História e crônica da cidade

1565 - Enquanto o Brasil Nascia, de Pedro Doria, reconstitui os primeiros anos do Rio

ELIAS THOMÉ SALIBA É HISTORIADOR E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO , O Estado de S.Paulo

03 Novembro 2012 | 02h06

Nas primeiras páginas de sua popular História de Roma, o jornalista italiano Indro Montanelli alertava aos seus inúmeros leitores que havia escrito aquele livro não para ensinar, mas para aprender história. O jornalista Pedro Doria também nos diz que seu livro mais recente foi escrito com o mesmo espírito. Mas não confie inteiramente o leitor em tal advertência, pois mais do que um simples exercício de aprendizado, 1565, Enquanto o Brasil Nascia é uma narrativa detalhada e cheia de empatia, abrangendo não apenas os primeiros anos da história do Rio como também alguns dos dilemas estratégicos que presidiram o surgimento das primeiras cidades do Sudeste brasileiro.

Contar uma história novamente, a partir de nossas inquietações no tempo presente, não é apenas um repetitivo ensaio didático, porque - como já o demonstrou Carlo Ginzburg - os procedimentos narrativos em história funcionam como campos magnéticos, provocando novas indagações e atraindo outras fontes. Sobretudo quando essa narrativa não abandona trajetórias e histórias reais das pessoas que viveram aquela época. 1565, o ano da fundação do Rio, é só uma data catalisadora dos inúmeros dramas e histórias que Pedro Doria reúne numa narrativa fluente, que a toda hora faz referência a lugares de memória que constituem uma espécie de topografia sentimental para os cariocas - como Botafogo, Catete, Cara de Cão, Pão de Açúcar, Pedra da Gávea e outras tantas referências, hoje órfãs de significado, perdidas no esquecimento coletivo. Em alguns momentos, a narrativa faz lembrar o tom afetivo de antigos memorialistas cariocas, como Vieira Fazenda, Luis Edmundo, Gastão Cruls ou Vivaldo Coaracy.

Mas ao contrário do passado um tanto harmonioso pintado pelos memorialistas, Pedro Doria nos mostra que o nascimento do Rio não foi nada tranquilo, envolvendo uma trama complexa e cruenta de guerra, conquista e dizimação. E que a colonização foi obra de inúmeros personagens, os semeadores de cidades, não necessariamente portugueses, mas também jesuítas, índios, mamelucos, judeus novos, franceses, holandeses e africanos. A partir daí, o autor revisita muitas histórias pitorescas, como a da rainha africana N'Zinga, de Luanda, uma guerreira tão astuta e cheia de malemolência que talvez esteja na origem primitiva da palavra ginga. Ou a história do português João Pereira de Sousa - endividado na Europa e degredado no Brasil -, que acabou recrutado como artilheiro por Estácio de Sá para a expedição militar que, em 1565, expulsou os franceses do Rio. Seu posto militar, como responsável pelos canhões, lhe valeu o apelido de Botafogo, hoje mais conhecido apenas como nome de bairro e time de futebol.

Antenado com as pesquisas recentes que resgatam muitos personagens da penumbra, Pedro Doria nos mostra ainda quanto a história do Rio dos primeiros tempos quase se confunde com uma biografia coletiva da família Sá: lá estão as trajetórias de Mem, Estácio, Martim e Salvador, todas elas rigorosamente sincronizadas com a história dessas décadas decisivas da história brasileira. Cada uma dessas figuras, nos seus traços singulares e contrastantes, se consolidaram numa espécie de paradigma antropológico do colonizador luso, tão bem descrito por Sérgio Buarque de Holanda em Caminhos e Fronteiras. Metendo-se em veredas cerradas como mateiros ou aprendendo a falar a língua tupi, todos os líderes da genealogia dos Sá mostraram-se capazes tanto de se aventurar como bandeirantes como de lutar contra indígenas ou franceses, ou, ainda, de discutir e negociar a incipiente geopolítica do império com fidalgos do reino ou gente da Corte.

Mas foram os jesuítas, capitaneados por Nóbrega e depois, Anchieta, que tramaram a ligação entre a luta dos paulistas e a luta para dominar a terra onde se concentravam os índios inimigos na Baía de Guanabara. Doria descreve uma época na qual os padres se transmutaram em médicos, horticultores, conselheiros, mestres-escolas e, sobretudo, amansadores de índios. Não foi por coincidência que Alberto Lamego chegou a definir esse período como a "fase jesuítica" da história do Rio. Enfim, o Rio somente nasceu como cidade quando os próprios paulistas, a Corte e a Companhia de Jesus se convenceram da necessidade de criar um núcleo urbano incrustado no interior dos domínios tamoios na Guanabara. A necessidade urgente de lutar contra as complexas redes dos índios tupis obrigou a todos a juntar esforços, forjando relações de dependência entre a cidade que nascia na Baía de Guanabara e a vila de São Paulo. A narrativa de Pedro Doria termina com uma sugestão sutilmente irônica: o Rio nasceria para que São Paulo sobrevivesse. "A relação do Rio com Lisboa deu frutos para S. Paulo" - escreve o autor - "isto porque o Rio lidava com a metrópole em nome dos paulistas, o que possibilitou que estes últimos pudessem seguir em suas bandeiras desobedientes. (...) O Rio foi o intermediário que amaciou a relação (...) e nasceu como uma cidade que juntou o espírito libertário de São Paulo com a malemolência e o jogo de cintura para lidar com a Corte."

É certo que Capistrano de Abreu, assim como muitos historiadores, torceriam o nariz para tal interpretação, argumentando que tal identidade era um tanto postiça para aqueles homens de um "barroco rude", que dificilmente se sentiram paulistas, cariocas ou sequer brasileiros: "Era mesmo duvidoso se sentiram, não uma consciência nacional, ou, ao menos capitanial, embora se usassem tratar-se de patrício ou paisano", escreveu Capistrano. Seja como for, a interpretação de Doria é interessante, bem fundamentada, e abre caminho para novas indagações. Afinal, é isso que faz do conhecimento histórico algo sempre vivo. E a narrativa, quando bem conduzida, atua como um campo magnético, atraindo novos significados do passado para a memória viva do presente.

Livro mostra que a colonização contou não só com portugueses, mas também judeus novos, franceses, etc.

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