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História desenrolada

Filme cearense feito por cearenses, 'Cine Holliúdy' quer abrir um filão no humor para todo o País

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2013 | 02h17

Para o diretor Halder Gomes, um dos motivos do sucesso de Cine Holliúdy é o fato de se tratar de um filme cearense feito por cearenses. A produção, que estreou em agosto no Ceará, fez 100 mil espectadores com apenas nove cópias. "Esta média dá cerca de 2,3 mil espectadores por cópia. E isso só foi aumentando com o boca a boca. É maior que a média do Titanic no Ceará. E isso aconteceu também porque o público se reconheceu na tela", diz.

"O nordestino da TV, das novelas, em geral, não é o real. Então, quando o Nordeste se vê na TV, não se reconhece", comenta o diretor. "O Brasil é imenso. Há tantas culturas no Nordeste. Quando um cearense se vê numa novela, vira pro pernambucano e diz: 'Macho, é tu ali?' E o pernambucano responde: 'Cabra, não sou eu não'", brinca o diretor, que domina como poucos a arte de fazer humor de si mesmo sem cair em preconceitos e no famigerado bullying.

"No Ceará não tem bullying não. É assim que eles são mesmo. O filme é 'eles por eles mesmos'. É autêntico. O que se fala em cena, eles dizem entre eles. Dão tapa na cabeça. Brincam muito com as crianças, dizem: 'Vem cá seu orelhudo...'. Eu, carioca, achava estranho. Mas vi que é brincadeira", conta a atriz Miriam Freeland, a única não cearense do elenco, que na trama vive Maria das Graças, mulher de Francisgleydisson (Edmilson Filho). "Mergulhar nesta atmosfera foi meu desafio. Pesquisei muito, entendi a musicalidade."

Por ter em seu DNA este humor escrachado típico do Ceará, que já presenteou o Brasil com tantos talentos (Chico Anysio, Renato Aragão, Falcão...), pode passar a impressão de que Cine Holliúdy é um filme de nicho. "Pelo contrário. Este filme é para o 'canelau', pro povão. Humor é universal", comenta o humorista Marcondes Falcão, que na trama vive o Cego Isaías. "Esta era uma preocupação que eu tinha quando lancei meu primeiro disco, que tinha um 'cearensês' pesado. Foi impressionante. Todo mundo entendeu."

Para Falcão, a verdadeira unidade nacional do Brasil é a irreverência. "Vi isso no meu trabalho. Não é preciso ter medo de que não vai dar certo no Sudeste ou no Sul. O brasileiro é moleque, sacana. Mais acentuadamente no Nordeste, mas repare que, de tudo que acontece de ruim aqui, o brasileiro imediatamente transforma em brincadeira, sacanagem. A grande sacada deste filme é abrir um filão dentro do próprio cinema brasileiro, que é fazer este tipo de humor que 'desce de lá para cá'", diz Falcão.

É este filão que Halder pretende conquistar com a estreia de Cine Holliúdy com 40 cópias em São Paulo, Belo Horizonte, Rio e Vitória. "Quero que seja visto por todos. Mas também quero que chegue a muitos dos 40 milhões de nordestinos saudosos que vivem no Sudeste. Há uma demanda imensa cultural, que só encontra alguma resposta com a música", comenta Gomes.

Um dos cearenses que deixaram sua terra, mas fazem questão de manter os pés firmes em sua cultura, é Edmilson Filho. "Já morei na Inglaterra e hoje vivo em Los Angeles. Mas estou sempre em contato com minha família e amigos. É, claro, parte de mim", conta ele, que se diz "ator em seus melhores dias" e também comediante. "O que tenho a ver com o Francisgleydisson é o carisma, a paixão. Tanto que ele luta de forma tão bonita contra o fim do cinema, em plenos anos 70, quando a TV era uma ameaça. Ele é um contador de histórias", diz Edmilson, que também é tricampeão brasileiro de tae-kwon-do e foi apontado por Fernando Meirelles como o melhor comediante popular do Brasil desde Oscarito. "Chaplin ficaria de boca aberta", comentou o diretor em seu Twitter sobre a performance de Edmilson na última sequência do filme. "Sou comediante desde os 17 anos, mas também, assim como Halder, sou apaixonado por artes marciais. Dei aulas, tive academia de tae-kwon-do. Vendi tudo e parti para outra fase, a de atuar, fazer comédia. E o cinema, muito pelo Halder, me pegou primeiro. Fizemos artes marciais por influência do cinema, amamos Bruce Lee e seus filmes. O filme presta esta homenagem. E voltamos ao cinema por causa das artes marciais. Fiz com ele o curta (Cine Holliúdy - O Artista Contra o Cabra do Mal, que deu origem ao longa). E hoje estamos aqui. É um ciclo. No fundo, somos desenrolados."

Halder - que nos EUA atuou em todas as funções do cinema; trabalhou com Spike Jonze; dirigiu um longa de suspense em Hollywood (The Morgue, Cadáveres 2); dirigiu, com Glauber Filho, As Mães de Chico Xavier; e é produtor de Área Q e Bezerra de Menezes - é prova disso.

Ispilicute

Do inglês “she’s pretty cute”.

Significa engraçadinha,

mulher muito faceira.

Amufinado

Murcho, triste, sem

vontade para nada

Catrevage

Coisa velha

Coisar

Verbo que serve como

substituto daquele que

a pessoa esquece ou não

quer, exatamente, usar

Ai dento

Resposta a provocação,

antibullying cearense.

Ande, tonha!

Yesssssss!

Macho ou machorréi

Cara, amigo. Ex.:“olá, macho réi!”

Indarrai?

Palavra indiana, ainda inédita

na Índia, que indaga sobre

uma nova tentativa a quem

acabou de se estrepar.

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