excelente, porém, a frase desarma a intenção do procedimento.

De igual modo, em certo instante, o narrador informa: "Na aula de psiquiatria, um professor recém-chegado de Paris, onde se formara pela Associação Internacional de Psicanálise, criada por Freud e seus seguidores, iniciava os alunos nas técnicas do psicodrama". O leitor agradece pela informação - "criada por Freud e seus seguidores" -, embora não compreenda seu rendimento narrativo. Casos similares não são raros.

O autor chega a fazer uma "Nota" no fim do romance. Citemos uma passagem dela: "No último capítulo aparecem referências a formas narrativas em que são citados Ricardo Piglia, Jorge Luis Borges e Ernesto Sábato".

O leitor, a esta altura, pode se lembrar de Leonardo: "Dispense a crítica literária".

JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA É PROFESSOR DE LITERATURA COMPARADA DA UERJ

ESTIVE LÁ FORA

Autor: Ronaldo Correia de Brito

Editora: Alfaguara

(295 págs., R$ 44,90)

 

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